SOBRE A EUROPA, OS NACIONALISMOS E A MAASTRICHTOMANIA

Conferência proferida na Academia da Força Aérea, em 25 de Março de 1993

 

Desafiou-me a Academia da Força Aérea para elaborar meia dúzia de reflexões sobre a problemática dos nacionalismos na Europa destes tempos de interregno, entre o fim do comunismo e o regresso da balcanização, entre o fim da guerra fria e o pós-Maastricht.

Trata-se, evidentemente, de matéria que me apaixona, tanto por dever de ofício, como, sobretudo, por causa daquelas minhas concepções do mundo e da vida que me fazem pertencer àquela esmagadora maioria de portugueses que, mesmo sem o proclamarem, se consideram, acima de todas as outras opções políticas, como nacionalistas, isto é, como defensores da continuidade política desta antiquíssima opção, pelos portugueses secularmente assumida, de fazer corresponder uma nação a um Estado politicamente auto-determinado.

Portanto, antes de teorizar sobre a Bósnia, a Rússia, a Eslováquia ou o ex-Principado de Andorra, prefiro pensar no futuro da independência da minha Pátria, dessa realidade social, política e histórica, logicamente anterior e sociologicamente base do Estado e às leis do mesmo.

Fá-lo-ei sem qualquer espécie de dramatismo tipo Pátria em perigo porque, felizmente, a ideia de independência ou integridade de Portugal está tão comunitariamente assumida pelos portugueses de todos os quadrantes que quase se confunde com o ar que se respira no actual momento da nossa história colectiva.

Importa, contudo, salientar, que o discurso político português, ou melhor, o discurso dos políticos portugueses, foi recentemente invadido por uma espécie de maastrichtomania, onde os tópicos da soberania, da independência e do federativismo de tanto se gastarem pelo uso, quase se prostituiram pelo abuso, perdendo o próprio sentido.

Sem citar nomes, passo a enunciar alguns argumentos utilizados por dois responsáveis patriotas portugueses, um defensor de Maastricht e outro, ferozmente crítico das aventuras da união política da Europa.

O maastrichtiano em causa, discursando sobre os nossos sessenta anos de filipismo, veio considerá-los como um tempo de perda da independência, mas não da soberania. O anti-maastrichtiano, por seu lado, veio dizer que Miguel de Vasconcelos era um dos primeiros adeptos do federalismo europeu e um adversário da soberania nacional.

O maastrichtiano tentou comunicar-nos que, se podemos perder a independência mantendo a soberania formal, também podemos garantir a independência cedendo algumas parcelas de soberania a uma comunidade supra-estatal.

O anti-maastrichtiano quis comparar o passado domínio filipino com o actual regime da Europa comunitária, qualificando os defensores do filipismo como federalistas avant la lêtre.

Os dois produziram um modelo de discurso político marcado pelo anacronismo. Isto é, utilizaram conceitos actuais para qualificarem situações históricas onde esses conceitos ainda não tinham desabrochado.

Ambos têm um certo grau de verdade e um certo grau de erro. Apesar de irmanados na defesa da independência nacional, têm, contudo, perspectivas contraditórias quanto ao desenvolvimento do actual processo de integração europeia.

Para o maastrichtiano, a união política da Europa, implicando inevitáveis cedências da formal soberania portuguesa, dá-nos mais hipóteses de independência do que a eventualidade de ficarmos fora do processo de construção europeia.

Para o anti-maastrichtiano, pelo contrário, importa defender à outrance o espaço de soberania nacional formalmente existente, resistindo ao processo integrador.

O maastrichtiano tem alguma razão quando considera que a proclamação formal da obediência face a determinados princípios pode não significar que os pratiquemos, isto é, que vivamos de acordo com aquilo que pensamos.

Pelo menos em política, poderá suceder tanto uma espécie de falta de autenticidade do poder como o seu inverso, a impotência do poder. Com efeito, a soberania, para poder ser praticada, implica a existência de uma série de potencialidades que, se não forem preenchidas em termos de poder nacional, podem transformar-se em vulnerabilidades.

Na prática, isso significa que o objectivo de vivermos apenas com aquilo que temos, por exemplo, o consumirmos aquilo que produzimos ou defendermo-nos com as forças armadas e espirituais que temos disponíveis, pode conduzir a uma espécie de albanização, onde rapidamente podemos passar do supremo concentracionarismo autárcico ao vazio de poder.

Acontece que, no nosso tempo de aldeia global, pudemos verificar exemplos de incapacidade autárcica tanto de uma superpotência, como era a URSS, como de inúmeras médias potências.

Portanto, parece-nos irrealista que um Estado, com as dimensões que tem o português, possa ter ilusões de atingir níveis de autarcia isolacionsita.

Se, mesmo para as superpotências e as médias potências, a soberania tende cada vez mais a ser uma espécie de gestão de interdependências, não nos repugna que, no caso de um pequeno Estado, a soberania tanto tenha de ser gestão de interdependências, como também gestão das próprias dependências.

Com efeito, no processo vertiginoso de desenvolvimento económico e social da comunidade portuguesa, são patentes as nossas crescentes dependências no plano alimentar, energético e tecnológico.

Podemos, muito caricaturalmente, referir que, através de um disciplinado regime de racionamento, poderíamos comer apenas aquilo que produzimos; da mesma maneira, como até poderíamos deixar de importar petróleo e energia eléctrica, regressando ao carvão florestal e ao gasogéneo e voltando a utilizar o boi e o burro. Até seria possível renunciarmos às fotocopiadoras, às máquinas de calcular e aos micro-computadores. Foi quase assim que tentaram resistir os soviéticos e os albaneses.

Mas nunca foi essa a nossa tradição profunda. Bem pelo contrário. Desde as primeiras horas da nossa independência que praticámos uma ágil política internacional, pautada pelo lema de nos submetermos para sobreviver, mas de, ao mesmo tempo, ousarmos lutar para continuarmos a viver.

O programa de conservação, defensão e aumentação do reino, desde o senhor D.Afonso Henriques, sempre passou pela resistência face às pretensões de imperium do rei de Castela, pelo sentido ofensivo do processo de reconquista e por uma flexível política de alianças internacionais. Não foi com os cruzados a ajudar que retomámos Lisboa? Não foi o Papa que, reconhecendo o reino, consolidou formalmente a nossa separação face ao bloco castelhano?

Esse programa de potenciarmos a independência pelo recurso a alianças internacionais atingiu o apogeu quando estabelecemos com os britânicos o Tratado de Windsor, esse instinto estratégico que passou a constituir uma espécie de seguro contra as investidas de Castela, através da nossa integração no eixo daquelas potências ribeirinhas da Europa que faziam do Atlântico um horizonte de defesa e crescimento.

Foi essa estratégia que nos fez resistir em 1385 e que nos permitiu a a auto-determinação de 1640. Estratégia que, aliás, voltou a ser accionada na sequência das invasões napoleónicas, embora, a partir de então, a aliança luso-britânica tenha produzido o protectorado de Beresford, a independência do Brasil contra os interesses portugueses, para não falarmos dos meandros da política africana, a partir da segunda metade do século XIX, nomeadamente na questão do Ultimatum.

Desde logo se impõe uma observação: o controverso texto do Tratado de Maastricht, tão minuciosamente preparado pelos mais altos peritos, apoiantes das burocracias polidas e civilizadas do nosso tempo, e tão cuidadosamente retocado e aprovado pelos supremos representantes e dignitários dos nossos governos, que, até há bem pouco tempo, apenas estacionava nos meandros da diplomacia, da tecnocracia e da vida académica, foi condenado a descer ao nível dos comentários do homem da rua, perdendo a ganga quase sagrada em que estava emoldurado e ficando dependente dos caprichos de uma multidão, constituída por uma esmagadora de pessoas que, mesmo que o leiam, o não entendem.

Aliás, em política, podemos saber o que certos textos querem, mesmo que vocabularmente os não entendamos, da mesma maneira como podemos não saber o que querem e para onde vão os autores de certos discursos, apesar de podermos dominar gramaticalmente todo o respectivo conteúdo.

Quanto ao texto de Maastricht, mesmo aqueles que estão tecnicamente preparados para o ler e entender, têm de chegar à conclusão que o dito, para poder ser consensualizado pelas diversas potências políticas, económicas e sociais, teve que encher-se de cláusulas gerais e conceitos indeterminados, autênticos buracos negros, que os respectivos executores, os políticos e os tecnocratas, podem concretizar de formas contraditórias. Assim, o que, sobre Maastricht, esteve em causa nos recentes referendos da Dinamarca e da França, não foi o texto, mas o pretexto e o contexto, isto é, não foi a letra, mas o espírito que lhe deu corpo. Sobretudo, a questão de sabermos se tais buracos negros serão executados pelos euro-burocratas e pelos euro-parlamentocratas ou, pelo contrário, pelos representantes directos do eleitorado dos vários povos europeus.

Porque Maastricht, em vez de um catálogo de herméticas juridicices e de clássicos princípios gerais, escolasticamente susceptíveis de desenvolvimento pelas consabidas técnicas da hermenêutica jurídica, é algo que está condenado a depender do acaso e da necessidade das circunstâncias. O que os povos da Europa, até agora decidiram, foi da impossibilidade dos eurocratas poderem invocar a passagem de um cheque em branco em torno da construção europeia.

Com efeito, a apaixonada discussão pública sobre a matéria obrigou a que a "Europa Confidencial" que elaborou o referido Tratado de Maastricht tivesse sido surpreendida nas intimidades e concuspicências das suas antecâmaras.

Até há bem pouco tempo, a Senhora Dona Europa, mais conhecida por CEE, enroupada que estava pelo barroquismo conceitual dos macro-politiqueiros, dos macro-economistas e dos macro-monetaristas, parecia algo de inacessível a quem não pudesse controlar o dicionário dos manuais de planeamento económico.

Tal Europa estava cercada pelo smog de um saber hermético, a que, por comodidade, chamaremos europês, que os iniciados guardavam a sete chaves, para conservarem o regime de mandarinato. Tratava-se, contudo, de um saber hermético que nada tinha de esotérico, dado que qualquer homem comum, se tivesse a paciência de consultar a letra miúda de uma série de "dossiers", sempre podia aceder à essência das questões em causa.

Mas, depois dos referendos sobre o Tratado de Maastricht ocorridos na Dinamarca e em França, a Europa talvez tenha começado a perceber que o europês da Europa confidencial quase nos conduziu ao desastre.

Afinal a Europa da super-burocracia do Presidente Delors, dos comissários, adjuntos e dependentes, bem como da super-parlamentocracia de Estrasburgo, com os seus euro-marajás e euro-castas, não conseguiu aguentar o embate dos populismos e teve que, em último recurso, pedir socorro a velhos políticos como Mitterrand, Giscard e Chirac.

A história da construção da unidade europeia da segunda metade do século XX pode ser contada em meia dúzia de linhas, sem recorrer às gastas citações que aparecem nos folhetos de divulgação da CEE emitidos por Bruxelas.

Convém começar por dizer que a antiquíssima ideia de reconstrução de uma unidade política da Europa, de certa maneira, concretizada no plano político pelo Império Romano e no plano politico-religioso, pela Igreja Católica Apostólica Romana durante a Idade Média, sempre esteve na base dos grandes projectos de Império desencadeados pelas grandes potências europeias da Idade Moderna e Contemporânea.

Foi este sonho que animou a Espanha de Carlos V e Filipe II, a França de Napoleão Bonaparte e as várias Grandes Alemanhas, lideradas pelos Habsburgos, pela Prússia ou por Adolfo Hitler, já que os ingleses, conscientes das respectivas vulnerabilidades no plano continental, sempre preferiram conter uma das outras potências no teatro europeu, para poderem continuar a expandir-se noutros continentes.

Acontece apenas que este choque de Impérios conduziu a mortíferas guerras na Mitteleuropa que, neste século, produziram aos grandes desastres humanos que constituiram as duas guerras mundiais.

Era, pois, natural que depois de 1945, se procurasse um efectivo tratado de paz entre as duas principais potências da Mitteleuropa, a França e a Alemanha, a fim de se destruirem as causas dos potenciais conflitos. Assim, surge, em plena Guerra Fria, a ideia de um mercado comum do carvão e do aço que, em 1951, com o Tratado de Paris, vai conduzir à criação da primeira das Comunidades Europeias, a CECA.

A geração que concretizou este modelo, se vivia a euforia do planeamentismo económico, se tinha consciência que os problemas económicos só se resolviam com soluções económicas, não se podia, contudo, integrar na categoria dos meros tecnocratas. Homens como Jean Monnet, o founding father do sistema, Robert Schuman, Konrad Adenauer ou Alcide De Gasperi eram essencialmente animais políticos, isto é, sabiam que os problemas económicos não eram apenas problemas económicos, adoptando o método de curar o económico através do económico, mas não apenas através do económico.

Eles sabiam que a economia tinha de ser conduzido pela política, que a política tinha de ser norteada por ideias e que a superação das questões sociais da Europa de então tinha de ser comandada por um sonho. Só que ensairam realizar o sonho, não pelos métodos da guerra, mas através do planeamento, da tecnocracia e da burocracia. E passaram do plano das boas intenções, desencadeando o processo de uma realidade nova: a Europa Comunitária.

Em 1957, já não bastava o carvão e o aço. Era preciso um mercado comum, com livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais e uma unificada política agrícola, bem como uma conciliação no plano da energia atómica. E assim surgiu a CEE e a EURATOM, com o Tratado de Roma.

O modelo atingia o ponto de não regresso e estava suficientemente maduro para alargar-se, dos seis Estados iniciais, a todos os vizinhos europeus que se identificassem com ele no plano político, económico e social.

Assim, algumas décadas volvidas, além da França, da Alemanha/RFA, os pilares do processo, da Itália, e dos três Benelux - Holanda, Bélgica e Luxemburgo -, eis que vão chegando, depois de muitos precalços, o Reino Unido, a Irlanda, a Dinamarca, a Grécia, o nosso Portugal e a Espanha, sem esquecer o último alargamento à própria Alemanha/RDA, depois da queda do Império Soviético.

E aqui estamos, nas vésperas de 1993, com um mercado comum prestes a transformar-se no mercado único e a discutir a ratificação do Maastricht, que, além do mercado único, visa criar uma união política efectiva.

Acontece apenas que nos bastidores do projecto europeu já não estão as nobres figuras dos pais-fundadores, mas os eurocratas. Toda uma fauna de pretensos filhos de algo pela via da contiguidade burocrática e partidocrática. todos eles exímios na metodologia, mas parcos no sonho, que, pouco a pouco, foram usurpando as decisões fundamentais, tanto através dos euro-burocratas de Bruxelas, como dos euro-parlamentocratas de Estrasburgo.

Uns viciados nas burocratices e outros na politiqueirice e todos com vencimentos de luxo, ambos se enredaram nos ares condicionados das respectivas torres de marfim supra-nacionais, perdendo-se nos corredores dos grupos de pressão e das partidocracias.

Assim, o grande sonho europeu dessangrou-se. E a eurocracia burocrática e parlamentocrática, afastando a Comunidade do homem comum, deixou de entender a função de governar e de representar.

Felizmente, o debate em torno de Maastricht, protagonizado pelos referendos da Dinamarca e da França, onde as campanhas pelo não foram assumidas pelos párias do sistema político estabelecido, fizeram despertar os envelhecidos políticos da Europa que tiveram de arregaçar as mangas e combater no terreno face to face.

Talvez a Europa de Monnet, Schuman, Adenauer e De Gasperi tenha sido salva in extremis, num momento em que o sonho de unidade política da Europa, depois do fim do Império Soviético, tem a possibilidade única de se estabelecer naquela casa comum que vai do Atlântico e para além dos Urais, talvez até Vladivostoque, juntando os herdeiros do Império Romano do Ocidente com os também europeus herdeiros do Império Romano do Oriente, desde sempre liderados pelos russos.

O desafio que os europeus nesta última década do século XX enfrentam talvez constitua um dos mais importantes reptos políticos da história da humanidade. Seria trágico que essa grandiosa missão ruisse por questiúnculas politiqueiras. Seria ridículo que o europeísmo se reduzisse ao discurso europês.

A tarefa precisa de pessoas como Jacques Delors, Lucas Pires e Carlos Pimenta, bem como de outros tantos antigos políticos activos nos respectivos espaços nacionais, mas o sapateiro não pode ir além da sua chinela.

A Europa é uma democracia de muitas democracias. Não é uma super-estrutura comissária, directamente irresponsável perante os povos - uma espécie de Sacro-Império Burocrático em regime de depotismo iluminado, mesmo que com boas intenções construtivistas -, nem um super-congresso multitudinário sem respeito pelas democracias vivas e directas dos vários cantões nacionais.

Os avisos da Dinamarca e da França, demonstram que a democracia, para além dos democratas, precisa dos povos e que os povos só confiam em políticos.

A Europa não pode nascer de cima para baixo, com Metternichs, Bismarcks e Bonapartes. A Europa que temos, bem pelo contrário, foi criada pela multiplicidade unitária do dividir para unificar.

Além disso, por melhores que sejam os euro-burocratas e os euro-parlamentocratas, nenhum deles, por mais genial que seja, ou todos eles juntos, por muitos e bons que sejam, conseguem pôr os homens concretos e as realidades dos povos ao serviço daquilo que eles decretam como processo histórico.

Diremos que, com o debate em torno de Maastricht, quem ganhou foi a Europa, que assim teve a oportunidade de perceber que o europês não serve, porque a Europa só pode realizar-se através dos homens comuns e que a democracia é precisamente a decisão dos povos, através da voz autêntica dos homens concretos que os integram, nos momentos excepcionais. Só nos intervalos é que os governantes e os representantes podem falar em nome deles, mas dentro do mandato global que lhes foi atribuído.

Ai dos políticos que julgam que em vez de um pacto de associação com os governos e os parlamentos, os povos constituiram pactos de sujeição, susceptíveis de levarem à edificação de Leviathans, sempre desejosos de homens novos e de povos novos. Quem manda são os que cá estão.

Uma última nota para dizer que os interesses portugueses podem beneficiar com este sim, mas dos europeus face a Maastricht. Primeiro, porque um explícito não , se não acabava com a Europa - o Mercado Único de 1993 tem a ver com o Acto do Luxemburgo e não com Maastricht -, iria produzir um imediato choque entre os egoísmos das principais potências do actual contexto europeu, a Alemanha, a França e o Reino Unido, secundarizando os pequenos e médios Estados da CEE.

Voltaríamos à clássica distinção entre Estados Directores e Estados Secundários, numa balbúrdia, donde, a prazo, apenas beneficiariam as médias potências que liderassem o pelotão da divisão de honra, como agora, muito eufemisticamente, chamamos à tradicional segunda divisão.

Com este sim, mas, vai inevitavelmente dar-se uma politização do processo e talvez se desvendem os mistérios da antecâmara, muito especialmente os reais conflitos internos da euro-burocracia e da euro-parlamentocracia, podendo superar-se o actual equilíbrio instável, com a consequente procura de uma nova ordem europeia.

O problema é que o debate português sobre a matéria está conspurcado pela politiqueirice, depois de ter sido despoticamente iluminado pelo regime do segredo de Estado da tal Europa Confidencial, tecno-burocraticamente desviada dos verdadeiros fins para que foi recriada no pós-guerra.

Sobre a matéria, apenas poderei dizer, como português despartidarizado, mas que, nem por isso, deixa de ser um observador comprometido que, como dizia o Cardeal Retz, no século XVI, "há épocas em que se tem que mudar muitas vezes de partido se queremos permanecer fiéis às nossas opiniões".

Por isso é que um europeísta, para permanecer fiel à Europa, tem, algumas vezes, que assumir-se como anti-eurocratista.

Em primeiro lugar, sou português e quero continuar português. Dito de forma mais directa: sou cidadão de uma polis que, por acaso é a mais permanecente de todas as unidades políticas da Europa a que chegámos e só aceito participar nas oscilações da balança da Europa porque o modelo de organização política dos textos fundamentais da Comunidade Europeia me garante a conservação do reino.

A Europa em que eu acredito, a Europa que leio nas entrelinhas dos pais fundadores, é uma Europa que foi feita contra os erros políticos que levaram ao permanente confronto de Impérios europeus.

Daqueles Impérios europeus que sempre foram uma degenerescência das polis, daqueles Impérios que, com o absolutismo, em nome da soberania "una, inalienável, imprescritível e indivisível" e do leviatânico Estado Moderno expropriaram os reinos, os únicos legítimos herdeiros da civitas da República Romana e da polis ateniense.

O meu reino ou a minha república é doutro mundo. De um mundo não moderno, chamem-lhe anti-moderno ou pós-moderno É o reino como res publica, o reino que nos séculos XII e XIII, inspirado em Aristóteles e Cícero, se revoltou contra a dominância do Papado e do Imperium e proclamou que rex est Imperator in regno suo.

O reino de S. Tomás e do nosso Infante D. Pedro, o reino dos comuns, feito de "um principe com toda a comunidade da sua terra". O tal reino que o nosso Infante D. Pedro visionava indutivamente, como um concelho em ponto grande.

Este reino tinha um Principe, tinha um poder supremo, uma vontade de independência. Mas o poder supremo era da mesma natureza dos poderes que lhe estavam abaixo, onde o vértice era apenas uma parte da pirâmide do poder da polis, uma parte que, sendo parcela do todo, era, não obstante, representante do próprio todo.

Acontece que este reino foi, a partir do absolutismo teocrático, expropriado pelo renascimento do Império, num processo que passou da república teocrática dos luteranos ao L'État c'est moi dos despotismos esclarecidos, continuando a mesma natureza despótica, quando se substituiu o rei absoluto pelo povo absoluto, da Revolução francesa à Revolução Soviética.

Os Estados a que chegámos na Europa, na Europa das potências e dos Estados em movimento, ainda são quase feudalizados por projectos imperiais frustrados. Da Espanha de Carlos V, à França de Napoleão. Da Alemanha de Hitler à Inglaterra de outras procuras de Império no além mar. Da Rússia sonhando-se polícia da Europa a outros Impérios espirituais ou económicos.

A Europa do pós-guerra tentou ser outra coisa. Tentou ser a unidade da res publica christiana na diversidade dos reinos, dos povos e das nações. Tentou ser a escrituração de um novo capítulo para além da dinâmica dos Estados Directores em confronto, instrumentalizando uma multidão de Estados secundários.

Tentou refazer os Estados à maneira dos reinos, dividindo para unificar. Promovendo uma descolonização interna da Europa, para reconstruir a casa comum, em torno do que era efectivamente comum.

Como português, fiel às Cortes de Coimbra de 1385, às promessas traídas das Cortes de Tomar e à solução de auto-determinação pela vontade popular de 1640, acredito na Europa como a república universal a que temos direito.

Acredito na Europa da res publica christiana - como o defendeu o humanismo cristão - acredito na Europa dos jus gentium - como o defenderam os estóicos e o humanismo laico dos projectistas da paz. Acredito na Europa que os democratas-cristãos e os sociais-democratas começaram a reconstruir face às últimas tragédias do Leviatão e do Behemot, como as conhecemos na Segunda Guerra Mundial.

Não tenho, portanto, medo da Europa. Não tenho o receio atávico de certo conservadorismo britânico, com medo da Invencível Armada. Não tenho complexos do cordão sanitário luterano, como certos nórdicos da Europa enriquecida continuam a alimentar, para não falar nalguns descendentes dos huguenotes franceses que por aí circulam com outros nomes.

Dito isto, acrescentarei menos esotericamente. Acho que Maastricht é uma coisa péssima. Mas também quero acrescentar que é a menos péssima entre as péssimas alternativas que se nos apresentam nesta encruzilhada.

Com efeito, seria bastante mais péssima aquela alternativa que nos conduzisse a um qualquer regresso ao confronto dos três impérios vencedores da história recente - o Reino Unido, a Alemanha e a França.

Haveria a tragédia de uma verdadeira Europa de muitas velocidades, onde os que menos poderiam correr regressariam à condição de Estados Secundários, feudalizados ou satelitizados pelas potências directoras, onde o chamado sistema Metternich retomaria lugar de comando.

E aí basta recordar a terrível consequência de tal modelo em Portugal - a guerra civil de 1828-1834.

Julgo que o principal objectivo estratégico pelo qual os portugueses devem lutar é o da descolonização interna da Europa. Que todos façam, sem defenestrações, através da revolução do poder dos sem poder, o que nós praticámos em 1640. Mas sempre através de um conceito de casa comum europeia.

Não me repugna, portanto, sacrificar o conceito absolutista de soberania ou a perspectiva geométrica de Estado Moderno. Desde que se garantam os reinos, os povos e as nações; desde que se pratiquem as antiquíssimas virtudes da defensão e conservação das comunidades.

A Comunidade Europeia pode não tornar-se inimiga dos nacionalismos, como alguns europeístas geométricos andam por aí a proclamar de forma politiqueira. Julgamos, pelo contrário, que nem sequer poderá haver autenticidade na construção europeia se a Europa não se assumir como "nação das nações", com a consequente libertação das nações proibidas por certos pan-nacionalismos europeus.

O nacionalismo português, por exemplo, não é irmão gémeo do nacionalismo germânico ou francês.

Nós que somos resistência a partir de uma separação, como podemos comparar-nos a nacionalismos que ainda são expansão de certos núcleos étnicos dominantes, através da supressão de certos direitos à secessão ou à diferença, num processo chamado de unificação ? Comparar os lombardos com os franceses, os irlandeses com os defensores da Anschluss e os que queriam uma "España una, grande y libre, de mar a mar, sin Portugal ni Gibraltar" com os que sempre disseram que "de Espanha, nem bom vento nem bom casamento", é o mesmo que colocar os nossos sebastianistas como emissários de Olivares ou continuar a dizer, muito estalianiamente, que o nacionalismo ucraniano era agente do nazismo.

O reino e a república são deste mundo onde o homem deve voltar a ser a medida de todas as coisas e onde nada do que é humano pode ser alheio ao Estado. O Império é que é do outro. É daquilo que só Deus tem. Por isso, diremos que devemos expurgar do Estado a que chegámos tudo o que não é do homem, todas aquelas religiões seculares dos Impérios e Leviatões que, em nome de essências e nominalismos, tanto desumanizam o Estado como ofendem o divino, quando transformam as ideologias em sucedâneos do transcendente.

Temos de ter os pés assentes na terra e o coração no mais além, não podemos ficar a meio caminho, servindo coisas etéreas que são o produto dos nossos fantasmas.

Assim foram os Impérios que ofenderam aquele verdadeiro Império que só Deus tem. Assim continuam a ser certas concepções de Estado Moderno, filhas do despotismo esclarecido e das teocráticas "razões de Estado".

O tom algo metafísico destas minhas palavras pode parecer nada ter a ver com o objecto da conferência. A culpa, de certo, que é do estilo do autor.

O que pretendo dizer, pode ser traduzido de forma menos grandiloquente. O que eu quero dizer é que andam para aí, muitas concepções de uma certa Europa desumana, desse sacro-império tecno-burocrático, muito iluminista e desejoso de despotismo que pretende continuar na senda dos senhores da guerra, a destruir as polis, as civitates e os reinos, imitando as formas do Estado Moderno Primitivo.

Contra essa degenerescência estatolátrica, mesmo que muito vestida com as peles do cordeiro federativo, têm que estar contra os autênticos europeístas. Mas, por amor de Deus, não confundam a nuvem com Juno, não caiam no engodo do Leviatão; não balbuciem, sob o nome de nacionalismo, as teses dos irmãos inimigos imperialistas, desses que pretendem restaurar sistemas Metternich, embrulhando o cacete entre o pietismo de falsas Santas Alianças e de falsas teologias de mercado.

Maastricht tem muitos Maastrichts como hipóteses. O Maastricht delorsiano já foi. O Pós-Maastricht que há-de ser depende de nós. E depois de tudo o que se passou, desde o não da Dinamarca ao sim dos irlandeses, desde o sim mas dos franceses, ao deixa ver no que isto dá dos britânicos, há muitos sins que à Europa podem ser não e certos não que à mesma Europa podem dizer sim.