Os ministros passam, o Zé Povinho paga!
José Adelino Maltez
Tristes são estes sinais dos tempos que se vão manifestando, nesta política de
trazer por casa, onde os íntimos maus cheiros da roupa suja tanto afectam os
partidos no poder quanto o principal partido da oposição. De um lado e de outro,
nem uma só palavra de esperança que nos mobilize para a necessária boa causa,
capaz de nos libertar desta hipocrisia gestionária, onde continuamos a não
reparar que as “criaturas”, que vamos analisando até à náusea inquisitorial,
nomeadamente através do registo de escutas telefónicas, são meros sintomas
daqueles outros males mais profundos que vão corroendo o regime.
Sinto que continuamos a ser instrumentalizados pelas teias de um mecanismo cujo motor vagamente se pressente, embora não se consigam identificar, com toda a precisão, as correias de transmissão do enredo. Porque os muitos “criadores” que geraram as presentes “criaturas” crepusculares que circulam pelos traseiros do poder, são mera consequência do vazio de pensamento provocado pelos “kingmakers” das sucessivas sociedades de corte, que se implantaram de forma neofeudal, através do científico jogo da sedução, da adulação e da cunha, que nunca tiveram registos de voz nos arquivos policiais.
Muitos dos inimputáveis marechais e senadores, que, agora, fazem os discursos moralizadores da serôdia impunidade, são exactamente os mesmos que manipularam os altíssimos lugares cimeiros, dando palmadas nas costas a banqueiros e terroristas, cardeais e aventais, para que todos fôssemos unidimensionalizados através da obediência pelo temor. Ora, essas sínteses magistrais do nosso “pensar baixinho” quase se assemelham àqueles intelectuais que são importantes, na política, por terem a fama de intelectuais, enquanto conseguem algum destaque, entre os intelectuais, por invocarem a sua condição de políticos. E, no intervalo, lá vão abichando uma avença, um tacho dourado e outras mordomias, com que conseguem mandar em motoristas, nomear uns primos e jagunços ou desviar um subsídio, para manterem a imagem de que ainda controlam as teias do “poder nu”.
Muitos deles nunca tiveram, dos verdadeiros políticos, a matriz genética do militante, da mesma maneira como não atingirão o médio prazo da perenidade do intelectual, dado que cairão no silêncio quando saírem do palanque que lhes dá o jogo da notoriedade política. Daí que odeiem todos quantos se regem pela ética da convicção e que não deixam de proclamar a respectiva liberdade de pensamento.
No entanto, foi essa ilustre gente que moldou as presentes marionetas amestradas que se contentam com alguns minutos de passagem pela glória das “passerelles” do mediatismo ministerial, assumindo a dimensão de meros serviçais da democratura e do doce neocolonialismo predador que nos fustigam.
Quando a esquerda e a direita são meros pretextos para a dialéctica da máquina de calcular dos que nos querem transformar em sub-xerifado dos grandes donos do mundo, temos de concluir que, nesta orgia da incompetência, talvez faltem políticos que se assumam como a voz tribunícia dos muitos povos mudos desta nossa pátria, que não vêem saciada a respectiva sede de justiça. Quando os colonizados sub-colonizam, o resultado só pode ser este neomaquiavelismo de traduções em calão.
Julgo que para se recordar que o país é obra de soldados nem o presidente do conselho Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro colocaria o ministro Carlos Lobo d’Ávila a ler o discurso de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, apesar dos assessores de imagem da governação apontarem para encenações patriatorrecas que compensem as cedências ao fatalismo da mistela euro-tola.
Espero que tais assessores não aconselhem as altíssimas figuras ministeriais a enfiarem o barrete dos nossos Kumba-Iá-Cá, que já nos chega Alberto João Jardim a reduzir De Gaulle à dimensão de Pedro Santana Lopes, ou aquela excelência ministerial, cujos homónimos ocuparam lugares na galeria dos ministeriais da monarquia liberal e do Estado Novo, que, cedendo ao subliminar do nosso racismo social, tratou de considerar alguns grupos não apoiantes do governo como marcados por uma “esperteza saloia”. Eu que, muito orgulhosamente me sinto parte desta ancestral componente rural da pátria, apenas qualifico como pouco esperta tal investida de genocídio verbal contra os que não fazem parte dos “backgrounds” do “jet set”. Enfiando o negro barrete de tais humilhados, apenas tenho que invocar o gesto adequado desse máximo símbolo saloio que Rafael Bordalo imortalizou. Os ministros passam, o zé povinho, apesar de pagar, dá-lhes o gesto da revolta!
maltez@netcabo.pt
20-10-2003 11:45:23