ISCSP, em 15 de Novembro de 1994
Condenaram-me os organizadores das Jornadas, contra a minha opinião, aliás, a ter de usar da palavra nesta sessão abertura.
Contra a minha opinião, porque sendo, quase todos os dias, professor de grande parte da assistência, tanto tenho usado da palavra que corro o natural risco do meu discurso antes de o ser já o ter sido, porque, para os que me conhecem, será fácil adivinhar o que vou dizer.
Mas, nem por isso, tentarei fugir às previsões.
Portanto, começarei por saudar a presença nesta casa do Senhor Presidente da Assembleia da República. Em primeiro lugar, por razões protocolares. Porque é uma honra que nos dá a segunda figura do Estado, ao responder a um desafio dos estudantes! Que é da inteira responsabilidade dos estudantes, a concepção, a coordenação e a execução deste evento, como, aliás, é tradição na nossa escola.
Acontece apenas que o Presidente da Assembleia da República se chama António Barbosa de Melo, meu antigo professor na alma mater da Universidade de Coimbra.
Acresce porém que António Barbosa de Melo continuou e continua a ser meu professor. Não já das curriculares disciplinas de uma qualquer licenciatura, mas daquela que deve ser a disciplina das disciplinas num Estado de Direito Democrático, a virtude do civismo.
António Barbosa de Melo foi, com efeito, um dos meus professores de liberdade e de democracia. Da liberdade portuguesa e da democracia portuguesa conquistadas pela serena revolta daqueles que souberam opôr aos desejos de vingança e à razão da força, a grandeza da tolerância e a força da razão.
Daquela liberdade e daquela democracia que se continuarem a inspirar-se na justiça, certamente hão-de vencer os actuais cavalinhos de tróia que as ameaçam degenerar, como a corrupção, o clientelismo e a pantouflage, que têm promovido a falta de autenticidade do poder e as guerrasinhas de homensinhos, fazendo grassar o indiferentismo e as consequentes tentações cesaristas.
É por isso importante que o órgão que constitui o espelho da liberdade e da democracia, a Assembleia da República, possa ser simbolizado por alguém que, como dizia o meu saudoso mestre, Guilherme Braga da Cruz, ainda quer viver como pensa, sem pensar como vive.
Também protocolarmente, não queria deixar de invocar outro presente que só fisicamente está ausente: o Professor Doutor Adriano Moreira, que tanto estímulo deu à realização destas jornadas. Como aliás não podia deixar de ser, porque a licenciatura de relações internacionais do ISCSP é, de facto, um dos seus mais queridos filhos espirituais.
Adriano Moreira foi e continua a ser o verdadeiro inspirador desta Escola e muito particularmente da licenciatura em Relações Internacionais, dado que as respectivas lições e reflexões permanecem como elementos que vamos glosando no ensino quotidiano.
Ele foi, aliás, o introdutor em Portugal dos estudos de relações internacionais, de acordo com os padrões científicos comparados, num processo que se terá iniciado no ano lectivo de 1967-1968, quando foram pela primeira vez publicadas as respectivas lições de Política Internacional.
E já então, num período de intensa bipolaridade das relações internacionais, o autor das lições em causa ensaiava o primeiro esboço daquilo que veio a qualificar como a lei da complexidade crescente das relações internacionais.
Já então citava Teilhard de Chardin, chamando a atenção para três correntes de fundo que marcavam o espectáculo do mundo: a unificação, a tecnificação e a racionalização crescente da Terra humana.
Já então anunciava um tempo de interdependência total, de socialização do mundo, de marcha para a unidade do mundo. Daqueles sinais de convergência que, multiplicando de forma qualitativa e quantitativa as relações internacionais, eram, ao mesmo tempo, acompanhados por outros tantos sinais de divergência, nomeadamente pela proliferação de centros de decisão.
Tensão da qual só poderia sair-se, não pela lógica hegeliana, da síntese-antítese-síntese, com que se iludiam e continuam a iludir os seguidores do mestre pensador alemão, mas sim pela emergência da criação dos grandes espaços, da sociedade civil mundial e da instauração de órganismos de vocação mundialista, para o diálogo, a cooperação e a coordenação.
Já então se visionava o globalismo, de acordo com aquela interpretação espiritualista da evolução que lança para cima e para dentro na direcção de um estádio cada vez mais complexo e mais centrado.
Já então nos iluminava uma teoria sistémica espiritualista e globalista, segundo a qual, os sistemas políticos são regidos por mecanismos de auto-organização que respondem a flutuações aleatórias, havendo processos de crescente complexificação que conduzem a ordens espontâneas. Porque cada ordem é sempre posta em causa por novos desafios e por novas ordens, ainda mais complexas, que se sucedem, permanentemente.
Já então se considerava que a viagem para estádios superiores de complexidade e de consciência só poderia ser conduzida por aquela energia não mensurável pela física e pela química, por aquela energia que constrói sínteses sucessivas de seres, transformando a divergência em convergência e esta em emergência, da energia que, contráriamente à entropia, se volve em psique.
Com efeito, não foi por acaso que, dois anos antes, em 1965, se realizou neste Instituto, um colóquio internacional sobre Teilhard de Chardin, sob os auspícios do Professor Almerindo Lessa. Um colóquio marcado por certas peripécias anedóticas, dado que as autoridades de então, embora o tivessem autorizado, impuseram que o mesmo se realizasse à porta fechada.
Não foi por acaso também que a comunicação apresentada pelo Professor Adriano Moreira a esse colóquio versou Sobre o Estado Universal.
Não foi por acaso, mas sim de acordo com a lei da complexidade crescente, que tudo aconteceu numa escola então destinada ao estudo da política ultramarina, um ano depois do director da mesma escola ter abandonado a gestão do Ministério do Ultramar.
Nessa década de sessenta, esta escola estava toda ela mobilizada para pensar os interesses de Portugal, na sequência dos efeitos resultantes da Conferência de Bandung, de 1955.
Procurava, aliás, ser fiel aos fundadores, aquela geração instituidora da Sociedade de Geografia de Lisboa, que também procurou responder aos desafios da política internacional face aos objectivos portugueses, na sequência da Conferência de Berlim de 1885.
Vinte e poucos anos depois das edição das referidas lições de Política Internacional, nos começos da década de oitenta, nascia, nesta mesma escola, a licenciatura de relações internacionais. A guerra fria continuava. Portugal, encerrado o ciclo do Império, preparava-se para uma integração plena nas então Comunidades Europeias e vivia a angústia da periferia de um pequeno Estado que podia correr o risco de se transformar em Estado Exíguo.
Contudo, Portugal, retomando a sua alma atlântica, tratava então de procurar impulso na sua dimensão oceânica. O atlantismo permancente voltava a sustentar o renascido europeísmo.
Aquele mesmo europeísmo que havia levado outro antigo Ministro do Ultramar, António Ennes, a propor, em 1870, no opúsculo A Guerra e a Democracia, a criação de uns Estados Unidos da Europa.
Aquele mesmo europeísmo que levara esta escola a ser precursora de disciplinas como a de A Ideia da Europa, em meados da década de sessenta, quando Adriano Moreira também participava no movimento cultural pan-europeísta e preparava a sua dissertação A Europa em Formação, uma das poucas peregrinações doutorais portuguesas sobre o fenómeno da integração europeia.
Nos começos da década de oitenta, renasceu nesta escola a secular intuição de procura dos interesses portugueses face aos novos sinais dos tempos da política internacional.
E se se fundava uma nova licenciatura de relações internacionais, também não deixava de cultivar-se uma ciência portuguesa da estratégia.
É que então, precisávamos, sobretudo, de reagir contra o excessivo economicismo desses tempos, quando os números mágicos das contas macroeconomistas quase faziam esquecer que os problemas económicos não se resolvem senão com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas, como profetizava Emanuel Mounier.
Portugal mergulhava nos balanços do poder da balança da Europa, mas o fiel continuava a ser o Atlântico. Queríamos ser europeus, mas não queríamos o sem lugar, queríamos ser europeus, enraizadamente, ser europeus num qualquer canto de Portugal, de acordo com aquilo que Miguel Torga tão justamente qualificou como o nosso telurismo oceânico.
1994-1995, tempo destas VI Jornadas. As primeiras que, aliás, se fazem depois de ter ruído a velha ordem mundial. Depois de muitos depois. Quando, no dobrar do milénio, da nova ordem mundial, só sabemos que acabou a antiga, como costuma dizer o Professor Adriano Moreira.
1994-1995, quando já não têm sentido velhas dicotomias em que se dividiram os portugueses. O Ultramar contra a Europa. O Atlantismo contra o Europeísmo. Os apoiantes de Maastricht contra os anti-maastrichtianos.
Falsas dicotomias que, por vezes, não vislumbram que vivemos a primeira revolução global da história do homem, onde o fundamental estímulo para a identificação e a sobrevivência de cada uma das comunidades políticas já não parecem ser os tradicionais hostes no plano político, mas antes os inimigos globais de todas as comunidades humanas, da clássica sociedade do género humano, a que agora se dá o nome de aldeia global: a poluição, a falta de água, a fome, o analfabetismo, o desemprego, a peste, a guerra ...
Tempo de revolução global, onde está em crise o Estado Soberano pelo necessário desafio dos grandes espaços, mas onde não está em crise a Nação Estado, aquela polis que não é grande demais, nem pequena demais, mas suficiente na sua unidade, como diziam os clássicos gregos.
Aquela polis que ainda pode ser feita de cidadãos, onde ser cidadão significa necessariamente participar na decisão. E Portugal que já era comunidade política independente cerca de quatro séculos antes do baptismo do Estado e da própria invenção do conceito de Estado de Soberano, não pode deixar de viver essa aventura de querer continuar a ser independente no contexto da interdependência de um grande espaço consentido e participado.
Uma última palavra para os próprios estudantes de relações internacionais aqui presentes. Para esta geração de portugueses nascida depois de 1974 e que certos nostálgicos de outras gerações tende a adjectivar de forma pejorativa, confundindo a nuvem com Juno.
Falando com a consciência de pai de alguns dos membros dessa injustamente dita geração rasca, e com a responsabilidade de professor, quero dizer-vos que tenho muito orgulho nessa circunstância.
Os actuais jovens, com efeito, pouco motivo têm para emoções épicas. Porque os valores da honra e a vontade de prestígio, a tal virtude de que falava Montesquieu, enevoados que estão pela falsa ideia do maquiavélico e utilitarista sucesso, não parecem conformar este ambiente de interregno. Esta crise de fin de siècle, estes tempos de véspera, quando parecem faltar desígnios capazes de desentorpecer a enrodilhante apatia que nos envolve.
Acontece também que parecem faltar daquelas ameaças criadoras de um subsistema de medo, aquele sentido do trágico que, sitiando-nos, bem poderia mobilizar-nos para a legítima defesa.
Vivemos, pelo contrário, o moluscular indiferentismo de um sem paz nem guerra e até de um sem rei nem lei, onde nem sequer se vislumbra um qualquer gnóstico nevoeiro. E assim se vai dessangrando o civismo. E assim se vai queimando a esperança.
Direi que, para o interregno só há uma resposta. O investimento no trabalho da persistência, do grão a grão das formigas que pensam no médio e no longo prazo. O interregno exige tempo de trabalho, de meditação, de serenidade formativa. De todos aqueles objectivos para que, afinal, foram feitas as universidades. Esses lugares de silêncio construtivo, longe do burburinho dos corredores do poder ou da vozearia dos largos da feira ou da praça, onde se atafulham os negociantes, os alcoviteiros e todos esses analistas conjunturais das teias do curto prazo.
Tempo de interregno é tempo de semeadores. Dos cultivadores da ciência. Daqueles que fazem uma tentativa, racional e rigorosa, de substituir a opinião pelo conhecimento. Dos investidores nas consciências.
Cabe pois à Universidade a gestão dessa nova forma de resistência. Para que amanhã se possa nascer sempre de novo.
É a única promessa que podemos fazer aos jovens estudantes de relações internacionais. O prazer de correrem o risco para que vos impeliu a vocação. Porque quando um jovem escolheu esta licenciatura, renunciando aos cursos típicos dos pretensos homens de sucesso, preferiu não cair na tentação do estágio para o mandarinato.
Espero apenas que a universidade saiba ser digna desse desafio. Para benefício da liberdade europeia e da resistência de Portugal.
Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 02-01-1999.