SÓ É NOVO AQUILO QUE SE ESQUECEU[1]
Quem, muito pachorrentamente, se der a trabalho de antologiar o que os principais fazedores de opinião escreveram, ao longo destes últimos dois meses, sobre o actual conflito internacional, tentando estabelecer as linhas de força do discurso “politicamente correcto” que nos dominou, chegará à conclusão que Portugal continua a correr o risco de se transformar num “Estado Exíguo”, tanto no plano das medições quantitativas do poder internacional como também no âmbito da batalha da opinião.
Este “Portugal dos Pequeninos”, onde mandam os novos “velhos do Restelo”, tem medo de navegar no mundo da “esfera armilar” e, de tanto traduzir em calão, por um lado, os editoriais exógenos, a que acede pela Internet, e, por outro, as fotocópias das sebentas das universidades de terceira do dito primeiro mundo, onde fizeram titulagens por correspondência ou equivalência, não consegue compreender que o “Portugal Universal” só pode resistir se, depois de gerir a luta pela sobrevivência, ditada pela conseguida integração europeia, for capaz de lutar para continuar a viver, como, desde sempre, se pensou.
As mais recentes notícias da guerra só podem ser compreendidas por quem ousar seguir a metodologia do Padre António Vieira e souber misturar o “lume da razão” com o “lume da profecia”, ascendendo àquela filosofia prática que não desliga a teoria da experiência. Porque, se a abstracção nos diz que a menor distância entre dois pontos é uma linha recta, a experiência de quem vive a terra como uma esfera ensina-nos que Portugal, ao contrário dos britânicos e dos soviéticos, outrora “conquistou” o Afeganistão quando Vasco da Gama chegou a Calecute ou quando Afonso de Albuquerque legou aos norte-americanos o triângulo estratégico que lhes deu bases para o bombardeamento que acelerou a queda do regime taliban.
Aliás, os actuais estrategistas do Pentágono leram, de Robert S. McNamara, “In Retrospect. The Tragedy and Lessons of Vietnam”, Time Books, 1995, onde se inventariaram as causas do fracasso de tal guerra, porque toda uma tecnoestrutura, marcada pelos alvores da cibernética e da era dos organizadores, especialistas em pesquisa operacional e em análise de sistemas, “jamais esteve na Indochina... não conhecia nem a história, nem a língua, nem a cultura, nem os valores. Os meus colegas e eu decidíamos sobre o destino de uma região que ignorávamos”.
Os que, da política internacional, apenas acedem aos dados da ciber-enciclopédia do Senhor Bill Gates e da TVCabo, aliados aos impreparados repórteres das nossas “queridas televisões”, tanto não repararam que a Universidade portuguesa tinha produzido recentemente uma dissertação de doutoramento sobre a região em causa, da autoria do Professor Doutor Hélder dos Santos Costa, meu colega no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, como nem sequer foram capazes de mobilizar, para os comentários em directo, alguém que conhecesse a língua árabe, talvez porque estivessem à espera do que diria a CNN...
Afinal, os mais recentes dados revelam que a Rússia e as ex-repúblicas soviéticas de cultura islâmica, bem como o Irão e a Índia, estiveram na base da “Blitzkrieg” da chamada “Aliança do Norte”, porque souberam ir além da Taprobana, tanto na teoria como na prática. Mas não tardará que os mesmos analistas do Portugal dos Pequeninos, venham, depois do facto consumado, a inventar muitos adjectivos, quando, sem grande esforço, até poderiam reparar que, na guerra colonial portuguesa, o factor islâmico sempre foi instrumentalizado pelas nossas forças armadas que, então, se armaram de suficientes conhecimentos antropológicos e politológicos, dos quais se devem destacar os do injustiçado Manuel Belchior, que ajudaram Spínola, por um lado, a evitar o desastre na Guiné e, por outro, a escrever o livro “Portugal e o Futuro”.
A derrota dos nossos fazedores de opinião face ao conflito do Afeganistão explica-se pela circunstância de misturarem o analítico hiper-informativo do pró-americanismo propagandístico com a ideologia neomarxista do sistema-mundo, de Immanuel Wallerstein, deixando, na terceira via, o desencanto neomaquiavélico de antigos esquerdistas, agora adeptos de um ultra-realismo político.
Os que andam sempre à procura do “fim da história”, marcados pela mesma dialéctica que tanto afogou o revolucionarismo jacobino como o seu bastardo comunista, podem continuar a ser enganados pela esquerda bloquista, que pensa ter o monopólio da inteligência só porque glosa o Professor Boaventura Sousa Santos, em aliança com os pequenos e médios intelectuais orgânicos do ex-KGB. Aflige-me apenas que esse bacilo da pequenez afecte alguns marxistas brancos que agora acederam à neodireita ortodoxa.
Assim, entalados por esta decadente tenaz, os protagonistas mentais da política externa portuguesa, muito influentes nos palácios de Belém, de São Bento e das Necessidades, duvidando e hesitando, não assumiram o “abraço armilar” das nossas tradicionais apostas no atlantismo e no europeísmo, quase nos reduzindo à dimensão dos pequenos Estados continentalistas da Europa que nunca souberam que “navegar é preciso”.