POR UMA IDENTIDADE NACIONAL ABERTA

 

 

 

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PENSAR PORTUGAL

 

Pensar Portugal nestes últimos dias do século XX, depois de encerrado o ciclo do Império e nos primeiros anos desse novo feitiço que é a plena adesão à União Europeia, em tempo de revolução global e já sem as teias da bipolarização, típica da guerra fria, apesar do constante apelo sentimental à comunidade dos países de língua portuguesa, talvez constitua um paradoxo.

Procurar um modo de ser português, uma maneira portuguesa de estar no mundo, quando a maioria dos actuais cidadãos portugueses ainda recorda os traumatismos divisionistas sobre o conceito de nação, surgidos durante o crepúsculo do regime derrubado em 25 de Abril de 1974, constitui missão arriscada.

Com efeito, pensar o sentimento pátrio sem as amarras do discurso justificador do poder e sem as ilusões cientificas de um certo estrategismo ou as pseudo-certezas de alguns biologismos, talvez constitua ousadia inadmissível para um universitário do ramo das ciências culturais. Mas qualquer intelectual do tempo português que estamos sofrendo não pode desligar-se da aventura existencial das actuais circunstâncias de Portugal .

Falar de Portugal com o peso dramático do passado recente, através das palavras necessariamente contidas de um discurso essencialmente académico, significa não podermos  ceder aos vibrantes epicismos ou às eventualmente dolorosas saudades dos testemunhos individuais.

Não pretendo fazer, com palavras  sopesadas, através de um sistemático rendilhado de conceitos, uma exaustiva genealogia de quem somos, do que fomos e do telos para onde vamos.

Se não consigo ser profeta, também não pretendo assumir-me como escrivão de benefícios de inventário. Sempre gostei mais de estudar o futuro através da compreensão dos poetas cronistas, que pressentem estar ao serviço de uma missão colectiva.

Na verdade, bem poderia tentar a causa da determinação da personalidade básica do povo português, retirando meia dúzia de palavras poéticas de muitos contextos literários e, procurando uma interpretação dogmática, mais ou menos retrospectiva, construir um discurso justificador de algumas opções do tempo presente. Prefiro deixar essa tarefa para os intelectuais oficiosos que costumam discursar no dia 10 de Junho...

Acontece que sou daqueles que se revoltam contra todos os instrumentalizadores dos nossos príncipes das letras; contra as abusivas manipulações dos Camões e dos Pessoas, a que recentemente se têm dedicado os próprios tecnocratas da engenharia política eleiçoeira.

 

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O BILHETE DE IDENTIDADE DE PORTUGAL

 

Nome

Se pedíssemos a um perito em portugalogia que preenchesse de uma forma estranha, estrangeira, e desapaixonada o bilhete da identidade portuguesa, depressa verificaríamos a terrível complexidade das coisas que parecem simples.

Tudo começaria pelo nosso próprio nome. Um nome que já designou um Condado e um Reino e que agora é aposto a uma República sem Rei, onde talvez haja muitos pretendentes ao Poder e pouco sentido de res publica.

Trata-se, contudo, de um nome que procura designar um não sei quê: um corpo que tem uma alma, um sítio que deu pretexto a um sonho. E todos os nomes que pretendem marcar estas entidades compósitas correm o risco da controvérsia. Com efeito, Portugal é pátria ou nação? Povo ou comunidade? Estado ou região? Grei ou país? Simples território de um Pequeno Estado ou ponto de referência para uma comunidade mais universal?

 

Filiação

Depois, a própria filiação. Filhos de quem? Do Condado Portucalense ou da monarquia da Reconquista asturo-ovetense-leonesa? Descendentes da anterior monarquia visigótica ou da autonomia galaico-portuguesa do reino suevo? Herdeiros de uma província do Império Romano ou de uma mítica  Lusitânia guerrilheira personificada em Viriato? Descendentes de um especial Al-Andalus, marcado por trovadores e filósofos neo-aristotélicos ou, porque não, produto da tentativa de uma Nova Jerusalém, de acordo com os messiânicos e universais projectos de Quinto Império?

 

Sinais do corpo

E quem teria talhado o corpo de Portugal? A espada de D. Afonso Henriques, franco-galaico, com os seus visigóticos barões de Entre-Douro e Minho, a lutar contra a moirama e os defensores do imperium hispânico? O Lidador a caminho do sul com os guerrilheiros moçárabes dos campos de Coimbra? As ordens religioso-militares com os cruzados europeus a ajudar? As moiras encantadas que depois das conquistas nos conquistaram?

 

Memória

Qual foi a nossa batalha matriz? A justa de São Mamede contra a anterior fidelidade feudal à mater Hispania? A de Ourique contra os cinco reis mouros? O quadrado de Aljubarrota contra os castelhanos e os aliados portugueses do projecto iberista? Ou a derrota de Alcácer Quibir, depois da qual não houve mais nenhuma batalha sagrada?

Mas não será que apenas nos criámos quando nos acrescentámos, depois das descobertas, vencendo o Adamastor, indo além da Taprobana ou sendo bandeirante contra o sertão?

 

As nações todas são mistérios

Diremos apenas que se as nações todas são mistérios, a nossa é o nosso mistério, que deixaria de ser nação se o pudéssemos desvendar. Ora, como proclamava Alexandre Herculano, somos independentes porque o queremos ser: eis a razão absoluta, cabal, incontestável da nossa individualidade nacional.

 

Lutar para continuar a viver

Se, como dizia Cláudio Sanchez Albornoz, somos um erro histórico, temos de reconhecer que não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história. Se há alguma verdade no facto de a Portugal o terem feito independente, como desdenhosamente referia Américo de Castro, temos que reconhecer que as independências sempre foram e continuarão a ser gestões tanto de interdependências como até das próprias dependências, políticas, económicas, culturais e militares. Mas, como dizia Antoine Saint-Exupéry, se temos de nos submeter para sobrevivermos, não podemos deixar de lutar para continuar a viver.

 

 

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A IDEIA DE CRISE

Sobre a matéria, apenas direi que quando não há crise no horizonte, é Portugal que definha em substancial crise. Porque a ideia de crise talvez seja tão antiga quanto a própria ideia nacional. Mesmo o sebastianismo que nos marca talvez não passe de uma simples mitificação da crise.

Se uns poderão falar, à maneira do primeiro Antero, na ideia de decadência, já outros, ao estilo de Pessoa, apontam a existência de uma tripla camada de negativismo: a decadência, a desnacionalização, a degenerescência.

Com efeito, a consciência de crise talvez constitua um excelente estímulo para a superação da crise, através da elaboração das respostas restauracionistas ou regeneracionistas, por vezes embrulhadas sob o signo do seu aparente contrário que é a revolução.

 

Restauracionismo ou regeneracionismo?

Alguns, na senda desse romântico da contra-revolução, que foi António Sardinha, procuraram a tradição, entendida como um regresso para seguir em frente. Outros falam, conforme o saudosismo republicano, num refazer a renascença.

Porque, como dizia o mestre republicano da arte de ser português, Teixeira de Pascoaes, renascer é dar a um antigo corpo uma nova alma fraterna, em harmonia com as suas raízes, para dar à nova luz do futuro a sua flor espiritual.

 

A procura do tempo perdido

E é este regeneracionismo, mais ou menos frustrado, que constitui, aliás, o primeiro dos fundamentos do Portugal contemporâneo.

Com efeito, a revolução  liberal de 1820 pretendeu assumir-se como a restauração das antigas liberdades que teriam sido usurpadas pelo absolutismo ministerial.

Mais tarde, a revolta republicana de 1910 tentou retomar a inacabada obra de Pombal contra aquilo que o gnóstico anticlericalismo do Partido Republicano considerava o reaccionarismo beato, clerical e congreganista.

Por seu lado, a ruptura de 1926, que começou por ser moderadamente republicana e liberal, até acabou catedrática, ao lutar contra o que considerava ser o demoliberalismo estrangeirado posterior a 1820, visando retomar a pretendida pureza de um poder central absoluto, para reconstruir o Estado abstracto de uma pretensa grandiosidade perdida.

Também a nossa mais recente ruptura revolucionária, a iniciada em 1974, disse querer lutar contra aquilo que pleonasticamente qualificou como a longa noite da ditadura fascista, e restaurar a liberdade oprimida, procurando construir uma jovem democracia igual à média institucional dos países cristãos polidos e civilizados da Europa Ocidental, em luta tanto contra o terceiro-mundismo como contra os que, apoiados pela decadência do império soviético, nos queriam transformar na Cuba da Europa.

 

Moralizar e nacionalizar o Estado

Não era o próprio Antero de Quental que, depois de abandonar a ilusão iberista, em 7 de Março de 1890, numa sessão da Liga Patriótica do Norte falava na restauração das forças nacionais e  numa necessária era de renovação nacional que passaria por moralizar e nacionalizar o Estado?

Tal como o referido Teixeira de Pascoaes que, no primeiro número de A Águia, de Junho de 1911, veio manifestar a vontade de criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridão física e moral, em que os corpos se definharam e as almas amorteceram, defendendo a criação de um novo Portugal, mas português, de uma alma portuguesa.

 

O reino cadaveroso do situacionismo

Ora quando não há crise no horizonte é  Portugal que entra em verdadeiramente em crise, quando passa a dominar o reino cadaveroso dos situacionismos, onde maiorias sociológicas, mais indiferentes do que silenciosas, passam a defrontar as minorias activas de manipuladores da apatia, com vanguardismos, progressismos ou reaccionarismos. Esses degradantes crepúsculos situacionistas, que podem durar décadas, onde o oportunismo e a corrupção nos fazem apodrecer por dentro, até que o fruto desse equilíbrio instável, mas tendencialmente duradouro, acaba por cair de podre ao mínimo abanar de um golpe de Estado, muitas vezes fruto do acaso.

 

Os regimes que caem de pôdre

Foi assim com a Rotunda do 5 de Outubro, com a movimentação das colunas militares no 28 de Maio ou com os tanques de Salgueiro Maia em 25 de Abril de 1974. Todos eles menos causas do que consequências.

 

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O FIM DO PORTUGAL VELHO

 

Mas a constante crise portuguesa apresenta, contudo, nestes últimos tempos, novos e significativos contornos. Com efeito, talvez pela primeira vez na nossa história, estejamos a assistir à eliminação dos últimos vestígios daquilo que Oliveira Martins qualificou com o Portugal Velho. Isto é, o país da província, predominantemente marcado pela Igreja Católica e pela formação profissional e patriótica dada aos soldados rurais durante o serviço militar obrigatório.

Apesar da chegada do caminho de ferro no último quartel do século XIX, esse Portugal profundo ainda alimentou a corrente dos soldados de Mouzinho e da Flandres. Apesar das estradas e das pontes do Estado Novo esse mesmo Portugal ainda emigrou para a Europa na segunda metade deste nosso século e serviu sem deserções significativas as forças armadas das nossas últimas campanhas de África bem como os ventres ao sol da revolta anticomunista de 1975.

 

Os rurais e os burgueses

Até há poucos anos ainda podíamos falar nessa distinção entre o país rural  e um país urbano e burguês.

Acontece que o processo de penetração da chamada urbanidade destribalizadora, mais ou menos estrangeirada, sofreu, ao longo do século XX, uma crescente intensidade que passa pelo comboio, pelo telefone e pelo telégrafo (o media republicano), pela rádio e pelo cinema (o media dos anos áureos do Estado Novo) e pela televisão (o media do crepúsculo do regime da Constituição de 1933, principalmente do marcelismo).

Além disso, os vários nomes que tem tido a massificação do ensino, sobretudo a partir da Reforma de Veiga Simão, constituíram uma fundamental gazua para o processo.

De qualquer maneira, os telejornais e as escolas pré-universitárias vieram evidentemente superar a força formativa até então desempenhada pela Igreja e pelo Quartel.

 

Os intelectuais e o povo

Temos, de um lado, a incompreendida revolta do país rural, descendente em linha recta da Maria da Fonte e ainda mobilizável pelo tocar dos sinos a rebate na torre da paróquia; temos, do outro, país urbano, conservadoramente burguês, muito catedrático ou muito engenheiral, com restos de marqueses e muitas festas "jet set", que costuma ditar, através das leis e dos jornais, os caminhos da modernidade e das reformas, emocionando-se com o povo, através de algumas visitas às barracas ou à Feira do Relógio.

É, no fundo, o reflexo da nossa secular antinomia entre a cidade e as serras, particularmente sentida no conflito entre miguelistas e pedristas, impropriamente designados como absolutistas e liberais pela historiografia dos vencedores, mas que, desde sempre, tem marcado os diversos regimes políticos portugueses.

 

A revolta do exílio interno

Se o país urbano e burguês ganhou a referida guerra civil de 1828-1834, venceu a Maria da Fonte, com o recurso a tropas estrangeiras, implantou a República, conquistando Lisboa e transmitindo o facto à província através do telégrafo, e comandou o PREC de 1974-1975, também é verdade que, de vez em quando, o país rural costuma estragar o esquema e impulsionar algumas alterações estruturais no tal processo. Noutras ocasiões, ficamos pela simples revolta individual de alguns cidadãos que, cansados da vida, decidem partir para os mais variados Vales de Lobos, não pactuando com a hipocrisia institucionalizada nem cedendo à frustração.

Várias têm sido as tentativas conceituais para actualizar essa tradicional polaridade portuguesa. Alguns continuam a assinalar a tensão dialéctica entre o povo e as elites, entre um país político e um país real, como se diria à maneira maurrasiana, mas que também poderia ser expresso pela terminologia herculaniana do país da legalidade contra o país das realidades.

Os marxistas, quando não tinham vergonha de como tal se proclamarem, traduziam tal disputa caricaturalmente, assinalando uma luta de classes entre a aliança operário-camponesa e a burguesia.

Mais recentemente muitos antimarxistas, alguns dos quais ex-furiosos marxistas, fazem a distinção entre uma parasitária classe política e uma laboriosa iniciativa privada dos self made men, ou, então, entre a inutilidade do Estado, ou dos que do Estado vivem ou por ele são patrocinados, e a fecundidade de uma activa sociedade civil.

 

A cidade e as serras

Quase todos traduzem uma espécie de lendária luta entre a cidade e as serras, entre o país urbano e o país rural, dizendo que um é defensor da livre iniciativa e que o outro é um país dependente do Estado. Não falta até quem fale em yuppies contra funcionários públicos, ou num Norte dos fabricantes, lojistas e feirantes, que nas horas vagas são dirigentes de clubes de futebol, e num Sul de gestores públicos, agrários, sindicalistas e nacionalizados.

Do que não pode haver dúvidas é que continua a existir em Portugal um claro divórcio entre um país intelectual e o resto do país. Ou melhor: entre um país que pensa, o país do ócio, e um país operário, empresário, emigrante ou negociante. O pior está no desencanto que leva os intelectuais livres a partirem para o exílio interno de Vale de Lobos, deixando o comando intelectual do país cair nos arrivistas e nos vulgarizadores da moda bem-pensante

 

Depois de Alcácer Quibir

Os traumatismos psicossociais da guerra ultramarina e da descolonização, de certa maneira, equivalentes aos dramas da última das grandes derrotas nacionais, lançaram Portugal e os Portugueses numa dilacerante desunidade psíquica.

Tal como depois de Alcácer Quibir ou das invasões francesas, Portugal, na sequência das derrotas ou das meias derrotas, fica sempre um país profundamente dividido quanto à respectiva estratégia nacional e, sobretudo, quanto à interpretação dos seus objectivos nacionais permanentes, para utilizar alguns dos conceitos obsidiantes dos estrategistas.

 

A protecção colonizadora

Simultaneamente, ficamos também maduros para uma colonização do invasor ou do protector, seja a de El-Rei Junot ou a do Senhor Beresford.

Assim também aconteceu com a interpretação ortodoxamente espanholista da Contra-Reforma ou com o iluminismo absolutista, os dois destruidores da nossa tradicional heterodoxia consensualista .

Assim voltou a acontecer com a colonização cultural maçónica do partido francês que ocupou os vazios de memória do nosso liberalismo.

Assim continuou a acontecer com a mais recente luta entre os ocidentalistas e os comunistas.

 

Readquirir a fibra…

Desta forma nos fomos esquecendo dessa fibra adquirida ao longo de séculos e ao longo dos séculos refeita e sedimentada, para utilizarmos as palavras de Fernando Namora.

Fizemos da CEE/ União Europeia uma prioridade das prioridades e confundimos essa conveniente opção geopolítica e económica com a descoberta da Índia esquecendo que a Índia que os portugueses de antanho procuraram era uma Índia que não vinha nos mapas. Que o Império anti-Império que tentámos não era deste Mundo. Que o mar que nos inebriou e que sulcámos era um mar sem fim, um mare clausus que pretendia ser um mare liberum. Porque o mar com fim será russo, inglês ou norte-americano, enquanto o mar sem fim apenas poderá ser português.

 

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TELURISMO OCEÂNICO

 

Portugal esse pinheiro postado à beira mar, sofrendo a aridez das nortadas, mergulhando nas areias e olhando a distância, tem um certo imobilismo vegetal na sua postura recente.

Telurismo oceânico, lhe chamou Miguel Torga. Sem um poder militar  interveniente  - as nossas forças armadas depois da Guerra das Laranjas, quando não dispuseram de um inimigo interno sempre estiveram voltadas para outros continents,  sem autonomia ou possibilidade de autarcia económica,  resta-nos resistir culturalmente, resta-nos manter o nosso espaço impoluído, não nos transformando numa espécie em vias de extinção, em algo de semelhante aos coptas marginalizados na sua própria terra.

Especialmente numa Europa em corpo inteiro que volta a cultivar o direito à diferença dos regionalismos e dos nacionalismos.

 

Os objectivos nacionais permanentes

E o mal português do nosso tempo é que continuam por estabelecer quais dos nossos anteriores objectivos nacionais permanentes é que são permanecentes.

Dizia Almada Negreiros que este é um desgraçado país onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.

Pior do que isso, há os que dizem mal do país, mas que glorificam Portugal, que desdenham dos portugueses que temos, ou que tivemos, para glorificar a entidade que os mesmos dizem servir.

 

O drama da intelligentzia

Uns very british e muito rock and rock roll, outros mais afeitos à american way of thinking, todos contribuem para o divórcio entre um país oficialmente intelectual e um país estatisticamente trabalhador. Um divórcio que acontece mesmo naqueles que se consideram nacionalistas, onde, paradoxalmente, continua  a substituir-se Portugal pelo nacionalismo, muitas vezes traduzido de nacionalismos ontologicamente inconciliáveis com a nossa própria maneira de ser nação, ou, então, a glorificar Portugal como entidade metafísica que até parece que não foi obra dos péssimos portugueses que sempre fomos.

A maior parte dos nossos intelectuais da pesada, desses que gostam de propagandear-se ao som metálico dos megaconcertos, com muitas notas de suficientes mais em mestrados de Paris e Oxford, que aqui se traduzem por doutoramentos de génio, mais não fazem do que glosar estranhos com alguns anos de atraso e muitas resmas de fotocópias bibliográficas.

O nosso drama talvez esteja nessa legião de pequenos e médios intelectuais que se crismam e autoproclamam como os verdadeiros génios do seu tempo. São eles que dominam o clube dos opinion makers e transformam a pseudo-rebeldia na mais seguidista das modas.

 

O desencanto da transição

O problema está no vazio dessa frustração que vamos cultivando de forma negligente. Nos esforços que em vão fazemos na procura do impossível de semearmos estepes no Alentejo ou selvas tropicais em Trás os Montes.

Neste nossos tempo de transição, entre o crepúsculo do império ultramarino e a integração europeia, entre o autoritarismo plebiscitário e a aprendizagem da democracia participativa, entre a modorra plutocrática e o capitalismo selvagem, há que procurar uma espécie de reeducação ecológica.

Neste contexto, o mero apelo ao mito da modernização ou é igual a um solene nada ou constitui apelo à cópia acrítica dos modelos dos outros. Em qualquer dos casos leva-nos a mudar para um não sei quê gnóstico que ninguém sabe o que é mas sobre que todos fazem discursos gongóricos.

Com efeito, continua a faltar-nos o quid de uma reforma global, a arquitectura fundamental que nos permita exercer o direito ao sonho português, mesmo que não passemos de simples capelas imperfeitas

E não nos esqueçamos, como dizia Fernando Pessoa, que uma revolução é uma reforma feita por classes incapazes de reformar.

 

Fizemo-nos nação

Em Portugal, os portugueses, pela história, fizeram-se nação. Com raízes no passado e saudades de futuro.

Diremos mais: o entendimento de Portugal como nação historicamente enraizada, talvez exija uma perspectiva e criacionista da nossa autonomia nacional, através de uma história que não seja apenas mera crónica dos factos, mas sim história dotada de sentido e de imaginação criadora.

Como também assinala Maurice Duverger, a nação é essencialmente um produto da história: tal como o homem se define pelo seu passado, como bem o notou a psicanálise, assim como ele é, em cada instante, a soma do que foi e, ainda mais, do que acreditou que foi, assim uma nação se define pela sua história, e tanto pela história imaginada como pela história objectiva, tal como foi realmente. Da mesma maneira como o homem reconstrói, em cada instante, o seu passado, que escolhe certos factos, que esquece outros, que acentua as proporções de uns e que diminui as proporções de outros, assim os povos fabricam uma história artificial que influenciam profundamente os seus comportamentos e as suas instituições.

Numa precisão desta perspectiva, Eric Voegelin salienta que a auto-iluminação da sociedade através dos símbolos é parte integrante da realidade social e pode mesmo dizer-se que é uma parte essencial dela, porque através dessa simbolização os membros da sociedade a vivenciam como algo mais do que um acidente ou uma convivência; vivenciam-na como pertencendo à sua essência humana.

Isto é, a alma de um povo é tão real quanto o próprio corpo, seja o território, seja a população, de tal maneira que, como salienta François Perroux, os espíritos nacionais distinguem-se uns dos outros conforme a representação que fazem de si mesmos.

Daí que a nação portuguesa, para sobreviver e continuar a viver, tenha de ser entendida, não como uma realidade  que apenas assenta no chão físico da origem do grupo, mas também  como uma realidade da cultura, assente no chão moral da história.

O que talvez passe pelo entendimento de 1385 como a primeira revolução pós-feudal da Europa; pela visão dos descobrimentos  como a criação do próprio mundo moderno, especialmente pela criação da própria ideia de descoberta; e, depois, por 1640 como um renascimento e como a nossa forma de sermos êxodo e libertação, face à hipótese de servidão face a um imperialismo uniformista e estranho.

Foi a partir desta última data que talvez tenhamos conquistado o direito de sermos um grupo não assimilável e não conquistável, cuja missão é a de escrever a história do futuro, pelas esperanças de Portugal.

 

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O MODO PORTUGUÊS DE ESTAR NO MUNDO

 

Não tenho suficientes pergaminhos analíticos que me permitem fazer a síntese das linhas fundamentais definidoras do grupo cultural a que pertenço. Mas gosto de ser aquilo que sou, português exilado em Portugal, tento ser fiel aos mortos que me deram vida, acreditando, como Pessoa, que quanto mais ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta.

Dos escritores de antanho retiro fundamentalmente o exemplo dos defensores de causas perdidas, dos vencidos da vida, segundo a lógica do curto prazo, que depois venceram, no médio e longo prazo.

Os que se libertaram da lei da morte, mas que foram esquecidos pela moda do seu próprio tempo.

Com efeito, somos um povo de profetas apenas conhecidos como tais no post-mortem. Desses que souberam no seu próprio tempo ler os sinais do tempo, leitura essa que os contemporâneos, iludidos pelos bem-pensantes da intelectualidade orgânica instalada, desleixaram de entender.

 

Um povo de sonhadores activos

Pertenço àquele grupo que considera que o destino da cultura portuguesa é um destino expansivo, que a nossa tendência para nacionalizarmos tendências estrangeiras nos deu uma especial vocação para a simbiose e o hibridismo.

Porque somos mais propensos para a heresia para o dogma, para a heterodoxia do que para a ortodoxia, para a poesia do que para a filosofia. Mais crentes do que especulativos, mais homens de aventura do que calculistas, mais pragmáticos do que empiristas

Jorge Dias dizia que o português é um misto de sonhador e homem de acção, ou melhor, é um sonhador activo, a que não falta certo fundo prático e realista ... Mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de acção ... individualista ... possui grande fundo de solidariedade humana e, sobretudo, a saudade, essa mistura de opostos, esse humor nosso merancórico.

 

A dualidade

Fernando Namora, mais recentemente vem falar na dualidade ou na dialéctica do nosso modo de ser consistindo nessa capacidade de sonho e por assim dizer de desmesura e ao mesmo tempo de reduzir o sonho a coisas  bem terrenas como o comércio, o oiro, a conquista lucrativa, essa estranha e inextricável coabitação da generosidade e da cobiça, do desprendimento e do sabor da coisa possuída, da impetuosidade arrojada com o súbito desencanto, da crença que não mede obstáculos com a ressaca derrotista, esse ter asas e, por fim, se bastar com o mísero chão.

 

Uma cultura afectiva

Também Agustina Bessa Luís fala no português como poeta, soldado , aventureiro; intelectual e mundano; vítima e herói; experiente e desprecavido. Boa alma e cidadão discutível. Sentimental  e capaz de frio juízo sobre todas as coisas. A sua liberdade é interior e não feita à imagem das circunstâncias.

Como salienta a mesma ficcionista: nós temos uma cultura afectiva...Somos um povo que sempre quis viver aproximado do estado de natureza, e sempre quis evitar o estado de guerra. Aquele estado de natureza que permite aos homens viverem em comum conforme a razão, sem consentir  um superior a quem se outorgue competência além da que as leis conferem.

 

Entre a originalidade e a unidimensionalização

Em toda a nossa cultura há sempre uma atracção pela originalidade. O que, no fundo, talvez explicite um secular desejo de autonomia. É a nossa primordial procura do direito à diferença esse desejo independentista do Portugal de Almacave.

O drama talvez esteja no facto de existirmos em nome do direito à diferença mas de cairmos na rotina pecaminosa de nos procurarmos unidimensionalizar burocraticamente, massificantemente em termos de política interna, quando os sargentos e tecnocratas ocupam o lugar dos crentes e dos profetas.

Quando caímos na tentação de aceitarmos inquisições para extirparmos a heresia, desde a propriamente dita Santa Inquisição tridentina, mais madrilena do que romana, ao não menos inquisitorial sebenteirismo iluminista, esquerdista e more geometrico, desde o Marquês de Pombal e da sua Junta de Providencia Literária aos papas da crítica político-literária da actualidade.

 

Ganhámos a vida, perdendo-a

Importa sentir criticamente o tempo presente, tentar descortinar sinais de luz por entre as brumas. Sentir que Portugal tem um destino por cumprir, que age porque tem uma imperceptível missão colectiva, que é antigo mas não quer ser antiquado. Somos um povo que não venceu mas que soube fazer das fraquezas forças, e, das derrotas, um chão de sonho donde retirou sinais de alento.

E aqui estamos, um quarto de século depois da descolonização, de novo, no começo, por sobre as ruínas daquilo que muitos vaticinaram ser um Portugal dos tempos do fim. Aqui estamos esquecidos daquilo que Gilberto Freyre disse: que o português se tem perpetuado, dissolvendo-se sempre noutro povo a ponto de parecer ir perder-se nos angues e culturas estranhas. Mas comunica-lhes sempre tantos dos seus motivos essenciais de vida ... Ganhou a vida perdendo-a.

 

Talvez o sonho de Camões, desse manifesto dos Lusíadas, pouco diga  a quem de além-mar apenas satiriza a viagem de uma jangada de pedra. Talvez estejamos mais próximos das frustrações da geração de 70, embora já tenhamos perdido a esperança na instauração da república ou num D. Sebastião Socialismo.

 

Nem decadentismo nem progressismo

Somos uma pequena nação-Estado com 10 milhões de habitantes, mas pertencemos a uma língua falada por 200 milhões de seres humanos. Já não podemos avançar para África como o fidalgo da Ilustre Casa de Ramires ou com a garra de Mouzinho. No Brasil já não há árvores de patacas e até Paris já não tem o sabor de exílio e de proibido. Já não emigramos para a Europa de mala de cartão...

Não acredito na lei da nossa crescente decadência e na sua irmã inimiga que é a lei do crescente progresso, as duas faces da mesma moeda gnóstica, as duas hipérboles incapazes de fidelidade ao relativismo da verdade, que nos deram as utopias da revolução e da contra-revolução.

 

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PORTUGAL COMO SER DE FUTURO

 

A história é uma sucessão de acasos onde a necessidade tem leis a que os homens só acedem depois dos factos as terem consumado. Acredito que talvez seja mais entranhadamente cientifico respeitar o mistério e a interpretação poética dos sinais do tempo do que ser Jeremias ou Pangloss. Estamos longe da idade do ouro quanto do inferno dantesco.

A liberdade profética da interpretação das parábola está mais próxima do sentido intimo da Criação que nos diz que no princípio era o verbo

Portugal é um ser de futuro. Isto é, uma entidade que projecta o futuro no presente. Portugal  não é nem pura facticidade nem exclusiva plenitude. É uma comunidade que, pela história, conquistou o direito a ter futuro. É a mera expressão de algo que é simultaneamente imanente e transcendente, que é o sonho de Portugal, o poder-ser. O Portugal poder-ser que se desdobra tanto em elementos exotéricos, como a emoção patriótica, como em elementos esotéricos, a que apenas se pode aceder através de uma espécie de bios poeticus, pelo estado de alma da portugalidade, do saudosismo ou do nacionalismo. Uma emoção que não acontece mas que se procura.

 

O desinteresse colectivo

Diremos apenas que as sucessivas alcáceres quibires que nos têm acontecido, de há séculos a esta parte, provocaram um certo desinteresse  colectivo.

A tal falta de estímulos supragrupais que nos vem lançando uns contra os outros e quase todos contra fantasmas.

O tudo ou o seu nada. O patriotismo mais obscurantista ou a desnacionalização mais vesga. Um constante balouçar na corda bamba dos absolutismos sobre o abismo do desânimo e da apatia.

Até quando?

 

Continuar Portugal

Ser Portugal não é apenas conservar Portugal; não é apenas cultivarmos os nosos jardins à beira mar plantados, com as sementes e as ferramentas que os outros nos emprestarem.

Isso é aposentar Portugal.

Continuar Portugal terá de ser, forçosamente, reinventar Portugal. Sem as euforias adolescentes do tudo, nem os pessimismos gerontocráticos do nada.

Parafraseando Almada Negreiros, poderemos dizer que, apesar de já estarem escritas todas as frases que hão-se salvar Portugal, continua a faltar uma coisa: salvar mesmo Portugal.

E salvar Portugal será salvá-lo, em primeiro lugar, da própria utopia da salvação, revistam os salvadores a forma de pessoas - por mais carismáticas que seja, - ou apareçam disfarçadas em doutrinas e ideologias - por mais científicas ou revolucionárias que possam parecer.

 

Os eus e o nós

Uma comunidade política de corpo inteiro, esse algo que vai além do Estado e que procura assumir-se afectiva e culturalmente como uma pátria, um povo ou uma nação, é, sobretudo, uma comunidade de pessoas que partilham significações comuns. Tenta ser mais do que uma simples soma de “eus”, dado procurar atingir a dimensão do “nós”, quando cada um dos membros dessa comunidade consegue identificar-se com o todo, ao comungar símbolos mobilizadores.

 

O conflito de imaginários

Aplicando o princípio enunciado, podemos dizer que, há pouco mais de vinte e cinco anos, os portugueses eram portugueses porque, por exemplo, sentiam de forma idêntica Amália Rodrigues e Eusébio da Silva Ferreira, duas das significações partilhadas geradas pelo ambiente do “Portugal do Minho a Timor” que, mal ou bem, formatou a maioria dos portugueses de hoje. Esse imaginário assentava no tímido esboço de um lusotropicalismo multicultural sonhado por uma minoria de visionários, mas que não conseguiu driblar os ventos da história da guerra colonial e da posterior descolonização pretensamente exemplar. Outro foi o discurso justificador da pós-revolução, quando, correndo para a integração europeia, nos orgulhámos da “Europa connosco” e de uma unidade nacional assente em bases de homogeneidade etno-histórica, sem os problemas das minorias que afectavam os outros europeus. Até se disse que os portugueses padeciam de uma espécie de “hiper-identidade”, muito especialmente quando nos comparávamos ao Estado Espanhol.

 

Crise ou excesso de identidade?

É natural que continuemos a padecer de uma chamada crise de identidade. Porque temos cerca de oito séculos de autonomia temos uma inevitável complexidade quanto aos mecanismos de identidade, dado que esta última sempre foi sendo reinventada ao longo da nossa história.

 

 

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AS SUCESSIVAS REINVENÇÕES DE PORTUGAL

 

Talvez seja urgente recordar que, na Idade Média, cerca de um quinto dos portugueses reais seriam mouros e judeus. Saltando alguns séculos, podemos também lembrar que, na região da Grande Lisboa, ainda no século XVIII, existiriam cerca de dez por cento de negros.

Por outras palavras, o mais permanecente dos Estados europeus e a nação mais antiga deste Continente, partiram, afinal, de uma base multicultural e  apenas se identificaram unitariamente por terem praticado inquisitorialmente uma espécie de genocídio doce. Mesmo nestes últimos dois séculos, já sem judeus nem mouros, continuámos na mesma senda de construtivismo nacional centralista, quando programámos e aplicámos um modelo de assimilacionismo exacerbado tanto na metrópole como no espaço imperial.

Aliás, importa também assinalar que muito do nacionalismo português do século XX, esse que se baseia no neogarrettismo e no saudosismo, permitindo o patriotismo da I República e do Estado Novo, constitui mera reinvenção de marca estrangeirada, influenciada pelo nacionalismo místico da III República Francesa, onde até nos inspirámos para o neo-imperialismo colonialista.

Feliz ou infelizmente, depois de 1974, não podendo nacionalizar tendências importadas, até porque a nossa descolonização foi atípica e não acompanhou o ritmo europeu, tanto o do modelo francês, entre o socialismo de Mendes-France e o patriotismo gaullismo, como o do modelo britânico, marcado pelo cepticismo conservador da cedência aos winds of change, eis que nos sentimos náufragos no tocante à habitual inspiração estrangeirada.

Feliz ou infelizmente, tivemos que viajar dentro de nós e, sem grandes teorizações e as consequentes vulgatas ideológicas, experimentando o nosso modo de estar no mundo, antes de o julgarmos e reconstruindo uma nova comunidade nacional sem obediência a prévios programas vanguardistas.

Feliz ou infelizmente, o Portugal a que chegámos acabou por ser escrito por aquela mão invisível, segundo a qual o mundo é mais produto da acção dos homens do que resultado das boas ou más intenções de alguns deles.

 

Uma nova partilha de significações

Tenho, pois, de concluir que os portugueses de hoje, se quiserem continuar portugueses, têm que ter a coragem de reinventar Portugal. Têm que reorganizar a nova comunidade de significações partilhadas que, conservando o essencial da tradição universalista dos nossos oito séculos de história, seja capaz de a enriquecer-se, de alargar-se em novos círculos concêntricos de uma mais complexa identidade. Por isso, tanto rejeito a ilusão assimilacionista dos que querem conservar o que já não há, como me revolto contra o paternalismo de certos pretensos reconstrutores que esquecem as nossas raízes e não conseguem compreender a base do nosso universalismo.

 

O homem é que faz a história

De uma forma radicalmente liberal, direi que não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história, mas sem saber que efectiva história vai fazendo. Com efeito, há sempre uma chamada mão invisível que nos condiciona. Porque a polis, a respublica, o regnum ou o Estado, resultam sempre de uma tensão entre os modelos da racionalidade técnica e da racionalidade ética, entre a racionalidade dos fins (a Zweckrationalitat de Weber) e a racionalidade dos valores (a Wertrationalitat).

 

 

A nação libertadora

Tal como o homem não é apenas inteligência e vontade, mas também imaginação e emoção, também as comunidades políticas precisam de conjugar a ética da responsabilidade com a ética da convicção, a frieza da razão do Estado com a emoção da Nação libertadora, a consciência com a memória e a autonomia com a identidade.

 

Por uma identidade nacional aberta

Para que Portugal continue a querer viver como pensa, para que os portugueses continuem a querer a independência, importa que, no espaço da memória, essa inteligência que visa a autonomia possa ser compensada por uma reinvenção da identidade que, longe de conservar o que já não há, assuma a criatividade das saudades do futuro, através uma identidade nacional aberta às novas circunstâncias.