O REGRESSO DO PIO BROTHER

 

Por José Adelino Maltez

maltez@netcabo.pt

 

I

OS FIOS DA CABALA

 

Se eu pudesse fazer um desses discursos da chamada “rentrée” proclamando o que efectivamente penso, diria que o povo português é “bondoso, inteligente, sofredor, dócil, hospitaleiro, trabalhador, facilmente educável, culto, mas excessivamente sentimental, com horror à disciplina, individualista sem dar por isso, falho de espírito de continuidade e de tenacidade na acção”. Notaria também que, “de tempos a tempos”, assiste-se ao “nascimento de certas ondas de pessimismo, dessa ânsia de deitar tudo a perder, não se sabe bem porquê, porque sim, desejo infantil de variar, de mudar, de quebrar o boneco para ver o que tem dentro”, para utilizar palavras de um beirão que nos controlou de 1928 a 1968, só porque tinha vícios e virtudes que eram o exacto oposto da maioria do povo que lhe ficou submetido.

 

Por isso, não dou grande importância às palavras com que o heterónimo do Senhor Primeiro-Ministro se comiciou em Caminha, ao dizer que a coligação estava para lavar e durar, misturando a oratória MRPP com a enigmática pose de Estado. Todos os que estudaram o respectivo perfil psicopolítico sabem que Sua Excelência tem chinesa paciência q.b. para aguentar determinados figurões com apolínea pose de Estado e fato às riscas, desses que, um quarto de hora antes de o deixarem de ser, ainda o são.

 

O “eu” político de Durão Barroso depende da “circunstância” coligativa, esse “acaso” insusceptível de ser extirpado, feito da renúncia de Marcelo, da derrota do Pedro e da genialidade do Paulo. Depende, sobretudo, da existência de vários ministros inexistentes, os tais que têm permitido comprovar as virtudes da auto-regulação corporativa.

 

Quem efectivamente conhece Barroso, sabe que ele é suficientemente Durão para um dia ser obrigado a remodelar. Acontece, contudo, que nem ele sabe quando poderá teorizar esse superveniente acaso como uma efectiva necessidade.

 

Se quem efectivamente manda, nos meandros da influência, da barganha e da pressão, vai dizendo, em voz baixa, muito baixinha, “abaixo o regime, viva o sistema”, também há cada vez mais gente que proclama interiormente, sem medos inquisitoriais, “viva o regime, abaixo o sistema”. Se há quem cale e não dê consentimento, não convém alimentarmos a ilusão dos que ministerialmente pensam que ainda está em vigor aquele modelo plebiscitário lusitano que, irmanando o Afonso Costa de 1911 com o Salazar de 1933, decretou que as abstenções seriam consideradas votos a favor.

 

Há muitos que calam só porque a cabala das forças vivas comunicativas nada lhes deixam dizer. Sobretudo, nestes tempos de serpente sem maçã e de raposa sem uvas, onde a maioria da nação continua entre parêntesis, pelo não exercício da efectiva cidadania. Mas muitos também estão convictos que não há mal que sempre dure, nem comissões que não acabem. Os figurões da ilegitimidade vigente apenas cairão de podres, porque a justiça é lenta e os relatórios das várias inspecções continuam fechados na gaveta dos ministros!

 

A segurança da actual coligação depende, sobretudo, daquela outra enigmática cabala que colocou Ferro Rodrigues como líder das oposições. Porque se o senhor Primeiro-Ministro tem tido a honradez de dizer como, quando e porquê saiu do MRPP, já o respectivo contraventor ainda não teve a coragem de publicar uma autobiografia de pensamento político, capaz de nos explicar onde estava no dia 25 de Novembro de 1975.

 

Entre complexos de esquerda e fantasmas de direita, o dr. Durão vai cada vez mais durando, especialmente quando o actual líder a prazo do PS, pondo os óculos historiográficos de Fernando Rosas e repetindo, sem encanto, a verbosidade de Louçã, considera que a viragem à esquerda do PS, através de um acordo com o Bloco de Esquerda, equivale à coligação do PSD com o CDS.

 

E dura ainda mais sempre que a Drª Ana Gomes e o oficial de artilharia Vasco Lourenço elevam Portas à categoria de “perigo fascista”. Basta recordar que, na anterior “rentrée”, a obsessão esquerdista do mesmo dr. Ferro levou-o a qualificar o tal muleta de Barroso como “trauliteiro miguelista”. Ferro é, categoricamente falando, a esquerda oposicionista que convém ao presente situacionismo!

 

Não foi por acaso que o pré-julgamento do processo Casa Pia aconteceu na manhã seguinte à noite de regresso ao “Big Brother”, porque, num e noutro caso, o exagero da teatrocracia das “petites histoires” acaba por lançar a nebulosa sobre uma realidade que a aparência hiper-informativa não deixa descodificar.

 

O caso da pedofilia, onde repetimos muita da lama com que se enredou o Presidente Manuel Teixeira Gomes, talvez tenha um efeito semelhante às fugas de informação que precederam o conhecimento dos contornos do caso Alves dos Reis. Só que, agora, meses depois, não vai haver nenhum 28 de Maio, mas por meras razões técnicas, até porque António Maria da Silva tinha um excelente ministro das finanças, Armando Marques Guedes, e recebia elogios do partido do Centro Católico.

 

Os nossos generais, felizmente, preferem trinchar uma refeição à Beira Tejo, informar o Dr. Barroso, prévia e posteriormente, quanto ao conteúdo da sobremesa comunicativa, e evitar que Associação 25 de Abril caia na armadilha de ser pública inimiga de Portas, como este pretendia, à semelhança da provocação Maggiolo em que todos caíram. Não sei mesmo se o futuro ministro da defesa não será um desses circunspectos jantantes.

 

Prefiro assinalar que se torna mais importante analisar o subsolo da política que tem permitido a movimentação das presentes aparências, dado que a realidade pode ser bem mais animada do que a ficção satírica dos bonecos da contra-informação.

 

 

 

 

 

 

II

O REGRESSO DO PIO BROTHER

 

Quem efectivamente manda talvez permaneça latente na efectiva face invisível do poder. Com efeito, o excesso de mediatismo cenográfico usado na aparição dos nossos políticos é directamente proporcional à influência de gente sem nome e sem rosto que vai actuando com eficácia para lá do palco da visibilidade comunicativa da política.

 

Antes de 1974 e até à integração de Portugal no projecto europeu, esse subsolo era fundamentalmente marcado pelos grandes grupos económicos, pelas forças armadas, pelas organizações políticas capazes de conspiração e de subversão, bem como, no plano espiritual, pelos círculos espirituais que comandavam a Igreja Católica e a Maçonaria.

 

Entre forças vivas e forças ocultas, mas conhecidas, a dinâmica política pisava terrenos previsíveis, embora não publicamente detectáveis, e as ameaças dos golpes armados ou das subversões comunistas sempre guardavam a vinha, à direita e à esquerda. Acresce que uma máquina burocrática, mais ou menos marcada pelo weberiano regime da competência, até constituía um efectivo preservativo da corrupção.

 

Hoje, a face invisível da política, o efectivo poder infra-estrutural das novas forças vivas, onde a maioria dos reais factores de poder nem são nacionais, criou um tempo de interregno onde dominam os engenheiros da fraude à lei, com muitos homens de chapéus de coco, mas com alma de corsários, especialmente no saque aos subsídios e nas manigâncias da evasão fiscal.

 

Quando os anteriores grupos económicos perderam a capacidade de controlo e o aparelho de Estado deixou de poder fazer com eles os “gentlemen’s agreements”, que nos equilibravam através da neofeudal barganha, gerou-se uma fragmentação de agentes interesseiros, em verdadeiro ambiente negocista de faca na liga, pintado pelo “charme” indiscreto do “jet set”.

 

E tudo se agrava quando a globalização não permite um adequado controlo do tráfico de droga, do branqueamento de capitais e da potencial entrada de mafias e bandocracias, que tão bem costumam aproveitar o esquema do financiamento paralelo da actividade política.

 

Apesar dos presidentes da república e dos primeiros-ministros serem, por razão de ofício, os homens mais bem informados do país, não precisando, para chegar ao tabu da renúncia, da leitura dos “blogues” que por aí têm feito escândalo, julgo que, infelizmente, com tantos modelos policiescos e securitários de “segredo de Estado”, faltam-nos uns efectivos serviços de informação autonomamente nacionais, não dependentes dos fluxos provindos de outras potências, incluindo as que alguns dizem nossas amigas, só porque Rumsfeld conhecia Carlucci.

 

Esta fragilidade da segurança interna, que deveria levar-nos a um efectivo consenso nacional quanto a certas políticas de Estado, tem sido pretexto para que determinados meninos da mamã, do vôvô e da titi, confundindo acções de Estado com brincadeiras de colégio, através de jogatanas a que muitos chamam cabalas, fazem com que grande parte da classe política tenha passado estes dias a clicar num determinado “blogue”, à procura de mais pormenores sórdidos, quando não a apostar num escândalo extrapolítico que promova uma efectiva mudança política.

 

Ora a eventual politização indirecta da administração da justiça constitui o efectivo reconhecimento da impotência da política, mesmo que seja a queda de ministros por razões idiossincráticas. E tudo se agrava quando afloram formas de autêntico terrorismo informativo, onde, em vez de bombas e petardos, se usam técnicas pidescas de contra-informação, com dez a vinte por cento de verdades e oitenta a noventa por cento de efabulações caluniosas e destruidoras do bom nome de muitas pessoas.

 

Infelizmente, todos acabamos por ser “voyeurs” e idiotas úteis em tal processo de sombras, porque perdemos a confiança nos grandes actores da política que, gastando a palavra pelo mau uso, a vão prostituindo pelo abuso.

 

Se não acreditamos na teoria conspirativa de um grande polvo, bandocrático e subversivo, subscrevemos a tese dos que consideram que existe um grande jogo, neste “pio brother” cujos tentáculos adormecentes vão garantindo a permanência deste regime de clamorosa falta de autenticidade.

 

Esperemos que o péssimo sistema da administração da justiça que vamos tendo seja capaz de ser menos péssimo que o esbanjador sistema partidário que pretende canalizar de forma oligopolista a chamada representação política. Que venha a esperança dos desesperados!