Sobre  os Trabalhos dos Reis

 


 

Lourenço de Cáceres, numa perspectiva mais marcada por aquilo que será o absolutismo, quando fala na autolimitação do poder pelos reis, insere-se no pessimismo antropológico próximo de Maquiavel, onde não é por acaso que Platão é citado e São Tomás de Aquino ignorado

O próprio poder que têm absoluto, eles por si o limitam e, sendo desobrigados das leis, querem, como diz um texto, viver por elas, afora que a mesma governança que a eles é tão trabalhosa, redunda somente em proveito dos súbditos, que também se assim não fosse, nenhuma razão haveria para que os homens, de geral consentimento, dessem poder a ninguém da morte e da vida sobre si mesmos que, porque a quem governe, se podem ajuntar as gentes em comum e povoar vilas e cidades, e ter leis e sacrifícios e celebrar matrimónios e viver em comunicação das artes, e ser cada um senhor do seu, e resistir às injúrias particulares, e ter de todos os outros bens da vida segura e conversável.

O que, se governadores não houvesse, cairia tudo subitamente em confusão, dissipação e estrago, que em pouco momento se desfaria a comunidade das gentes, por insultos e roubos, e homicídios, de sorte que ficassem os homens poucos e sós, e em companhia das alimárias feras e ainda mal seguros delas .

 

Doutrina ao Infante D. Luís sobre as Condições e Partes que hade ter hum Bom Principe. Cfr. obra in Bento Jozé de Souza Farinha, Filozofia de Principes. Apanhada das Obras de Nossos Portuguezes, Lisboa, 1786, pp. 1 segs..

Sobre os Trabalhos dos Reis.

 

1Albuquerque (1966;  Serrão, Adriana Veríssimo, «Lourenço de Cáceres», in Logos, 1, cols. 804-80;  Inocêncio (DBP), tomo V, p. 195.

 

Última revisão:15-02-2009