José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Carácter  Nacional Português

 

 

 

Carácter vem do gr. charactér, gravar, coisa gravada. Jorge Dias tentou ensaiar uma síntese da personalidade básica dos portugueses em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa, 1955 e Estudos do Carácter Nacional Português, 1960. Para ele, o homem português é: 1º- Um misto de sonhador e de homem de acção, ou melhor, um sonhador activo, a que não falta certo fundo prático e realista. É por isso mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão. 2º- Profundamente humano e sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas ferido no seu rgulho pode ser violento e cruel. A religiosidade apresenta o mesmo fundo humano peculiar do português. Não tem carácter abstracto, místico ou trágico próprio da espanhola, mas possui uma forte crença no milagre e nas soluções miraculosas. 3º-Tem vivo sentimento da natureza e um fiundo poético e contemplativo estático, faltando-lhe a exuberância e alegria espontânea e ruidosa dos povos mediterrânicos. 4º-Individualista, com grande fundo de solidariedade humana. 5º-Não tem sentido de humor, mas é dotado dum forte espírito crítico e trocista e duma ironia pungente. 6º-Expansivo e dinâmico. 7º-Afectivo, bondoso e amoroso. 8º-Avesso às grandes abstracções e às grandes ideias que ultrapassam o sentido humano. 9º-Perante as grandezas e os mistérios da natureza que foram pouco a pouco descobrindo, nasceu nos portugueses uma atitude especial, não destituída dum certo fundo místico-naturalista, com tintas de panteísmo não filosófico.

 

Para o português o coração era a medida de todas as coisas, tal como para o alemão é a cultura, para o francês, a razão, e para a american way of life, o time is money. No português existiria uma enorme plasticidade humana e invulgar sentido ecuménico, uma predisposição para aceitar de maneira natural as chamadas culturas primitivas, marcada pelo princípio católico da renúncia aos bens terrestres como meio de alcançar a vida eterna.

 

 

Noutra perspectiva, Miguel de Unamuno considera que o povo de Portugal é triste, mesmo quando sorri... É de suicidas o povo de Portugal, talvez ele seja um povo suicida. Para ele, a vida não tem sentido transcendente( in Carta a Manuel Laranjeira de 1908). Considera  também que a mansidão, a meiguice portuguesa só se encontra à superfície; raspai-a e logo haveis de encontrara uma violência plebeia que chegará a assustar-nos (in Por Tierras de Portugal y España, 1908), concluindo  que o português é constitucionalmente um pessimista.

 

Por isso tento ser fiel àquela faceta do carácter nacional português que pode transformar-nos em sonhadores activos, conforme a expressão desse pai-fundador da antropologia cultural portuguesa chamado Jorge Dias, e, assim, corro o risco do imprevisível, mesmo no âmbito das escolhas políticas, preferindo a realista intuição, aos empacotados comprimidos de inteligência que me são oferecidos pelos canalizadores da chamada opinião pública e por certos marechais da nossa gerontocracia. Esses ausentes-presentes que, com muita literatura de justificação, brincam ao revisionismo histórico, apenas pensando no respectivo epitáfio. Daí que persista em denunciar o sistémico das classes políticas que, vivendo de abstracções, alinham na chamada história dos vencedores.

 

 © José Adelino Maltez

Última revisão:06-05-2009

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