TIMOR, TEMOR, AMOR

A recente passagem de João Paulo II pelas martirizadas terras daquele Timor que foi português provocou em todos aqueles que vibram com a causa maubere uma profunda onda de ansiedade. Aquela formal "visita pastoral à diocese de Dili" constituiu um autêntico desafio para o Bispo de Roma, já que a respectiva atitude tanto poderia sufragar a ocupação indonésia como dar alento a todos quantos lutam pela auto-determinação de Timor Leste.

A questão foi particularmente sentida no seio desta "nação fidelíssima", tanto pela sociedade civil como pela instituições estaduais encarregadas da política externa. E os políticos católicos, dramaticamente divididos entre a fidelidade a Roma e a fidelidade a Portugal, foram, mais uma vez confrontados com um tradicional dilema e trataram de derimir o conflito, através de uma ficção racional que, no entanto, não conseguiu disfarçar a angústia de um contraditório impulso de alma.

Aflorou , mais uma vez, um latente conflito entre a Igreja e o Estado, ou melhor, entre os interesses de duas instituições com as respectivas "razões de Estado".

Com efeito, os valores e os interesses da causa maubere estão, neste momento, em conflito imediato com os interesses do Vaticano, apesar deste, em termos mediatos, comungar dos mesmos valores. A Santa Sé não pode efectivamente esquecer que no maior Estado Islâmico do mundo, uma activa minoria católica, que até já tem Ministros, está a tentar consagrar o pluralismo procurando evitar qualquer explosão de fundamentalismo islâmico. Ora, segundo a lógica desta razão de Estado, os católicos mauberes não passam de simples gôta de água no oceano. No entanto, quanto maior for a força católica junto de Jacarta, mais viáveis são as hipóteses da manutenção da especificidade maubere.

Na verdade, o pragmatismo desta razão de Estado vaticana, se não se filia directamente no maquiavelismo, nem por isso deixa de fomentar a necessidade de alguns meios justificarem certos altos fins. Se o maquiavelismo é a mistura de força com manha, o vaticanismo nunca deixou de recorrer à manha, tendo em vista a propagação da fé, embora sem poder recorrer à força. E não há dúvida que a diplomacia da Santa Sé tem muitas vezes escrito direito por linhas tortas.

João Paulo II se nunca poderia enfrentar directamente a Indonésia, também nunca seria capaz de apoiar o genocídio praticado em Timor Leste. Mas não deixou de correr o risco, nesta peregrinação, de lançar o verbo por entre os interstícios da violência. Seria, na verdade, inimaginável que o Papa assumisse gestos de confronto com o poder dominante em Jacarta, tal como é incrível que o militante da Igreja do Silêncio pudesse pactuar com totalitarismos e holocaustos.

O antigo pastor da diocese dos campos de concentração, filho de uma pátria experimentada em ocupações, não tem que receber lições de resistência de teóricos de café, esquecidos da cobarde indignidade que foi a descolonização de Timor. Ele sabe, de experiência vivida, que os caminhos da libertação, na maior parte das vezes, não passam pelos palcos do espectáculo ou pelo exercício de sinais ostensivos de verbalismo, mesmo que executados em homílias de altar.

Os relatos jornalísticos apenas puderam captar em Dili a parte visível do "iceberg" e nunca seriam capazes de entender o alcance das sementes de esperança que o Papa da libertação lançou nas consciências.

É evidente que, numa observação superficial, ficou ferido o orgulho dos portugueses. Não apenas o do Governo ou do Presidente da República, que formalmente se têm comprometido no apoio à auto-determinação de Timor Leste, mas de todos e cada um dos portugueses, já que todas as nossas forças vivas e todos os nossos representantes políticos se têm irmanado nessa

causa, transformada, felizmente, num dos raros elementos de consenso da comunidade portuguesa.

Talvez tenhamos, entretanto, que aprender que as lutas de resistência só têm essa dimensão quando são capazes de levar as causas aparentemente perdidas até vitória, depois de muitas derrotas em inúmeras batalhas.

O que se passa em Timor tem algumas analogias com o que acontece na Irlanda do Norte ou no Líbano. E ninguém pode pedir que o Papa visite Belfast para encabeçar uma cruzada contra os unionistas do reverendo Ian Presley nem que desembarque em Beirute afrontando os exércitos sírios.

Dar a César o que é de César e ao Papa o que é da Igreja, não pode ser pedir sucessor de Pedro que se substitua aos homens no combate político. A resistência de Timor Leste que , em boa hora, os porugueses reassumiram , continua a ser uma luta de resistência que tanto tem uma vertente cultural como uma vertente política.

Os velhos manuais católicos de resistência que, na senda de S. Tomás, foram fundamentalmente aperfeiçoados pela escolástica peninsular dos jesuítas dos séculos XVI e XVII, ensinam que onde falta a força se deve refinar a manha, mas sem nunca perder-se a fé.

A efectiva força do Estado Indonésio talvez seja impossível, para já, opôr-se a necessidade de uma auto-determinação completamente política de Timor Leste. Por outras palavras, o vazio provocado pela nossa "descolonização exemplar" foi a oportunidade perdida para a constituição de um Estado-Nação maubere ou para a auto-determinação timorense no seio do Estado Português.

O que imediatamente está em causa é a não extinção de Timor Leste em termos puramente físicos. Era preciso, em primeiro lugar, que o mundo não esquecesse a existência dessa terra e dessa gente. O que poderia ser agravado se João Paulo II não incluisse Dili no seu périplo.

Em segundo lugar, importa não extinguir os timorenses que restam. O que passa, pelo menos, pelo fim de um processo de genocídio que foi efectivamente praticado. E também aqui a visita do Papa pode ter sido benéfica, embora sem disso dar sinais.

Depois, são as outras fases de uma necessariamente longa luta de resistência. Onde Portugal e os portugueses têm de continuar a estar presentes e para o que o recente sacrifício do orgulho ferido não pode ter sido em vão.

Que em Timor, o amor vença o temor!Há mais de meio milhão de homens que o exigem. . .

 

Up Arrow.gif (883 bytes)

início.bmp (3862 bytes)

Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 22-05-2003.