PORTUGAL PRECISA DE UM INDISCIPLINADOR

 

 

Há cerca de setenta anos, o nosso Fernando Pessoa, numa súbtil análise dos começos do salazarismo, proclamou que Portugal precisava de um indisciplinador, denunciando aquilo que então considerava ser a doença da ordem. Hoje, neste tempo de encruzilhada, apetece repetir o mesmo grito pessoano, não contra a doença da ordem, mas contra a doença da aposentadoria.

Com efeito, não nos parece que a pátria esteja em perigo nesta viragem do milénio. Dois terços dos portugueses que restam vivem remediamente melhor. Usam telemóvel; têm frigorífico e duas televisões; podem deslocar-se de automóvel e motorizada; e guardam um certo pé-de-meia que lhes garante o mínimo de bem-estar. Aliás, até o Engenheiro Guterres nos continua a parecer como um homem de boas intenções, tal como o Dr. Sampaio é menos mau. Mesmo os escândalos do queijo limiano ou da Fundação Vara são meros pigmeus face ao ocorrido em Espanha com Alfonso Guerra, em Itália com as mãos limpas, na Alemanha com Kohl ou na França com os antigos membros do gabinete de Chirac.

Para dois terços dos portugueses, estão efectivamente atingidos aqueles mínimos de sobrevivência que nos permitem conservar o que fomos, jardineirando estes campos à beira mar plantados, com as sementes e as ferramentas que outros tempos nos legaram, desde a pesada herança do fascismo, às delícias do socialismo de consumo da época pós-revolucionária, a que acresceram as vantagens da integração europeia.

Dois terços dos portugueses submeteram-se para sobreviver, foram premiados pela cobardia e pela servidão e resistem utilitariamente nessa lógica do aposentado, à espera do tempo que passa, devorando as notícias vindas do jet set ou emocionando-se com as aventuras acabrunhantes do big brother. Dois terços dos portugueses não tem esperança nem desespero e preferem negar o mundo e os seus conflitos, pelo que continuam disponíveis para sustentarem os dois grandes partidos do centrão que gere esta ditadura do statu quo.

Infelizmente, há um terço de portugueses excluídos deste processo de aposentação cinzentamente semidourada. São os pobres envergonhados, os jovens sem esperança na justiça e os que têm saudades de futuro. Uns, marcados pelas utopias daqueles modelos planificados do dever-ser, outros, tocados pela esperança dos desesperados, ambos sentem a impotência das minorias.

Estamos, como há quase cem anos, quando Miguel de Unamuno considerava que a nossa “tristeza enorme, este pessimismo arreigado tem origem na falta de um ideal colectivo elevado, um desses ideais que, unificando a vida de um homem e de um povo, lhes confere aquela personalidade sem a qual, e apesar da riqueza, a vida não passa de tristeza e de vacuidade. A origem de tal pessimismo é a apatia, uma apatia que, às vezes, desencadeia ataques de fúria”.

Continuamos como, pouco tempo depois, observou Keyserling: “todos os feitos e gestos dos portugueses foram verdadeiros fenómenos de explosão”. Porque, “comprimidas, tensas e, no entanto, sem contacto interno, as forças contrárias avizinham-se como um explosivo. E não há possibilidade de desenvolvimento integral senão pela explosão. Inversamente, a impossibilidade de fazer a explosão, determina, por necessidade lógica, a crispação; as possibilidades unicamente parciais das forças portuguesas, tornam-nas sem finalidade”.

Compreende-se, pois, que dominem os maquiavéis da abstenção que, segundo dizem, não percebem nada de política. Os mesmo que, como um catavento bem oleado, estão sempre do lado que lhes convém, sempre ao sabor do vento novo. Esses que, anquilosados pela vergonha daquilo que representam - uma civilização moribunda -, se apressam sempre em denegrir os seus e em fazer a apologia dos adversários moderadamente.

Apetece, pois, citar o Frei Dinis das Viagens da Minha Terra, segundo o qual a sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era - mas muito menos ainda pode ser o que é.

Diremos que não há nenhum bruxo político, que seja capaz de visualizar o cenário onde se desenrolará, dentro de meses, ou anos, a vida portuguesa. A história não é nenhuma peça de teatro que cada um represente no palco da existência. A liberdade do homem não se restringe apenas à interpretação de um certo papel a priori escrito. A liberdade do homem implica a própria invenção dos papéis de cada um, porque a liberdade é, acima de tudo, criação. A liberdade vive-se, não se vê. E no dia a dia. Não é nenhum messias impossível para um amanhã distante, mas a carne e o sangue dos nossos desejos.

Ora, ao transformar aquilo que era um vínculo directo do homem com as coisas - a autêntica propriedade humana - num mero instrumento técnico para o exercício da dominação, o capitalismo condenou o homem à servidão do individualismo.

Mas, ao pretender construir-se uma alternativa à ditadura do statu quo com homens traumatizados, em luta pela sobrevivência, nada se conseguirá senão uma nova forma de opressão. Deixar intacta a tirania da produção e do lucro, transferindo para uma entidade vaga, chamada Estado, todos os instrumentos de dominação, será agravar ainda mais a desordem histórica que a falta de justiça provocou.

Como sair, então, desta sociedade de homens desenraízados e mutilados, incapazes  de se revoltarem como homens livres e não como escravos? Como vencer o sistema que faz com que as necessidades, os hábitos, os interesses e as dificuldades económicas determinem massivamente o comportamento e as opiniões dos homens? A resposta é nos dada por Emmanuel Mounier: não se curará o económico  senão com o económico, mas não só com o económico.

 

Bem Comum da Semana

Finalmente, alguns bispos da Igreja Católica portuguesa começam a emergir da sacristia e a utilizar a homília, seguindo o exemplo de João Paulo II. O artigo no “Diário de Coimbra” da autoria de D. João Alves e as palavras do bispo do Porto, no dia de Natal, talvez nos anunciem que os católicos querem voltar à cidadania activa, principalmente ao combate pelos valores fundamentais, denunciando o utilitarismo e o positivismo dominantes. O tempo dos florentinos salazaristas e das manobras de bastidores, com católicos a copiar o modelo da antiga maçonaria, afasta-os do povo e do futuro. Não tenham medo, bispos, Portugal precisa da vossa coragem!

 

Mal Comum da Semana

Porque continuamos este “desgraçado país, onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram”, como bem observou Almada Negreiros, consideramos lamentável que se inventem bodes expiatórios, como o ex-ministro Vara ou o ex-secretário de Estado Patrão, só porque corporizaram um “saco azul”. Estes casos não passam de “faits divers” que ocultam um mal maior: a incompetência de governantes e candidatos a governantes que não frequentaram adequadas escolas de quadros a nível da administração pública e dos partidos, como se o Estado de Direito e a Democracia não tivessem a sua deontologia e a sua técnica. Acabemos de vez com governantes e deputados de aviário. Vão para a escola!