A Comunidade Mundial, o Projecto Lusíada e a Crise do Político
Há dois mil anos, há quinhentos anos...
1. Foi há dois mil anos... Foi há quinhentos anos... Os números símbólicos do ano dois mil e das comemorações dos quinhentos anos, marcam esta mudança de calendário, quase anunciando um mundo novo, que pode, ou não, ser um mundo melhor. Com efeito, desfeita a velha ordem mundial, estabelecida pela paz dos vencedores no fim da chamada segunda guerra mundial, continuamos, neste quase fim do milénio, à procura de uma nova ordem, da qual, como tem dito Adriano Moreira, só sabemos que acabou a antiga. É dessa procura que vou tentar falar, não de forma sistemática, através da técnica dos primeiros princípios de uma qualquer engenharia conceitual, mas ao sabor das impressões e tomando como pretexto uma imaginada viagem de quase circum-navegação, a partir de uma travessia do oceano moreno, com paragem em Dili e em Macau, e regresso marcado à praia da partida.
A necessária descoberta do caminho político para o Planeta
2. Dois mil anos depois daquilo que convencionámos ser o nascimento de Jesus Cristo, um dos pontos de partida da era euro-mediterrânica, e quinhentos anos depois da viagem de Cabral e Caminha, um dos principais impulsos da era euro-atlântica, importa proclamar que ainda não vamos entrar no novo milénio, porque nos falta descobrir o caminho político para o Planeta. Já entendemos que a Terra é só uma, em termos de ambiente, mas ainda não percebemos que há também um só mundo em termos geo-históricos e geo-humanos, um só mundo que deve ser perspectivado como a terra dos homens, como corpo político, dotado de organização política e da ideia que serve a política: a racionalidade do justo.
O número dos homens e das riquezas
3. Ainda não reparámos que em cada 100 homens há pouco mais de 10 europeus, quase 6 norte-americanos, também quase 6 da ex-URSS e menos que 9 sul-americanos, contra 22 chineses e 20 membros índicos, para pouco mais que 11 africanos, enquanto quatro quintos da riqueza mundial continua a caber a uma sétima parte da população do mundo. Ainda não assumimos que o homem, como cidadão do mundo, deve passar da aldeia global da comunicação à polis global, onde, para além da casa comum da economia e das finanças, com déspotas e donos, candidatos a senhores do mundo, porque apenas estão mobilizados pela racionalidade técnica da utilidade e da segurança, importa a comunhão do fenómeno político superior, em torno da racionalidade ética de um princípio de justiça e da união simbólica pelas coisas que se amam.
A permanência de Ptolomeu
4. Utilizando a metáfora comemorativa, dois mil anos depois, mesmo a nível mediterrânico, os seguidores de Cristo, ou do seu aparente inverso, o humanismo laico da matriz estóica e da modernidade iluminista, continuam com dificuldades de diálogo face aos seguidores de Maomé, de tal maneira que ambos ainda não conseguem navegar entre as margens daquele que foi o mar interior do mapa de Ptolomeu, esquecidos que estão dos manuais de Platão e Aristóteles, que os europeus redescobriram nos séculos XII e XIII, graças aos mesmos árabes. Quinhentos anos depois, o Atlântico, a que acedemos com a ajuda de pilotos também árabes e de cartas e técnicas de navegação trazidas do Mediterrâneo, ainda não consegue ser o oceano moreno, dado que não se empreendeu a viagem a caminho do Sul, com ligação ao Índico e passagem para o Pacífico. Que o diga a nossa história de viajantes, neste mesmo ano de 1999, em que o simbólico estabelecimento de Macau mudou de natureza jurídico-formal e que em Timor, local de passagem do Índico para o Extremo-Oriente e do Índico para o Pacífico, se venceram as Tormentas, mas ainda não se realizou a Boa Esperança.
A viagem por cumprir
5. Falta muita viagem por cumprir para atingirmos a armilar, esse cruzamento de paralelos e meridianos que nos ensina a circum-navegar e a fugir dos planisférios da abstracção. Com efeito, a globalização, como semente do universal, ainda não foi compreendida. Ainda não com-prendemos, dela, parte com parte, para chegarmos a conexões de sentido, de tal maneira que, do particular, possamos ter intuição da essência. A vertente económico-financeira da mesma globalização já descobriu que todos os habitantes do Planeta são produtores e consumidores, mas ainda não concluiu que esse não é o fim da história e que ainda não começou a viagem pela justiça na distribuição dos rendimentos. Os ricos são cada vez menos e cada vez mais ricos. Os pobres, cada vez mais e cada vez mais pobres, agravando a revolução demográfica, com os ricos a terem cada vez menos filhos e os pobres no ritmo do “crescei e multiplicai-vos”, com a doçura dos “lírios do campo”. E não basta a hipocrisia da segurança e daquela ordem pela ordem que permite manter a Europa com dois terços de gente a viver cada vez melhor, graças à existência de quase um terço de socialmente excluídos, onde os maioritários, da nova classe média, votam sempre, muito mediocraticamente, nos mesmos partidos do centrão gestionário e situacionista, numa estabilidade garantida pela circunstância de, no resto do mundo, a maioria ser de excluídos. Política é segurança e bem-estar, mas não é apenas segurança e bem-estar, exigindo a superação dessa racionalidade técnica do mercado, pela ascensão à justiça da racionalidade ética, que constitui a estrela do norte do campo político.
Globalização, depois da economia...
6. Talvez os economistas ainda não tenham percebido que os problemas económicos, apesar de apenas se resolverem com medidas económicas, como ensina o FMI, não se resolvem apenas com medidas económicas, como ensina o bom senso. Porque se a economia (de oikos, casa em grego, de domus, casa em latim) é ponto de partida para a política, e não o contrário, também a globalização económica tem de ser entendida numa perspectiva armilar, como desafio que apenas pode ser vencido, quando se der regulação política àquilo que hoje já é um planeta unidimensional, em termos de comunicação e de sociedade da informação. No tocante ao Planeta, se já estamos na casa, falta sairmos desse doméstico e atingirmos a esfera pública, o político, onde tem de inventar-se algo que seja superior ao dono e nos dê a racionalidade do justo.
Da esperança, à esfera
7. Continuam, de facto, muitas viagens por cumprir. E para portugueses que ainda têm, como spera, de esperança, o símbolo da sphera, da armilar, eis que, nestes finais de 1999, à beira do começo da comemoração dos quinhentos anos da descoberta oficial do Brasil por Cabral e Caminha, aconteceu o 20 de Dezembro, com a entrega de Macau à República Popular da China, pouco depois do fim da invasão e da ocupação indonésias de Timor e com o início do processo de autodeterminação desse povo que pretende assumir a identidade Lorosae, sob a égide dessa tímida paz pelo direito chamada ONU. Por outras palavras, neste último ano da série cronológica do mil novecentos, o proclamado fim do ciclo do império português, não significa o fim da esperança nem da esfera, dado que ainda há novos mundos que devemos dar ao mundo. E não é por acaso que, depois disso, assumimos no primeiro semestre do ano dois mil, a presidência da União Europeia, onde só seremos dignos de Portugal se ultrapassarmos a tecnocrática pilotagem automática e assumirmos o sentido cibernético, ou governético, da nau política como pilotagem do futuro.
Seattle e os sinais dos tempos
8. Sinais dos tempos bem profícuos, aparentemente confundidos pela reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, com os representantes dos Estados fechados num edifício, com eventuais paredes de vidro sem glasnot, enquanto em manifestações de rua, representantes de organizações ditas não governamentais, mobilizados pela Internet, clamam que também há uma sociedade civil mundial com direito à reivindicação e à indignação, mas ainda sem esperança de perestroika.
A crise do Estado
9. E assim vai o político neste virar mítico do calendário. Onde, glosando Daniel Bell, podemos dizer que os Estados a que chegámos, (Stato vem mesmo do verbo stare) são, ao mesmo tempo, pequenos demais e grandes demais. Pequenos demais para os grandes problemas da vida, marcados pelo global; grandes demais para os pequenos problemas da vida, marcados pelo local.
Do Estado, do político, da nação
10. Mas crise do Estado pode não ser crise do político, se entendermos que o político também existe antes dos Estados, que está ao lado dos Estados e acima dos próprios Estados. Crise do Estado pode não ser crise do político se formos capazes de teorizar um político supra-estadual e um direito verdadeiramente universal. Se percebermos que esse supra-estadual não se confunde necessariamente com as chamadas organizações internacionais cujos sócios apenas podem ser os Estados. Se entendermos que o necessário direito universal não é exactamente a mesma coisa que o actual direito internacional público. Se até ousarmos dizer que crise do Estado não é o mesmo que crise da Nação, caso a entendamos, à maneira de Fernando Pessoa, como caminho para uma super-nação futura, como passo de libertação, como ponto de passagem para uma civilização superior.
Entender a revolução global
11. Vivemos um tempo de revolução global, aliás, a primeira revolução global da história da humanidade. Onde o global não é necessariamente a restrita globalização económica e financeira proclamada por certo pensamento único de um pretenso neo-liberalismo, realmente pouco ético, marcado pelo hobbesiano do individualismo possessivo, mas um sentimento de planeta unidimensional, provocado pela existência de ameaças globais que roubaram aos campos da profecia e da poesia os sonhos da sociedade do género humano, essa civitas maxima, onde todos podemos ser cidadãos do mundo. A ameaça já não vem apenas de outras entidades políticas diferentes da nossa, de um inimicus, vizinho ou idêntico, mas daquelas ameaças que ameaçam realmente todos os homens: do risco tecnológico maior, à fome; da doença provocada por virus que não conhecem fronteiras, às questões da segurança; dos problemas do ambiente, à ultrapassagem das tolices de um conceito de desenvolvimento quantitativo que esqueceu a entropia, gerando uma sociedade de desperdício, cheia de lixeiras físicas e morais, hipocritamente dita sociedade da abundância, mas que apenas se mantém pela criação das necessidades artificiais do consumismo, pelo que nas mesmas se morre pelo excesso de comida, enquanto no resto do mundo se passa fome.
Das organizações internacionais à integração internacional
12. Para além das organizações internacionais, marcadas pelo inter-estadual dos Estados a que chegámos, com a consequente tentação da Realpolitik dos Talleyrand e dos Kissinger, há também sinais e sementes de integração internacional, com a criação de novos pólos de poder supra-estaduais, de novos centros, de novas acrópoles, de novos espaços supra-domésticos, polidos e civilizados, para onde os indivíduos podem transferir expectativas e lealdades, gerando uma rede de pluralidade de pertenças, uma constelação de massas de actividade, que só uma perspectiva pluralista do político pode contemplar e que só o princípio da subsidiariedade pode abercar.
A memória do lobo do homem
13. Os velhos Estados, nascidos do primitivismo da modernidade ocidental, ainda submetidos aos reflexos condicionados dos hábitos de obediência, aos medos do Leviathan de Hobbes e aos complexos do pessimismo antropológico de Nicolau Maquiavel, talvez sejam filhos daquela visão agostiniana e luterana que considera a política como um castigo divino, por causa do pecado original, partindo do preconceito que há sempre uns que subjugam e outros que se submetem pelo medo da violência, proclamando que o imperante, e a não a verdade, é que faz a obediência. Esses mesmos que perspectivaram o homem lobo do homem e que continuam a reduzir o político ao verticalismo da pirâmide ou da elite no poder. Até porque o chamado maquiavelismo, iludido por parecer ter razão a curto prazo, além de uma não-moral é também uma péssima política, porque deixa de ter razão no médio e no longo prazos.
A procura do Estado-Razão
14. Mas talvez outras perspectivas possam ser reabertas neste final de milénio. A velha polis grega do discurso de Péricles, os medievais concelhos do regresso da política, as observações de Pero Vaz de Caminha sobre o estado de natureza do bom selvagem, que tanto influenciaram Rousseau, ou a leitura kantiana da política, com um Estado-Razão onde não tem que ser majestática a Razão de Estado. E se a perspectiva hobbesiana começa a ser repudiada pelos seus parentes grocianos, julgamos que importa ir além do mero tratado, do útil pacta sunt servanda, e assumirmos o sonho kantiano, essa terceira via estratégica que vai mais além, a caminho do justo, porque dá ao mundo aquele cosmos da raiz do político, a autonomia da participação cidadânica, onde a urbs nos pode dar o orbs. Anthropos physei politikon zoon ...
O poder não vem do diabo nem do pecado
15. Onde o poder não vem do diabo nem do pecado. Onde o poder é do povo. Onde o Estado não está inscrito na Bíblia entre as coisas que Deus fez, como recorda Adriano Moreira. Onde o poder vem do consentimento de cada um ao todo. Porque o todo apenas é feito de cidadãos que decidem. E onde até o governante não é um soberano que diga que o Estado é Ele, dado não passar de um representante, do que está presente em lugar daquele outro que é cada um de nós. Onde o governante é ministro, minister, servus ministerialis, escravo da função, funcionário, um minus ou minor, que, mesmo dentro da sua missão, tem de obedecer ao magis, ao maior, do magistrado, do magister, desse que, sendo auctor, tem autoridade, e não apenas potestas. Esse complexo exercício da razão inteira que faz acrescer, à racionalidade técnica do bonum utile, a racionalidade ética do bonum honestum, simbolizado no princípio da justiça e, em torno do qual, vamos discutindo ideologias e programas, partidarizando-nos, para, da parte, não partirmos o todo, mas competirmos, em jogos de soma variável, ex pluribus unum, fazendo da vontade de todos uma vontade geral, onde não se decide em nome do interesse privado de cada um, do omnes ut singuli de Suárez, mas antes educados e mobilizados pelo interesse geral do bem comum, do omnes ut universi que constitui o mesmo que o imperativo categórico de Kant, onde cada um decide como se ele próprio fosse o todo, de tal maneira que, da sua conduta decisória, pode extrair-se uma máxima universal.
A procura da república maior
16. Basta enquadrarmos o político à maneira de João Pinto Ribeiro, como a procura de uma república maior, a caminho de outras repúblicas maiores, sem o exclusivismo soberanista e o geometrismo estadualista, piramidal e centralista, como foi timbre dos absolutismos e dos jacobinismos. Desses que julgam poder aprisionar o político num qualquer fim da história, providencialista ou revolucionário, esquecendo que não são os fabricantes de ideologias que fazem o processo histórico. Que não é o processo histórico que faz o homem, mas que é o homem que faz história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Porque a tal história é o produto da liberdade, o produto, não das intenções de certos homens, mas da acção de todos os homens. Talvez só esta compreensão do político possa corresponder à realidade do eu individual e das suas circunstâncias, dado que cada indivíduo, como verdadeiro centro do mundo, como ser que nunca se repete, dá vida a uma pluralidade de pertenças, a uma pluralidade de grupos, a uma rede de poderes, onde, por articulações horizontais e verticais, se estabelecem as instituições, os valores e as essências. Essências que só se realizam quando se enraízam nas existências, objectividades sociais que só estão vivas quando se radicam no húmus das subjectividades; ideias de obra ou de instituição que apenas se tornam permanecentes quando são objecto das adesões individuais, das comunhões de pessoas, das regras vivificadas, das formas de poder intitucionalizadas.
A institucionalização do poder
17. Porque foi o homem que inventou o político. Porque foi o homem que cultivou, sobre o naturalístico da sua realidade animal e da respectiva lógica de rebanho, os laços artificiais e culturais da rede política. Porque o homem, por exigência da sua procura da perfeição, da boa sociedade e do melhor regime, é um animal da polis. Para deixar de ter um dono. Para sair do espaço privado da casa e da família, onde manda o déspota, o pai tirano do patriarcalismo e do paternalismo, e atingir o esforço racional do espaço público, da procura da comunidade perfeita, em torno da acrópole, onde o simbólico da comunidade das coisas que se amam está ao lado de uma chefia, de um principado, de uma governação, marcada pela institucionalização do poder. Onde tentamos deixar de obedecer a outro homem e passamos, todos, os que governam e os que são governados, a obedecer à abstracção do bem comum, síntese da liberdade e da governabilidade, da ordem e da justiça.
A anti-razão ao serviço da razão
19. O político existe para que cada um possa obedecer a uma abstracção e deixe de obedecer a outro homem. Para cada um ter como norte uma norma, uma regra, em vez do chicote da violência. Para que a força se volva num retorno da violência sobre si mesma, numa simples anti-razão posta ao serviço da razão. Para que a força se sublime em coacção legítima e que esta seja instrumento da liberdade. Para que o Estado não passe de monopólio legítimo da violência legítima. Porque o homem é um animal de regras, porque só ele tem regras e porque só ele pode não acatar as mesmas regras. Só assim podemos obedecer ao todo, obedecendo a nós mesmos.
Da persuasão ao normativo
20. Daí o processo político. Onde domina a normalidade da persuasão, antes do autoritarismo, antes da propaganda, antes da violência. Aliás, o homem é um animal político porque é um animal comunicacional, o único animal que fala, que comunica pela palavra e pelo discurso (logos), a primordial etimologia de razão. Onde o poder, esse dever ser que pode não ser, só atinge o nível da essência quando se existencializa pelo consentimento racional dos cidadãos, enquanto participantes na decisão. De um consentimento racional-normativo (simbolizado no Estado e firmado pelo animal de vontade de de inteligência), e de um consentimento racional-axiológico (firmado pelo animal simbólico, em torno da comunidade das coisas que se amam). De um Estado que não é apenas contrato e sociedade, mas também instituição e comunidade, onde o edifício abstracto tem de ser fecundado pela emoção da cultura e da história imaginada. Porque a razão raissonnante, do razoar, do razoado e do simples razoável calculista, inimiga da paixão, do sentimento, da emoção, da atracção pelo diferente, tem de ser compensada pelo simbólico, pela imaginação, de modo que o uno admita o diverso e pelo particularismo se atinja o universal.
O Estado de Direito
21. Daí o político como normativo, como sítio onde o poder tende a fundamentar-se no direito e a ter como limite o próprio direito. Logo, a tentativa de transformação do Estado primitivo, maquiavélico, hobbesiano, inquisitorial, pombalista ou salazarista, numa exigência de Estado-Razão, a que hoje damos o nome de Estado de Direito. Normativo-axiológico e axiológico-normativo. Onde a racionalidade dos fins é compensada pela racionalidade dos valores; onde a ética da responsabilidade dialoga com a ética da convicção; para que a razão de Estado não exclua o Estado-razão, para que a governabilidade não exclua a participação; e o poder não seja inimigo da liberdade. Assim, a política como mistura de contrários, só passível de uma arte de tecelão, misturando convergências e divergências, pela persuasão e não pela tirania. O pretenso pastor governante já não é deus, descendente, ou parente, dos deuses, nem paterfamilias, é homem, demasiado humano, esse que erra, duvida e se engana, tão carneiro como os restantes carneiros do rebanho povo, conforme a parábola de Platão.
Os sucedâneos de Deus, do Rei e da Família
22. Um Estado de Direito que deve perder uma a uma todas as cordas que o prendem ao paternalismo e ao absolutismo, dado que nele o Estado deixa de ser um l´Etat c’est moi e passa a ser um nous, um nós que é diferente da mera soma dos eus. Essa intenção regulativa, que, nos dias de hoje, exige, sobretudo, a luta contra a corrupção e o indiferentismo, bem como a superação dos corporativismos, feudalizantes e fragmentários, e desse cúmulo de todos os corporativismos que é a sociedade de corte. Porque se, com a modernidade, a religião secular da política excluiu Deus, o Rei e a própria Família do âmbito do espaço público, continuamos enredados em sucedâneos dos mesmos. Seja o monoteísmo do Estado, a personalização do poder ou o nepotismo dos jobs for the boys, principalmente quando, em sociedades fechadas, mas com o enganador discurso politically correct de sociedades abertas, permanece o círculo social da pequena corte e do espírito de acesso ao poder. Com vários rostos, muitas faltas de fé e certa tendência para o torcer, com medo do quebrar, numa prática contrária ao discurso de autenticidade do nosso Sá de Miranda.
A sociedade da corte
23. Essa sociedade da corte que permanece nos actuais regimes democráticos dominados pela partidocracia e pelo Estado Espectáculo, onde a trahison des clercs passa, sobretudo, pela cedência aos bobos da Corte de certa mediatização, onde o que parece não é. Ora o maquiavelismo apenas tem razão a curto prazo, porque quem, sendo insolentemente autêntico, fingir ser aquilo que na verdade é, vivendo mesmo como pensa, sem pensar como vai vivendo, virá à tona de água, quando passar a turvação, mostrando que o que é também pode parecer, pelo menos junto dos que pensam de forma racional e justa e praticam a universitas scientiarum.
A autonomia das ordens complexas
24. De qualquer maneira, o político estadual, intra-estadual e supra-estadual é uma ordem complexa, sempre inacabada, porque a procura da perfeição não seria humana se, na terra dos homens, houvesse o céu dos anjos ou o inferno das bestialidades. Uma ordem plena de divergências e de convergências, de luta de contrários, onde, na emergência superadora, os contrários sempre permanecem contrários, em sucessivos estádios, cada vez mais complexos. Onde novas divergências e novas convergências, levam ao desafio de novas emergências, de novas autonomias, de novos estádios de complexidade crescente, de novas ordens cada vez mais espontâneas, de sucessivas sociedades abertas ao ambiente, feitas grande sociedade com regras da conduta justa, onde a ordem é produto da acção dos homens livres e não da intenção das vanguardas, dos planeadores ou dos ideólogos, ditos mestres -pensadores. Da casa à aldeia, da aldeia à polis, da polis à república, com sucessivas procuras de repúblicas maiores, que só terminam no tal infinito da procura do perfeito, da boa sociedade ou do melhor regime possível. Nesse normativo da sempre procurada república universal, dado que o proposto governo mundial só acontecerá quando os homens deixarem de ser homens e passarem ao estádio inferior da lógica do rebanho ou ao estádio metafísico do angélico. Fiquemo-nos no sublime intervalo da vida humana, daquele ser que vai pecando e arrependendo-se; que, depois de cair se levanta, procurando caminhar direito, para cima e para dentro. Porque, por dentro de si mesmo é que as coisas realmente são, na imanência que é transcendência, na física que é ultrafísica, no aquém que é mais além.
Reflexões, aforismos e paradoxos
25. Tomo como guia a recente publicação em Brasília de um inédito de um mestre destas viagens sem fim, que me foi oferecida pelo embaixador Francisco Knopfli. Com efeito, o editor Victor Alegria deu à estampa um caderno inédito de Agostinho da Silva, numa belíssima edição, que inclui a reprodução do manuscrito: Reflexões, Aforismos e Paradoxos, Brasília, Thesaurus, 1999, com apresentação de Constança Marcondes Cesar. Impossível fazermos recensão formal destes escritos intemporais do Mestre, obrados em Lisboa, talvez em meados da década de oitenta, e agora editados em Brasília. Porque boa leitura é aquela que leia o que não há entre página e página da mesma folha (fragmento nº 138). Porque a matéria não deve andar antes do mestre (nº 231). Porque é possível que a imaginação espiritualize o poder.
Imanência que é transcendência
26. Há que ingressar, de vez em quando, no tempo que vamos esquecendo. Que regressar a esse poiso que nos sustenta. Na tal imanência que é transcendência, no devagar regresso ao profundo silêncio da leitura daquelas obras que não têm princípio nem fim. E estes escritos de um português execedente de Portugal só podiam ser primacialmente editados no Brasil onde se sente Portugal à solta.
Viajar devagar
27. E li, de um sôfrego, tais linhas, longas demais para tão curto tempo, quando apetecia que a viagem destes quinhentos anos fosse devagar. Passo a passo, absorvendo as milhas, absorvendo as letras, sentindo o deslizar dos dias e das sílabas, a mudança da mente, a mudança do corpo, nessa eterna adaptação à alma do lugar. Infelizmente, recensão é corrida, desprezando o espaço, sem lugar para a procura do mais além, aqui.
Agostinho da Silva e o imaginar
28. Agostinho, nascido em 1906, no Porto, terá morrido em Lisboa em 1994. A três de Abril, dia da Ressurreição. Por isso ressuscita sempre que, por dentro das suas palavras, ousamos renascer, ao integrá-las no movimento da vida, numa corrente de pensamento que nos faz estar antes e depois da nossa própria vida. E desta escola da Junqueira que o acolheu depois do exílio, ouso proclamar-me seu discípulo. Não apenas da pessoa, mas da tal corrente antiquíssima, intemporal, eterna, a que ambos aderimos, que ambos ousamos servir, porque é antes e depois de nós. Neste sentido, segue a presente recensão. Tão anti-recensão quanto esses escritos, originariamente sem título, me provocam. Da criação, vem o fenómeno. Da criatividade, o imprevisto. Pelo que importa descobrir. Porque o pensamento não só relaciona, mas cria (218). E todo o concreto vem de imaginar (230). E as obras primas são sempre capelas imperfeitas para os que vêm depois de nós continuarem a criação, confirmando o sublime de descobrirmos o que já está descoberto e de inventarmos o que já foi inventado, dando continuidade à angústia, à preocupação, à dúvida.
Navegar é preciso
29. Bem precisamos, portugueses e brasileiros, de diálogos transversais que entendam esta nossa pluralidade de pertenças. E os pensamentos agora publicados são, de facto, novo hino à heterodoxia luso-brasileira, lusitana, lusófona, quase ibérica. Desse mais além de que Portugal foi simples agente, sem saber quem foi o verdadeiro autor do impulso que nos levou de partida, sem regresso (304). Porque também navegámos nas ondas de um mar interior que nos deu ensimesmamento e porque, para continuarmos a navegar, nesse navegar é preciso, temos de nos converter ao signo maior de um tempo que tem de ser. Esse comunitário amor universal que é diluir-nos em todos os outros.
Sentido de viagem
30. Porque, quando a viagem nos faz peregrinos, eis que podemos ser romeiros de um sentido que transforma cada um dos nossos passos em missão. E todos os que são bafejados pela força desse sentido nunca terão um sítio que os limite. Em todo o mundo poderá haver a nossa terra. Viajemos, pois, com o sentido da viagem, sem a mácula daquele que tudo pensa poder captar porque apenas viaja para fazer suas preconceituosas sensações, já registadas por outros. Sem que lhe apeteça ser Pero Vaz de Caminha. Porque não se sente parcela da mudança, dessa tal viagem onde apetece cumprir livremente nosso destino. Quando importa sermos sempre os mesmos em qualquer lugar, mas convertendo-nos ao espírito da mudança. Porque, se formos desenraizados pelo preconceito da abstração, apenas conseguiremos ver aquilo que é a confirmação das nossas próprias previsões.
A história do futuro
31. E tudo isto a propósito do último texto de Agostinho. Onde se diz da busca do Perfeito (3), do chamar Deus ao pensamento (4), de, contra ortodoxias e heterodoxias, proclamar o paradoxo (5), criticando o presente e projectando o futuro. Porque toda a história que vale é do futuro (9). Aliás, o permanente é arquitectar o futuro e nele ir transformando o presente (300). Porque, crendo com todo o nosso ser, atingiremos o máximo da dúvida. Porque se não há liberdade no homem toda a profecia é inútil (195).
Paradoxo
32. Eis o começo de uma viagem interior, que a direita dirá de esquerda subversiva, que a esquerda dirá de direita conservadora (308). Onde o panteísmo é amor daquilo a que outros chamam Deus. Onde o dito anarquismo é verdadeiro regresso da política, da procura da ordem que deve ser contra a desordem instalada. Onde até Portugal é o universo, porque, no ínfimo da semente, pode estar o sinal do largo horizonte. Porque no átomo, no microcosmos tem de mimetizar-se o cosmos, se o cosmos for um macro-antropos, se o homem for um micro-cosmos. Porque vale a pena sonhar que um dia nada será de ninguém (30). Nesse mais além onde deixará de haver governo exterior, quando nos governarmos a nós mesmos (31).Quando dissermos que não há liberdade minha se os outros a não tiverem (50). Até porque seremos mais nós, quando a loucura nos inspirar e a razão nos exprimir (47).
Justiça e paz
32. Para tanto, há que perspectivar a política ao contrário, não a virando de cabeça para os pés, mas pondo-a, novamente, com a cabeça por cima dos pés, sem rebaixarmos os fins. O que sucederá quando ela deixar de ser a arte de obter a paz por meio da injustiça (62). Quando a justiça der paz, quando a paz nos der justiça. O que não basta.
Utopia anti-utopia
33. Porque, depois de chegarmos à Índia que vem nos mapas, temos de querer ir além da Tapobrana, em busca da Índia que não vem nos mapas, para podermos ser premiados com a Ilha dos Amores (133), a utopia portuguesa que é uma anti-utopia, porque tem lugar, tem aqui e tem agora. Esse depois da viagem de comércio e de guerra, quando há o repouso de um momento sem tempo e de um lugar sem espaço (327). Onde posso mudar se me penso mudado (335). Esse império sem império que vem depois das políticas apenas cartografáveis e geometrizáveis, dessas que exigem fronteiras, outros, ameaças, inimigos, momentos excepcionais que nos soberanizem e desumanizem.
Ter e ser
34. Anarquista? Sim, mas sem inveja. Porque além da classe dos que têm e da que se lhe opõe (isto é, os que querem ter, e não necessariamente os que não têm), há uma terceira: a dos que podem ter e não querem ter (141). Porque cada indivíduo tem de governar-se a si próprio, sendo sempre o melhor que é; porque tudo tem de ser de todos (324). Contra o capitalismo, economia comunitarista. Contra o cesarismo, democracia directa. Contra o inquisitorialismo, educação pela experiência da liberdade criativa, sociedade de cooperação e respeito pelo diferente, metafísica que não discrimine quaisquer outras, mesmo que pareçam antimetafísicas.
Procura da ciência
35. Uma análise do poder que finge não ser análise do poder. Porque a política é louca quando parece certa, enquanto a teologia está certa quando parece louca (159). Uma fidelidade à verdadeira ciência que finge parecer não científica, quando reconhece que a ciência apenas cresce quando regada de ironia, coragem e paixão (179).
Instituições e movimentos
36. Homem destes não poderia criar instituições. Apenas movimentos. Corrimão ou muletas que ajudem os outros a caminhar. E esse homem foi, muito simbolicamente, o primeiro responsável pelo Centro de Estudos Luso-Brasileiros desta escola da Junqueira. Num acaso que tem de ser convertido numa necessidade.
Universalismo português
37. Depois, Agostinho sonha Portugal. Que trouxe o de fora à Europa e que agora tem de levar para fora a Europa (63). Um Portugal, como planta destinada a povoar a terra que ousou ser tudo, para não ficar em simples nada (266). Um Portugal que, depois do ciclo do Império terrestre, não pode ser simples sobrevivente (269), preso apenas às brumas da memória, minguado no presente e sem saudades de futuro. Quando tem de continuar a lançar sementes que germinem pelo mundo (301).
O mestre e o discípulo
38. Porque é dever do mestre fazer com que seu discípulo seja o que é; para o transformar nele mesmo, só tem que deixá-lo ir sendo, consigo e todos e tudo aprendendo o que é; e, a cada experiência com ele o mestre reflicta. Eis-me, portanto, parcela desta viagem, por acaso parte de uma viagem que apetece, deste cumprir livremente a missão e o destino que nos são propostas.
Brasil
39. O novo livro de Agostinho, saído na véspera dos Quinhentos Anos, talvez nos obrigue a uma redescoberta do Brasil, para que uns e outros nos não esqueçamos da semente original donde brotámos. Porque nós, portugueses, e nós, brasileiros, somos como aquelas ondas concêntricas, de pedras lançadas a um lago pelo mesmo impulso inicial. Nós, e nós, não somos, entre nós, um qualquer outro. Porque cada um de nós se foi expandindo conforme as circunstâncias que nos desafiaram e nos diferenciaram, mas sem perdermos o signo da identidade originária. O círculo brasileiro, alargado a cerca de quinhentos povos, autóctenes ou emigrantes, marcou a América não integrada pelas gentes de Carlos V. O círculo português, euro-africano, euro-índico e euro-oriental, gerou novos espaços, muito articularmente, depois de 1825.
Divergências e convergências
40. Urge, agora, estabelecer novas pontes entre esses universos, cada qual com os seus espaços de autonomia, cada qual com as suas divergências e convergências, onde uma visão estratégica deve entender os vulneráveis sinais de distanciamento como potencializáveis sinais de crescimento, no sentido da emergência face ao infinito da esfera armilar. Porque o nosso sentido do universal não pode ser amedrontado pelo provincianismo localista dos que temem o processo da globalização.
A língua portuguesa
41. A âncora da língua, essas algemas que nos libertam, talvez constitua o principal dos elos desse processo de criação política de uma civilização superior. Aliás, quanto maiores forem o policentrismo e a pluralização no processo de constituição da comunidade lusíada, maior será o englobar universalizante e a consequente adequação à globalização. Por outras palavras, quanto mais o círculo brasileiro dialogar com África, com o Índico e com o Oriente da lusofonia, mais terá de dialogar com a vertente europeia dos que em português vão comunicando. Porque, assente nesta base, Portugal poderá ser cada vez mais europeu, e o Brasil cada vez mais americano. Tal como Cabo Verde, Guiné, Angola e Moçambique deverão acirrar a pertença africana e Timor agilizar-se como zona de passagem do Índico para o Pacífico. O segredo da comunidade lusíada, entendida como pluralidade de pertenças, está no facto da respectiva identidade não dever temer a integração de cada uma das respectivas parcelas noutros círculos concêntricos de novas pertenças.
Conflito de patriotismos
42. Há, no entanto, nuvens de crise neste processo. Um dos permanecentes sinais está na circunstância de alguns continuarem a ver o patriotismo de cada um das parcelas da comunidade lusíada como oposto ao patriotismo de outras. No caso das histórias do Brasil e dos outros candidatos a novos Brasis, por exemplo, muitos continuam a confundir o patriotismo português com os interesses de certos portugueses que estiveram, ou estão, instalados ou ligados ao contra-Ipiranga. Como se não tivessem sido bem portugueses os mamelucos e os bandeirantes, esses primeiros semeadores do expansionismo brasileiro para além do risco estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas. E até parecemos esquecer que as próprias populações negras do Brasil foram um dos mais importantes veículos da unidade nessas terras americanas, contribuindo decisivamente para a conservação e difusão da língua portuguesa. Talvez importe recordar que verdadeiramente patriótica, para portugueses e brasileiros, foi a a luta contra os holandeses, depois de 1640, onde foi simbólico o episódio da reconquista de Luanda pelo luso-brasileiro Salvador Correia de Sá. Essa primeira das operações de ingerência humanitária, mas cujo reverso também significou a intensificação do tráfico de escravos. Como também esquecemos que São João Baptista de Ajudá teve como núcleo central o estabelecimento de baianos no Golfo da Guiné.
Ondas concêntricas
43. Quando um português viaja no presente e no passado do Brasil como que está viajando por dentro de si mesmo, dado que o pólo brasileiro ainda constitui sítio de transferência dos nossos sonhos, das nossas expectativas e até de algumas das nossas lealdades. Porque no Brasil, a diferença face às raízes portuguesas apenas significa o tal círculo maior da mesma onda de criatividade e de imaginação. O Brasil de hoje difere daquilo que é o Portugal de hoje porque abarca outras gentes e outras terras, mas sem deixar de ser onda concêntrica nascida do mesmo impulso genético. O que devia levar a fundamentais consequências estratégicas quanto ao modelo de CPLP, onde o Brasil tem de assumir a respectiva liderança natural, principalmente no tocante a uma responsabilidade internacional relativamente à língua. Porque as unidades integrantes da CPLP, que já são uns Estados Unidos da Saudade, segundo a clássica expressão de António Ferro, não podendo voltar a ser um Reino Unido, têm de procurar uma institucionalização adequada à globalização.
A Revolução Atlântica