SOBRE A REVOLUÇÃO GLOBAL

 

Academia da Força Aérea, 19 de Julho de 1994

 

 

Aqui e agora, mês de Julho de 1994, Portugal, Academia da Força Aérea, tempo de crise. É este o pretexto, a partir do qual vamos tentar conferenciar.

Não queremos falar, evidentemente, das pequenas turbulências e das guerrazinhas de homensinhos que marcam a conjuntura desta cada vez mais pequena casa lusitana, desde as questiúnculas das portagens e das dívidas à segurança social e ao fisco por parte de alguns clubes de futebol, até ao carapau galego ou ao leite italiano. Nem sequer nos angustiamos com as tarefas dos nossos deputados europeus ou com os habituais cambalachos negociais dos partidos antes do início de um processo de revisão constitucional.

 

É doutra crise que pretendemos falar. Da crise global deste fim de século, da crise subsequente ao fim da velha ordem mundial, pactuada em Yalta. Desta crise mais cultural de política, que faz com que estejamos condenados a utilizar conceitos e categorias de outras realidades para as actuais circunstâncias do mundo.

 

Queremos falar da viscosidade da chamada revolução global, expressão que começou a ganhar foros de cidadania nos finais da década de oitenta, entre os especialistas da ciência política e da teoria das relações internacionais, e que foi consagrada num relatório para o Clube de Roma, em 1991, da autoria de Alexander King e Bertrand Schneider.

 

Estes autores falavam que vivíamos The First Global Revolution, na primeira Revolução Global da História da Humanidade, onde o primeiro estímulo para a identificação e a sobrevivência das comunidades políticas já não seriam os tradicionais amigos/inimigos da velha pretensa essência do político, mas antes os inimigos globais de todas as comunidades humanas, da aldeia global.

Isto é, partindo do clássico princípio que nos diz que o nós precede o eu, que cada um só ganha consciência de si mesmo quando consegue estabelecer uma fronteira com o outro, o que tem levado à sobrevalorização da ameaça vinda de força, como principal elemento de desintegração, King e Schneider consideram que só no nosso tempo é que surge uma ameaça global e, consequentemente, só agora que os homens todos começam a ganhar consciência existencial da globalidade humana.

De facto, tem sido o risco maior, o elemento mais acelerador da mundialização

 

O que King e Scneider qualificam como Revolução Global, era, aliás, teorizado, há mais de duas décadas em Portugal, pelo Professor Adriano Moreira que, na senda de Teilhard de Chardin, falava numa lei da complexidade crescente nas relações internacionais, na multiplicação das dependências e interdependências que é acompanhada por uma também multiplicação quantitativa e qualitativa dos centros de decisão, movimento de contrários que geraria novas formas políticas, os grandes espaços, bem como órgãos supranacionais de diálogo, cooperação e decisão.

Numa convergência acompanhada por uma divergência que exigiria uma nova unidade.

 

Isto é, que se assistia, tanto a uma planetização dos fenómenos políticos, com a consequente marcha para a unidade do mundo, como a uma dispersão, a uma fragmentação, a uma multiplicação quantitativa e qualitiva dos centros de decisão, nomeadamente com a progressão quase geométrica do número dos Estados e dos organismos internacionais.

 

Essa aparente contradição (por um lado, as exigências de uma crescente mundialização, e por outro, as exigências opostas da diversificação), constitui, aliás, o mais evidente sinal do complexo.

E é complexo tudo o que é mistura de contrários. E do complexo só saímos, não pela vitória de um pólo sobre o outro, através da antítese vitoriosa sobre a tese, através da síntese, mas sim pela harmonia.

 

Comecemos pelos sinais de convergência no sentido do mundialismo.

 

O primeiro desses sinais é sem dúvida a grande revolução técnico-científica.

E não vale a pena perorarmos sobre a matéria, até porque estamos numa Academia da Força Aérea e basta recordarmos, em termos de teorias estratégicas, que depois dos clássicos confrontos que opunham o poder terrestre ao poder marítimo, essa clássica contradita foi superada pelo aparecimento do poder aéreo e, mais recentemente, com a chamada Iniciativa de Defesa Estratégica, a guerra das estrelas, isto é, o poder supra-terrestre, supra-marítimo e supra-atmosférico, deixou de ser um exclusivo da ficção científica

 

Não há dúvida que o poder internacional passou a ser medido pelo poder científico, tanto o poder da investigação como o poder tecnológico.

Não há dúvida que o sovietismo, leninista e estalinista, permitiu que a URSS se tornasse numa superpotência quando se deu a boa síntese entre o comunismo e a electricidade.

E até podemos dizer que a URSS entrou em decadência quando se esqueceu da máquina de fotocópia e do transistor.

Ou melhor, quando não percebeu que se entrava na alvorada da terceira vaga, da revolução das tecnologias da informação.

Que a revolução científica não era apenas a mera continuidade da novecentista Revolução Industrial, isto é, a mera exploração da massa pela energia ou a exploração da natureza pelo homem.

A URSS não cuidou de meditar sobre a lei da entropia, descoberta por Rudolf Clausius nos finais do século XIX, não percebeu a existÊncia de uma nova grandeza variável da energia ... a quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, é irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício no balanço da energia do Universo.

A URSS não percebeu, e certa sociedade de consumo também não continua a perceber, que a mera exploração da massa pela energia gera uma geração de desperdício

 

O poder económico também alterou a tradicionais medidas do poder internacional. Porque outra das revoluções globais da humanidade chamou-se revolução dos mercados.

Aquela revolução que obriga ao reconhecimento do homem como um animal de trocas; aquela revolução do doux commerce que fez com que as armas da paz substituissem as armas da guerra.

Hoje podem já não existir superpotências, mas existe o Grupo dos Sete. Hoje, das cem maiores entidades económicas mundiais, misturando Estados, em termos de PIB, e empresas, em termos de volume de facturação, verificaremos que mais de metade são as chamadas multinacionais.

 

 

A terceira é a revolução dos teatros estratégicos, a mundialização dos fenómenos da segurança e da defesa, provocada tanto pela corrida armamentistas, como por novas formas de guerra potencial, como a guerra atómica, a guerra química, a guerra bacteriológica e a guerra meteorológica.

 

 

A quarta, a revolução da informação. Assistimos à uniformização e à ubiquidade da informação, todo o mundo se transformou na aldeia global da informação simultânea, com o consequente aparecimento de uma engenharia social que vai moldando uma opinião pública mundializada e o problema do controlo dos mecanismos da mesma.

 

O homem massa transformou-se em audiência, em consumidor em vítima potencial das novas armas do terror massiço

 

A quinta a alteração quantitativa na relação entre grupos étnicos. As bombas demográficas do sul relativamente ao decréscimo da população branca.

 

Estas cinco revoluções, que na sua interacção constituem o núcleo da tal revolução global da história da humanidade, fizeram com que ruísse a velha ordem mundial, estabelecida em Yalta, em 1945, e que, até 1989, se desenrolou segundo ritmo da chamada guerra fria.

Contudo, o tempo acelerado das mudanças políticas subsequentes ao processo da revolução globasl, não foi acompanhado por uma paralela revolução cultural. É que se as revoluções políticas se fazem no curto prazo, já as revoluções culturais e morais exigem sempre um tempo demorado, um médio e um longo prazo.

E esta circunstância sentida no plano da organização política, dado que continuamos a utilizar conceitos como os de Estado e de soberania, inventados na Renascença e que talvez hoje se não coadunem com as realidades da nação e daquela independência que o continua a ser quando se gerem interdependências e dependências e se espiritualizaram as fronteiras, mas sem atingirmos a exigência de um Estado ou de uma República Universal, onde todos seríamos cidadãos do mundo.

 

Aqui e agora, em 1994, cinco anos depois do ano 1989, talvez importe vislumbrar alguns dos sinais dos tempos que a hiperinformação da aldeia global nos oculta, talvez importe tentar penetrar na constelação causal das nossas circunstâncias, a fim de conseguirmos detectar as correntes profundas da história que nos arrastam.

E, sem grande esforço, podemos desde já concluir que, só agora, em 1994, conseguimos detectar o sentido de alguns dos acontecimentos ocorridos em 1989. Porque fenómenos de longo prazo, não podem ser detectados pelas lentes do curto prazo, a não ser que seja possível a utilização do método profético.

 

Vivemos, com efeito, um tempo de aceleração da história, um tempo acelerado, marcado por vertiginosos acontecimentos que a hiperinformação da chamada aldeia global da comunicação vai quase efemerizando.

 

Com efeito, quem tentar ordenar cronologias dos últimos cinco anos da vida da humanidade, poderá, sem esforço, concluir que não houve um único mês que não tenha sido assinalado por uma efeméride que os observadores jornalísticos ou os opinion makers dos grandes meios de comunicação social não tenham qualificado como histórica.

 

Isto é, as lentes imediatistas, utilizadas pelos analistas do curto prazo, descrevendo, com os mais pormenorizados zooms das reportagens directas, as árvores da nossa floresta, quando não a casca ou um pedaço de folha, não nos têm deixado perspectivar a própria floresta, coisa que apenas se consegue pela técnica da compreensão e pelo clássico método científico que impõe que se procure substituir a opinião pelo conhecimento.

 

Sucede apenas que, para tanto, continua a faltar teoria, dado que para tentarmos falar da nova realidade continuamos a utilizar conceitos provenientes da ordem anterior.

 

Falarmos em 1994 sobre a Rússia, é falarmos cinco anos depois do ano Sakharov, quando, na sequência da queda do muro de Berlim ou do muro da vergonha, a ponta de um iceberg que escondia uma mais vasta cortina de ferro que fazia de cada homem uma espécie de espécie de guerra civil, se pôs um fim simbólico à chamada guerra fria.

É falarmos vinte anos depois de 1973-1974, quando se deu a publicação do Arquipélago de Gulag, numa altura em que o poder intelectual da esquerda pacifista dominava os mass media ocidentais e tentava ser como os três macacos orientais, que tapam os olhos para não ver, tapam os ouvidos para não ouvir e calam a boca para não falar, sempre que a realidade lhes desfaz os pressupostos teóricos

 

Foi então que surgiu o espiritualismo libertacionista vindo do Leste daqueles que lutando existencialmente contra o pós-totalitarismo comunista e sovietista, também não deixaram de denunciar os erros do ocidente

Daqueles que impropriamente se chamaram dissidentes e que, conforme o estatuto editorial da efémera revista Kontinent, defendiam um idealismo religioso absoluto, ou seja, com uma orientação predominantemente cristã e uma aliança espiritual permanente com aqueles que professam outras religiões; um antitotalitarismo absoluto, ou seja uma luta contra todos os tipos de totalitarismo: marxista, nacionalista ou religioso; um democratismo absoluto, ou seja, o apoio consequente a todas as instituições e tendências democráticas da sociedade contemporânea; uma ausência absoluta de partidarismo.

 

1989 foi há cinco anos.

Foi há cinco anos que demos um fim simbólico à chamada guerra fria, quando caiu o muro de Berlim e os homens espontaneamente derrubaram, sem ser pela força das armas, a chamada cortina de ferro que dividia uma casa comum que ia do Atlântico aos Urales.

Foi há cinco anos que a Europa mudou. Vaclav Havel, o intelectual checo que fora um dos principais animadores do movimento dissidente Carta 77, se era preso em 16 de Janeiro, dez meses depois, já assumia a presideência da então República Checoslovaca, tendo ao seu lado, como Presidente do Parlamento, Alexander Dubcek, o líder da malograda primavera de Praga.

Também na Polónia, depois de dez anos de luta, eis que em Janeiro de 1989, era legalizado o moviemnto Solidariedade que, depois de vencer as eleições de Junho, já assumia a presidência do Governo, em 24 de Agosto, com o intelectual católico Thadeus Mazowiecki, adepto da política antipolítica e de um regresso aos valores fundamentais

Na Roménia, por seu lado, os acontecimentos precipitam-se no mês de Dezembro, onde, depois dos acontecimentos de Timisoara, no dia 16, eis que no dia 25, era derrubado, de forma fulminante, o conducator Nicolai Ceausescu, com requintes macabros.

Já na Alemanha, depois da fuga de milhares de cidadãos da RDA para a RFA, através da Hungria, em Setembro, eis que no mês seguinte se davam mudanças nas cúpulas de Berlim Leste (o recém falecido Honecker era substituído por Egon Krenz) e, no dia 9 de Novembro, já caía o muro da vergonha.

Em África foi também há cinco anos que assumia a presidência da República da África do Sul, Frederik De Klerk (15 de Agosto) e que a SWAPO ganhava as aleições na Namíbia (11 de Novembro).

Também na América do Sul sopravam novos ventos. No Paraguai era derubado o ditador mais antigo em exercício, Alfredo Stroessner. No Chile iniciava-se a era pós-Pinochet com a eleição do democrata-cristão Patrício Alwin(em 14 de Dezembro). No Brasil, Collor de Melo era eleito, em 17 de Dezembro, nas primeiras directas desde 1960, enquanto se dava, três dias depois, a invasão do Panamá por tropas norte-americanas.

Por sua vez, na Ásia, para além da retirada do exército do Vietname do Cambodja (29 de Setembro), eis que também sucedia o episódio de Tian an men, entre 22 de Abril e 4 de Junho, com a ocupação da Praça da Paz Celestia por estudantes, numa manifestão que o poder de Pequim, sob a liderança de Deng Xiaoping, vai considerar como contrarevolucionária, com as violentas consequências da aplicação da lei marciual, decretada em 19 de Maio, quatro dias depois de Mikhail Gorbatchov ter visitado Pequim.

 

Las but not least, eis que em 3 de Dezembro de 1989, ocorria a cimeira de Malta, entre Gorbatchov e Bush, onde se concluía o ciclo iniciado em Yalta, em 1945.

Isto é, ruía a velha ordem mundial, estabelecida pelo equilíbrio entre duas superpotências. E como costuma dizer o Professor Adriano Moreira, nova Ordem apenas sabemos que acabou a antiga.

 

Nestes cinco anos, com os golpes e contra-golpes de Moscovo, de 1991 e de 1993, com a queda de Gorbatchov, a implosão do Império Soviético, a ascensão ao Olimpo do Kremlin de Boris Ieltsine e o aparecimento do epifenómeno Vladimir Jirinowski, muita coisa mudou na esperança com que os ocidentais encaravam o futuro da Rússia.

 

Há cinco anos, com efeito, as teorias dominantes da aldeia global da comunicação balbuciavam mimeticamente, duas teses surgidas entre intelectuais norte-americanos que falavam tanto no fim do comunismo como no próprio fim da história. E não houve bem-pensante que se prezasse que não alinhavasse alguma prosa circunstancialmente profunda sobre o tema de tais modernidades.

 

Sobre o fim do comunismo, mais do que referirmos as sucessivas vitórias de ex-comunistas em vários países de Leste, da Bulgária à Lituânia, passando pela Roménia e por vários Estados que se independentizaram da URSS, com destaque para as mais recentes eleições na Polónia e na Hungria, importa dizer que o sistema concentracionário, burocratista, bandocrático, gerontocrático e nomenklaturista que dominava a Rússia, através da URSS, pouco correspondia aos sonhos doutrinários dos crentes na religião secular marxista-leninista.

 

A URSS, principalmente durante a gestão de Brejnev, não era uma união; as repúblicas já não eram socialistas e já nem sequer havia sovietes.

Nem sequer se enqadrava dentro dos moldes totalitários, já que dominava o cinzentismo pós-terrorista e pós-totalitário.

 

Comunistas de sonho, marxistas-leninista de intelectualismo, existiam apenas nos países ocidentais, onde apesar de tudo, Álvaro Cunhal sempre podia considerar a URSS como o sol da terra. Marxistas-lenistas havia, e continua a haver com certa pujança, cada vez menos envergonhada, nas Universidades ocidentais.

Esses que, apesar de já terem repudiado o estalinismo, continuavam à procura da realização da Revolução de Outubro em qualquer frustração do processo revolucionário russo, desde o leninismo não poluído por Estaline ao próprio trotskismo, para não falrmos na procura de revoluções exóticas, fosse a do maoísmo ou o mais tropical castrismo, para não falarmos em coisas mais europeias, como o Maio de 68, depressa traduzido em português na Coimbra de 69.

O fim do comunismo foi mero slogan. A realidade parece ser outra.

Deixem-me ensaiar uma tese. Deixem-me dizer que as três Revoluções que marcam o nosso tempo, a Revolução Inglesa, a Revolução Americana e a Revolução Francesa se transformaram, no longo prazo, numa pós-revolução demoliberal que foi deglutindo sucessivamente os respectivos adversários so século XIX, desde os conservadores à maneira anglo-saxónica, aos defensores da doutrina social da Igreja Católica, sem esquecermos os próprios socialistas, utópicos ou marxistas.

E de tal maneira sucedeu a conciliação com os antigos adversários que, vimos as democracias, depois da Segunda Guerra Mundial, serem quase todas geridas, defendidas e representadas pelos antigos adversários do século XIX: os conservadores à maneira britânica (não foi o sangue, suor e lágrimas do conservador Churchill que serviu como bandeira da resistência ao nazi-fascismo e ao estalinismo?); os democratas-cristãos (pelo menos desde Leão XIII e do afluxo dos partidos do centro e populares nos anos vinte); e os sociais-democratas (desde o revisionismo marxista de Bernstein).

Não será que, agora, depois da Guerra Fria, não se estar a dar nova reconciliação com um antigo adversário, o marxismo-leninismo, pós-revolucionário que aceita os princípios do pluralismo, da sociedade aberta e da legitimidade electiva e democrática? Como se vislumbra nos antigos comunistas do Leste, fora da Rússia, ou nos herdeiros do eurocomunismo de Berlinguer, com o PDS, sem falarmos nalgumas novas linguagens dos neocunhalistas portugueses?

 

Sobre o fim da história, importa assinalar que o demoliberalismo de Fukuyama é apenas um irmão-inimigo do marxismo. Ambos aceitam as teses desenvolvimentistas de uma concepção ferroviária da história, segundo a qual todos os países têm de seguir a mesma via a caminho do mesmo fim, embora com várias velocidades, pelo que alguns estariam já em estações mais adiantadas, enquanto outros ainda seguiriam atrasados

E isto, porque Fukuyama considera que o fim da história é um certo desenvolviemnto político - o demoliberalismo tal como é praticado nos USa - e um certo desenvolvimento económico - a economia de mercado tal como é exportada para todo o mundo pelos USA

Deste modo se aceita aquele conceito hegeliano de progresso que também impregnou Karl Marx

A ideia de que a história é que faz o homem e não de que o homem é que faz a história. A ideia de que a história é um processo histórico que já está previamente escrito e de que a realidade é alguma coisa que temde se encaixar à força num prévio caixilho teórico.

Não admite que a história seja uma cocriação de homens livres e que, portanto, exista uma dialéctica entre a necessidade e o acaso. Não admite que quem está cem anos atrasado possa, nalguns, aspectos estar cem anos adiantado.

Não admite que o universal possa ser atingido através da diferença.

Que cada homem seja um ser que nunca se repete. Que a história seja também uma sucessão de acontecimentos que também nunca se repetem

 

Que os homenes são diferentes; que os povos são insubstituíveis; que as experiências de cada povo são instransponíveis e intransportáveis

 

Há pouco mais de uma mês, Alexander Soljenitsine regressava à Rússia. Largando do seu exílio norte-americano, voltava à sua pátria, pelo extremo-oriental, pisando, primeiro, uma das principais ilhas do Gulag.

Em Khabarovsk, antiga cidade comercial, situada na confluência do Amur e do Ussuri, onde Estaline mandou fuzilar, em 1937-1938, cerca de 15 000 homens, é recebiddo por Valentin Kulikov, presidente de uma das associações Pamyat, a que foi fundada por Sakharov.

 

E de repente, Soljenitsine voltou a estar na moda entre os grandes mass media do Ocidente. Deu entrevistas a grandes cadeias internacionais e a alguma imprensa escrita. E o nosso Expresso, depois de muitos anos de silêncio, transcreve uma dessas entrevistas.

Isto é, o esquema bem pensante da nossa aldeia global, depois de o ter silenciado ou caluniado, durante muitos anos, volta a dar grandes parangonas àquele autor que a própria Voz da América, durante a administração Reagan censurara, por pressão do Kremlin.

Contudo, continuam a considerá-lo um enigma.

Na verdade, tanto os bem pensantes liberalóides como os seus antecessores marxianos não têm teoria capaz de de compreender todos aqueles que pensam no longo prazo e que pensam no futuro.

 

Todos aqueles que consideram que as revoluções políticas se fazem em tempo acelerado, mas que as revoluções culturais apenas são possíveis em tempo demorado, como assinala o Professor Adriano Moreira.

Porque só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Porque, como assinalava o nosso Padre António Vieira, é preciso juntar ao lume da razão o lume da profecia.

O discuro meramente lógico e apenas racionalmente assimilivável, não consegue, compreender, apanhar as coisas em conjunto, vislumbrar em cada coisa o sentido do todo, entender a floresta, intuindo a essência de um só árvore.

O discurso meramente lógico, ao reduzir o todo a enunciados cognoscitivos, a conjuntos de parcelas, encadeáveis e sistematízáveis, ao considerar que o todo é mera soma de parcelas, que o todo pode decompor-se pela análise e reconstruir-se pela síntese, não entende que o homem é mais do que a razão mais a vontade. O homem é também imaginação, o homem não é apenas um animal racional, é também um animal simbólico.

E não podemos deixar de relacional a racionalidade com os mitos. Não podemos fugir dos mitos. Devemos reconhecer-lhes a natureza de mitos, mas para nos relacionarmos com eles, por dentro e por fora, desmistificando os mitos, mas sem fazermos das desmitificação um novo mito, como propõe Edgar Morin.

O método racional e o método profético são inseparáveis. O método racional pode fazer-nos entender o que está sempre ameaçado pelo imediato. Só o método profético nos permite aceder ao longo prazo e à filosofia da histórica. Só o método profético nos permite o diálogo entre a racionalização e o que lhe é estranho, nomeadamente a alma dos povos, aquele qualquer coisa que nunca cabe nos estreitos limites sistémicos das ideologias.

 

Aquilo que aconteceu na Rússia durante o processo leninista, estalinista, kruchteviano, brejneviano, andropoviano, tchernenkiano e gorbatchoviano foi, para utilizarmos uma linguagem de Jean Lacroix, uma tentativa de esvaziar a pessoa de interioridade e o mundo de mistério, procurando proibir-se, ao mesmo tempo, o imanente e o transcendente.

 

As forças que actualmente colonizam culturalmente a aldeia global, continuam o mesmo projecto, embora com contrário sinal ideológico e tentando dizer que a apologética e a propaganda não passam de mera informação.

 

Soljenitsine disse tudo: quando Lenine concebeu e Estaline desenvolveu e reforçou o esquema genial de um Estado totalitário, tudo foi previsto e organizado por eles para que o sistema subsistisse eternamente, evoluindo apenas a um gesto dos chefes, para que não ressoasse qualquer voz livre e não se formassem contracorrentes. Eles tinham previsto tudo, salvo uma coisa - o milagre, o fenómeno irracional cujas causas não podem see previstas, nem preditas nem contrariadas.

 

Milagre, foi, com efeito, a revolução de veludo, do poder dos sem poder e da política antipolítica.

Milagre foi o programa de Andrei Sakharov que, na senda de Tchekov, propunha que se espremesse gota a gota o escravo que existe dentro de nós.

Porque a culpa do totalitarismo, não é tanto dos que querem totalizar, como dos que consentem em ser totalitarizados, isto é, dos escravos que não se revoltam, dos escravos que preferem a segurança à liberdade.

 

A tentativa liberalóide que procurou substituir a alienação que era imposta nos comunismos pela reapropriação das terapias de choque e das trafulhices das chamadas privatizações, pondo a teologia do mercado, onde estava o marxismo-leninismo, mas permitindo a rápida reconversão da nomenclatura e da mono-partidocracia e a manutenção da bandocracia, conduziu ao desespero e está ameaçando sufocar a esperança.

 

O libertacionismo que Soljenitsine representa apenas pretende a reconciliação entre os homens de boa vontade

Ainda bem que ouvimos Soljenitsine continuar Soljenitsine. Isto é, denunciar a repressão comunista como um bloco, não distinguindo Estaline de Lenine.

Ainda bem que o vimos denunciar Jirinowski como a caricatura de um patriota russo.

Ainda bem que o vimos não ceder à transplantação de modelos: só os macacos é que transportam as coisas de um lado para o outro... Os macacos imitam. Nós não temos de imitar os outros. A nossa vida espiritual ou de outra ordem, deve desenvolver-se a partir dos nossos costumes, da nossa esfera social.

Nenhum povo pode ser bem sucedido em qualquer empreendimento enquanto não nos apercebermos de que nós somos o povo e os donos do nosso destino.

Ainda bem que o vimos retomar as velhas teses anti-imperialistas que defendem a reanimação da polis de baixo para cima, do homem para o Estado, da comunidade para o poder:

 

Só a partir da autonomia local é que estaremos em condições de construir a Rússia de baixo para cima

Ainda bem que o vimos defender o longo prazo, a globalidade e a saudade de futuro.

 

Se pensarmos a longo prazo, é de prever que no século XXI chegará o momento em que os USA juntamente com a Europa precisarão urgentemente da Rússia como aliado.

E respondendo ao entrevistador que dizia ser essa uma afirmação muito enigmática, Soljenitsine termina a entrevista, concluindo do seguinte modo:

 

É enigmática apenas para os que não olham para o futuro e não vêem que tipo de novas potências estão a surgir no mundo.

Chamar enigma ao bom senso talvez seja persistir no desconhecimento do tempo em que vivemos. Deste primeiro momento da história do homem em que a terra toda e os homens concretos todos se transformaram em homens iguais que habitam num planeta unidimensional.

Numa só terra que pela primeira vez fotográmos fora da própria atmosfera. Numa só terra vista como esfera, rodando sobre si mesma, à volta do sol, onde não cabem os mapas de Ptolomeu, ou as concepções quadriláteras do Império Celeste. Numa só terra, onde não pode haver divisão entre o Norte e o Sul ou o Leste e o Oeste. Numa terra toda que vive os primeiros momentos de uma revolução global que foi semada pela revolução científica e técnica, pela revolução dos mercados, pela revolução dos teatros estratégicos, pela revolução da informação, pela revolução demográfica e pela crise do Estado Soberano, que ao mesmo tempo, nos aparece como grande demais, quando pretende aprisionar as nações, os povos e as autonomias regionais e locais, e como pequeno demais, quando se vê na necessidade de construir grandes espaços para a economia, para a defesa e segurança e para a tecnologia.

Vivemos a primeira revolução global da história do homem. Onde a primeira das ameaças já não vem de outro um grupo de homens, mas sim dos riscos maiores que afectam toda a humanidade.

A primeira revolução global da história do homem, onde a consciência do património comum da humanidade nos faz sentir, existencialmente falando, como cidadãos do género humano.

A primeira revolução global da história do homem que só será verdadeiramente revolucionária quando se assumir como pós-revolução, quando deixar as ilusões do construtivismo e perceber a lei da entropia. Que não é viável a continuação da exploração da natureza pelo sujeito, pela exploração da massa pela energia, isso que leva à geração do desperdício e às sociedades opulentas e que, pelo contrário, importa descobrir uma nova grandeza variável da energia, aquela quantidade de energia que, sendo gasta pela mudança, é irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício.

Desperdiçamo-nos. Fazemos com que uns sejam cada vez mais ricos e que a maioria continue cada vez mais pobre e enganamos os pobres com a ilusão do casino e dos toto-sorteios dizendo que todos podem enriquecer.

Enganamo-nos. Quando não temos o bom senso de voltar à justiça e à verdade. Quando não temos a humildade de reconhecer que o homem novo é o homem de sempre.

 

Acredito mais em Soljenitsine do que em Fukuyama, acredito mais no humanismo libertacionista do que naquele formalismo liberalóide que defende para uma minoria de priviliegiados direitos humanos de luxo, mas permite a manutenção de escravos, teoriza sobre a existência de etnias de segunda e mantém regimes de apartheid em nome de pautas aduaneiras.

Aqueles formalismos liberalóides que choram Tian an Men em artigos de fundo, mas não reparam nas mais ofensas à dignidade do homem que resultam das políticas construtivistas da natalidade que vigoram em mais de metade da população do mundo, nomeadamente na Índia e na China, levando, por exemplo, a que nesta última grande potência, se constinue a praticar o infanticídio de crianças do sexo feminino de tal maneira que nascem hoje apenas 30% de mulheres, contra 70% de homens...

 

O libertacionismo parte do princípio sagrado de que o homem é um fim em si mesmo que o universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem. Que cada um de nós é o centro do mundo e do universo.

Onde o homem se desligue de todas as soberanias que o querem manter súbdito de muitas e variadas alienações.

Não apenas a do Estado totalitário e autoritário, mas também a de inúmeras potências privadas que vêm crescendo por entre os interstícios das máquinas estaduais.

Porque se a soberania do proprietário feudal nos pretendia tornar servos; porque se a soberania estadual do Leviatão ansolutista nos pretendia totalitarizar, eis que surge agora a soberania dessas novas potências não estaduais; desta sociedade técnica, desta sociedade de consumo e desta sociedade de massas, que está aengendrar novas formas de totalitarismo doce, onde o homem massa, previamente esvaziado da sua própria história (Ortega y Gasset), onde o homem desenraizado, destribalizado e despatriado, onde o homem exilado na sua própria pátria, acaba por ser escravizado por novas algemas; quando o nosso privadíssimo desejo de segurança é instrumentalizado, quando a liberdade inconveniente é desvalorizada, quando deixamos de poder viver como pensamos sem pensarmos como vivemos; quando somos impelidos para aquela forma de servidão, onde o ter prevalece sobre o ser

 

Há aquela verdade que está acima do povo, acima da pátria, e acima da ideologia, como dizia Dostoievski. Há a necessidade de cada um de nós espremer gota a gota o escravo que dentro de nós existe, como dizia Tchekov.

Não há liberdade sem libertação, não há libertação sem salvação. O homem só é maior, quando se reconhece como pigmeu, mas sobe à cabeça de um gigante... As revoluções verdadeiramente revolucionárias são as revoluções evitadas e as pós-revoluções, onde, com humildade, reconhecemos o principio da continuidade histórica das instituições, o evolucionismo espontaneísta, a evolução produto da acção dos homens e não das suas instituições.

Parafraseando Joaquim Barradas de Carvalho, sempre diremos que na história existem uma curta, uma média e uma longa durações. Isto é, os regimes políticos, e até os sociais, passam. A Língua e a Civilização ficam.

O comunismo e o capitalismo hão-de passar. Os povos ficam. Pode estar em crise o Estado Soberano, não está em crise o Estado feito à imagem e semelhança de um povo ou de uma nação, a Nação Estado, a Nação que criou um Estado e não um Estado que tenta criar uma nação. As ideologias passam. O homem continuará o homem de sempre contra todos os projectos de homem novo. O homem continuará à procura do imanente e do transcendente, da interioridade e do mistério. Não é a história que faz o homem, é o homem que faz a história.

 

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Página revista em: 02-01-1999.