NA PRÁTICA, A TEORIA É OUTRA
Por José Adelino Maltez
maltez@netcabo.pt
Confesso que, no quadro do actual governo, os ministros da área educativa são dos poucos com quem sinto uma certa afinidade valorativa e de cujas boas intenções reformistas não duvido. Ora, porque, antes de ser de esquerda ou de direita, eu tenho que ser da pátria, só pela superação do facciosismo é que posso cumprir os meus deveres de pai, que quer viver como pensa, e de professor, que quer efectivamente professar a sua vocação. Daí que não tema parecer que estou à esquerda, quando me congratulo com o facto de passarmos dos mil estudantes do ensino superior de 1910 para o mais de meio milhão dos dias que correm, da mesma maneira como não disfarço que estou à direita, quando sinto saudades dos segmentos de alta qualidade do ensino público republicano-salazarista que me formaram.
Aliás, nos domínios da política educativa, se confundisse a direita com os interesses que domesticamente a ocuparam, estaria condenado a ter que continuar a votar à esquerda, para poder conservar incorruptíveis as minhas crenças e libertar a república das teias sem honra que a ameaçam, apesar das encenações.
Por outras palavras, acredito que é possível a meritocracia, ou o elitismo democrático, desde que a leal concorrência da avaliação do mérito trate de assentar numa efectiva igualdade de oportunidades e numa adequada organização do trabalho nacional.
É por isso que não critico a circunstância de ter sido dada divulgação pública do ranking das classificações do 12º ano das escolas secundárias. Bem pelo contrário! Assim, todos passámos a dispor de uma prova inequívoca do flagrante desrespeito do princípio da igualdade de oportunidades, um dos principais pilares de qualquer Estado de Direito Democrático que, além disso, está constitucionalmente consagrado.
Da mesma forma, estranho que o chamado processo de avaliação do ensino dito superior não permita que se avaliem os avaliadores, dado que a lógica de quintarola autista que o comanda, ao confundir o nome com as coisas nomeadas, continua o atavismo inquisitorial de qualificar como párias de ‘mau feitio’ aqueles que, a título individual ou institucional, exercem o radical dever de pôr em causa o pretenso sagrado de certos elementos ‘intocáveis’ da fábula dessa sociedadezinha de corte, assente no equilibrismo dos “lóbis que não uivam”.
Apesar de quase todos os nossos ministros da educação desde 1974 se assumirem como socialistas ou sociais-democratas, na prática, a teoria é outra, dado que, nesta viragem do milénio, caminhamos para a criação de funestos mecanismos de perpetuação de um falso elitismo social que pode contribuir para a destruição da nossa tradicional democracia da sociedade civil. Desculpando-nos com a quantidade, continuamos a reservar a qualidade para os chamados VIP, retomando o pior do congreganismo e do republicanismo fidalgote, através de uma estranha aliança protectiva entre salazarentos e esquerdulhos da santa extrema, mas afilhados ou sobrinhos dos primeiros.
Se os responsáveis pela política educativa continuarem a lavar as mão como Pilatos, brincando ao jogo do gato e do rato, de acordo com as teses da velha direita e da velha esquerda, passaremos pela vergonha de as actuais escolas públicas serem menos igualitárias do que as do salazarismo, da I República e da monarquia liberal.
Bem gostaria que, além do ranking da frieza estatística, fossem divulgadas as escolas que os senhores ministros, deputados e dirigentes partidários escolheram, enquanto pais e mães, para a inscrição dos respectivos filhos. Bem gostaria de saber das inúmeras “cunhas” que, no dia seguinte à emissão do primeiro ‘ranking’, foram metidas pelos senhores governantes, parlamentares e partidocratas que costumam fazer essas visitas de choradinho aos selvagens sítios educativos a que estão condenadas as massas populares.
Os senhores políticos da esquerda arqueológica que continuam a clamar pelo laicismo republicano, se fossem efectivamente adeptos do efectivo republicanismo, deveriam ser os primeiros a clamar contra um dos principais crimes que a nossa geração está a cometer contra o desenvolvimento de Portugal, ao aceitar-se passivamente a manutenção desta vergonhosa geometria variável que nos terceiromundiza.
Repetindo outras palavras da minha autoria, bem mais antigas, tenho de concluir que “a principal riqueza de qualquer país está nas pessoas que constituem. A principal riqueza de Portugal está nos portugueses”.
Ora, porque “cada português é um ‘homem concreto’ que dentro de si deve descobrir e conquistar o homem completo, a função da educação é a de ‘ajudar o homem a libertar-se da servidão’. Portanto, ai da educação que vegete na mediocracia; que, desculpando-se com a quantidade, trate de diminuir a qualidade; que sob o pretexto da massificação, ponha o superior ao serviço do inferior; o transcendente ao serviço do rasteiro; seja o homem ao serviço de uma abstracção; seja a sabedoria ao serviço da técnica”.
“Só pode ser autêntica uma educação ‘que atinja o universal através da diferença e que não esvazie o homem de história’; que o não desenraíze do chão físico da sua ecologia e do chão moral da sua história. Só podem ser iguais os que são dignos”.
“A escola não deve ser ‘uma fábrica de saber fazer’ ou um mero centro de formação de postos de vencimento; a escola pode e deve ser tudo isso se antes for ‘uma escola de cidadãos e um centro de comunicação de valores’; isto é, deve ser uma instituição, onde os métodos estejam ao serviço dos fins”.
“Portugal empobrecerá, envelhecerá e injustiçar-se-á se, a nível do sistema de ensino, não se puserem os meios ao serviço dos fins; isto é, a escola ao serviço do homem; a técnica ao serviço da sabedoria; a organização ao serviço de uma ideia de escola”.