Politeia


 

 

platorafael

 

•Platão faz uma classificação das formas de governo, onde se estabelece uma escala que vai da polis melhor à tirania. Primeiro, está a cidade do céu, o governo dos homens mais sábios e mais parecidos com os deuses e que até não está dependente da opinião popular.

•Segue-se a timarquia ou timocracia, o governo dos nobres, os que procuram a honra e a fama, onde o início da degenerescência acontece quando os nobres se dividem num conflito entre a virtude e o dinheiro.

•No terceiro degrau desta escala descendente, está a oligarquia, o governo das famílias ricas, onde há uma potencial guerra civil com os pobres.

•No penúltimo degrau, anterior à tirania, está a democracia, o regime da liberdade, entendida como ausência de leis, onde se dá a vitória dos povos.

•Em qualquer dos casos, a degenerescência é marcada tanto pela circunstância da destruição da forma de governo provir dos próprios governantes, onde os interesses económicos são a principal causa da desunião.

•É dentro da polis melhor, da kallipolis, que Platão faz a célebre tripartição em três classes. Na classe superior, com funções deliberativas, estão os guardiões perfeitos, detentores da sabedoria (sophia) ou razão, equivalente ao ouro.

•Na classe intermédia, onde domina a virtude da coragem (andreia), o elemento emocional, estão os guardiões auxiliares, equivalendo à prata.

•Na classe inferior, onde domina a temperança (sophrosyne), o elemento do desejo e da concupiscência, estão os agricultores e os artesãos, a parte negociante, com a função de obedecer, equivalendo ao ferro e ao bronze.

•Quando directamente procura responder às formas de governo ou aos tipos de regime, Platão enumera cinco constituições, correspondentes a cinco almas, porque é forçoso que haja tantas espécies de caracteres de homens como de formas de governo.

•Em primeiro lugar a kallipolis (é o governo dos homens mais sábios e mais parecidos com os deuses; é o mundo sem tempo das formas e das Ideias, a cidade do céu, onde se faz uma descrição idealizada a partir das antigas constituições de Creta e de Esparta; uma polis que não tem necessidade de leis, nem está dependente da opinião popular).

•Em segundo lugar a timarquia (é o governo dos nobres que buscam a honra e a fama, onde os mesmos já estão divididos, ao contrário do que acontecia no estado anterior; a desunião é produzida pela ambição; o conflito é entre a virtude e o dinheiro)

•Em terceiro lugar, a oligarquia (é o governo das famílias ricas, sempre em risco de guerra civil com os pobres; a cidade enferma em luta consigo mesmo; é uma forma de governo, onde o censo decide sobre a condição de cada cidadão; onde os ricos, por consequência, exercem o poder sem que os pobres nele participem);

•Em quarto lugar, a democracia (é o regime da liberdade ou da ausência de leis; nasce a democracia... quando os pobres vencem, matando uns ... banindo outros, e compartilhando com os restantes dos direitos de cidadania e dos cargos públicos em termos de igualdade).

•Finalmente, em quinto lugar, a tirania (é o governo da violência e da coerção.

 •A cada uma destas formas corresponderia, aliás, um certo tipo de homem. Porque todas elas ocorrem dentro de cada um de nós, a partir da tensão entre a parte da alma que é dotada de razão e a outra a parte animal e selvagem. Porque existe em cada um de nós uma espécie de desejos terrível, selvagem e sem leis, mesmo nos poucos de entre nós que parecem comedidos.

•Logo, há que fazer coincidir cada regime com o tipo de homem, porque o homem tirânico é feito à semelhança da polis tirânica, o democrático da democracia e os restantes do mesmo modo. Só pode, portanto, avaliar-se um regime como se avalia um homem, isto é, em pensamento. E só deve avaliá-los quem, em pensamento, for capaz de penetrar no carácter de um homem e ver claro nele.

•Haveria assim três espécies de homens, o filósofo, o ambicioso, o interesseiro, movidos, respectivamente, pelo saber, pelo prazer das honrarias e pelo lucro. E dessa fricção é que surgiria a dinâmica dos regimes.

•Segundo vários autores, nota-se, nesta classificação, um certo fascínio pelo regime de Esparta, especialmente na crítica à democracia ateniense, a mesma que condenara Sócrates à morte.

•Julgamos que, mais do que a crítica à democracia, o que Platão faz é uma crítica à classe política que a dominava, marcada pelo facciosismo. Uma classe política onde primava a ignorância e a incompetência e que vivia da adulação das massas.

•Porque os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados a uma liberdade completa e altiva, embatendo sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saiam do caminho. Sobretudo, a falta de respeito pelas leis acabam por não se importar nada com as leis escritas ou não escritas, como sabes, a fim de que de modo algum tenham quem seja senhor deles.

•O perigo deste modelo está na circunstância de, na democracia, nascer a tirania. Porque é do cúmulo da liberdade que surge a mais completa e mais selvagem das escravaturas. Porque o excesso costuma ser correspondido por uma mudança radical, no sentido oposto, quer nas estações, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nas cidades.

•Assim, na degenerescência democrática, cada um deixa de cumprir a sua função: louvam e honram em particular e em público os governantes que parecem governados, e os governados que parecem governantes.

•Do mesmo modo, surge o professor que teme os discípulos e o velho que quer parecer novo: o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em acções; ao passo que os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários.

•O antídoto proposto por Platão é o esforço filosófico, estético e poético. E  lá temos o aristocrata a antepor-se à ignorância e à incompetência dos políticos. Para evitar o aparecimento do protector que se transforma em tirano. Para evitar que o povo, ao tentar escapar ao fumo da escravatura de homens livres, não caia no fogo do domínio dos escravos,  da escravatura de escravos, que é a tirania.


 

 

Última revisão:15-02-2009