Santo Agostinho, ou Aurelius Augustinus (354-430)
A Cidade terrestre, orgulhosa dos seus chefes e das suas vitórias sobre as outras nações, dominadas por ela, deixa-se levar pela paixão do comando. A cidade de Deus mostra-nos cidadãos unidos pela caridade e servidores uns dos outros, governantes tutelares, súbditos obedientes
•Aurélio Agostinho nasce um ano antes de francos, alamanos e saxões invadirem a Gália e quatro anos depois da morte de Constantino, no norte de África, em Tagaste, filho de um pagão, Patrício, e de uma cristã, Mónica.
•Ao vinte anos, depois de ter estudado na terra natal e em Cartago, este cidadão romano, influenciado pelo maniqueísmo, torna-se professor nos próprios sítios onde estudou. Mais tarde, vem para a metrópole, para Roma e Milão e, no ano de 387, com 34 anos de vida, converte-se ao cristianismo. Já eclesiástico, regressa a África e, em 396, é feito bispo de Hipona.
•É nesta qualidade que vive os terríveis acontecimentos do dia 24 de Agosto de 410, quando a cidade de Roma é pilhada pelos bárbaros de Alarico, o que leva os cidadãos Romanos não afectos ao cristianismo a proclamarem que a devastação de Roma seria castigo dos deuses por causa da conversão ao cristianismo. É então que Agostinho decide escrever a obra da sua vida, em vinte e dois livros, compostos entre 413 e 426, a que deu o título De Civitate Dei.
0Arquillière, Henri-Xavier, L'Augustinisme Politique. Essai sur la Formation des Théories Politiques du Moyen Âge [1934], Paris, Librairie Vrin, 1955; Combès, Gustave, La Doctrine Politique de Saint Augustin, Paris, Librairie Plon, 1927; Deane, Herbert A., The Political and Social Ideas of St. Augustine, Nova Iorque-Londres, Columbia University Press, 1963; Ferreira, José Manuel Santos, Teologia do Espírito Santo em Agostinho de Hipona, Lisboa, Didaskalia, 1987; Gilson, Étienne, Introduction à l'Étude de Saint Augustin [1929], Paris, Librairie Vrin, 1943; Marrou, Henri-Irenée, Saint Augustin et l'Augustinisme [1955], Paris, Éditions du Seuil, 1973.
1 Coleman, Janet, Political Thought. From Ancient Greece to Early Christianity, Oxford, Blackwell, 2000, pp. 292 ss.; Cunha (HBIP), pp 120-12; Fédou, Michel, «Saint Augustin», Châtelet (DOP), pp. 31-4; Gettel (1936), pp. 108 segs; Maltez (ESPE, 1991), II, p. 25; Maltez (1996), p. 7; Moncada (FDE), I, pp. 56 segs; Prélot (DP), I, pp. 253-27; ; Russell, Bertrand, A History of Western Philosophy, 1945 (Nova Iorque, Simon & Schuster, 1972), pp. 352 segs.. ; Sabine (1987), pp. 137 ss.; Strauss/Cropsey (1987), p. 176 ; Truyol (HFDE)., I, pp 216-22; Theimer (1970), trad. port., pp. 62 segs..
De Civitate Dei
•Santo Agostinho distingue entre uma civitas Dei, ou civitas coelestis, e uma civitas terrena, ou civitas diaboli, separação que não teria vindo de Adão, mas sim de Caim e Abel. Não se pense, contudo que, para o bispo de Hipona, a civitas Dei se confunde com a Igreja e que a cidade terrena é o mesmo que sociedade política.
•A civitas dei seria algo que circula na cidade terrestre, dado que as mesmas apenas seriam duas sociedades de homens onde uma está predestinada a reinar eternamente com Deus e outra a sofrer um eterno suplício com o Diabo. Assim a cidade de Deus não é vista como uma cidade separada, mas tão só como a que é fundada na lei divina, distinguindo-se tanto daquilo que haviam sido a teocracia judaica e o constantinismo romano.
• A cidade de Deus é a cidade da virtude. A cidade terrestre é a cidade do vício. Logo, tanto refere a existência de elementos da cidade terrestre entre a Igreja, como, pelo contrário, de pessoas sem fé cristã que vivem na cidade de Deus. Todo aquele que procura a verdade e a virtude pode fazer parte da cidade de Deus.
•Como ele explicitamente refere: dois tipos de amor edificaram duas cidades: o amor de si mesmo levado até ao desprezo de Deus-a Cidade terrestre, e o amor de Deus levado até ao desprezo de si próprio-a cidade de Deus. Uma glorifica-se a si mesma, a outra glorifica o Senhor. Uma pede aos homens que lhe teçam glória, a outra põe a sua mais querida glória em Deus, testemunha da sua consciência. Uma, no orgulho do seu triunfo, marcha de cabeça erguida; a outra diz ao seu Deus: Vós sois a minha glória e sois vós que ergueis a minha cabeça. A Cidade terrestre, orgulhosa dos seus chefes e das suas vitórias sobre as outras nações, dominadas por ela, deixa-se levar pela paixão do comando. A cidade de Deus mostra-nos cidadãos unidos pela caridade e servidores uns dos outros, governantes tutelares, súbditos obedientes
•Segundo as teses de Santo Agostinho, a origem do poder político está no pecado, dado que foi a partir do pecado original que se deu a distinção entre os que mandam e os que obedecem. O poder político aparece assim como uma espécie de sanção estabelecida por Deus para se poder ter uma segurança, ou uma paz relativa. Tudo teria começado quando Caim matou Abel. Da mesma maneira na história lendária da fundação de Roma, como Rómulo a matar Remo. Com efeito, a partir do pecado original teria sido destruída a harmonia, surgindo a propriedade privada, a escravatura e o governo.
•Depois de Santo Agostinho, os tópicos da cidade de Deus e da cidade terrestre transformaram-se numa criatura que se libertou do criador, gerando-se a ideologia do augustinianismo político que veio confundir a cidade de Deus com a Igreja institucionalizada, coisa que nunca foi admitida por Santo Agostinho, o qual chegou mesmo a admitir que a civitas diaboli também circulava no seio da própria Igreja. Deste modo, a partir do papa Gelásio e de Santo Isidoro de Sevilha, surge um certo tipo de pensamento teocrático que gerou a submissão do poder temporal dos reis ao poder espiritual da Igreja e que teve o seu auge com Egídio Romano.
Última revisão:15-02-2009