José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Ciência

 

 

It is wrong always, everywhere, and for everyone, to believe anything upon insufficient evidence.

James, William

 

Por um acordo entre a ciência social e política e a filosofia social e política

Cole, George Douglas Howard

A ciência diz o que nós queremos e o que nós podemos, nunca o que nós devemos

Weber, Max

Fare sul serio scienza che sia filosofia e filosofia che sia scienza

Spirito, Ugo

 

O rigor de qualquer ciência não pode igualar a seriedade da metafísica e a filosofia não passa da colocação em movimento da metafísica

Heidegger, Martin

 

As ciências do homem estão sempre a necessitar de métodos não experimentados que completem ou intensifiquem a eficiência dos já utilizados

Freyre, Gilberto  

A ciência e o racional só servem para chegar às fronteiras do irracional, para mais nada. Porque depois de um sujeito estudar  toda a física e toda a Matemática que é possível, chega àquilo que considera o fim e vai chocar no mistério

Silva, Agostinho da

Há filósofos disfarçados de cientistas tal como existem charlatães em busca de misturas de literatura, filosofia, política, quem sabe, também de poesia e outros ingredientes

Sartori, Giovanni

 

Scientific theory is a contrived foothold in the chaos of living phenomena

Reich, Wilhelm

 

Esforço racional para substituir a opinião (doxa) pelo conhecimento (episteme). Impõe: distância e objectividade; observação e experimentação; formalização e sistematização. Do latim scientia, tradução do nome grego mathêma. Esta, segundo Pinharanda Gomes, corresponde a um triângulo cujos lados equivalem à dianóia (as ciências preparatórias da mathêma), a epistêmé (a teoria das ciências) e a téknê (ciências práticas ou aplicadas, tendo em vista fins concretos, que se subordinam a uma pragmática). Trata-se de um conceito anterior à noção platónica de epistêmé, conceito integrado, envolvendo a teoria e a prática das ciências.  Aquela intenção de rigor e de objectividade que implica um esforço racional para substituir a opinião (dóxa) pelo conhecimento (episteme). Essa perspectiva que pretende libertar-se do contingente da opinião, procurando o verdadeiro, através da elaboração de um relato (logos) que, neste sentido, contrasta como o mítico (mythos). Um esforço que, contudo, não parte de uns quaisquer primeiros princípios, para atingir a conclusão. Bem pelo contrário, a investigação deve partir da opinião, pesquisando os topoi, os lugares comuns, a partir da linguagem e das opiniões dos homens comuns. Deve partir da realidade, das circunstâncias históricas, do contingente.

 

Assim se simbolizava o ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss*, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado.

 

 

Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Voegelin, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa  de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências. Acresce que, neste nosso tempo de aldeia global da comunicação, onde o de quod libet se processa através  da recepção quase passiva dos mass media, a universidade tem de assumir tanto a função de ensinar a dar voz activa ao auditório como também a de ajudar a transformar as opiniões dispersas num conhecimento científico, desse que, segundo Jürgen Habermas, é capaz de ajustar a alma ao movimento ordenado do cosmos às proporções do universo, através daquilo que Ortega y Gasset referia como o ensimesmamento.

 

Ciência e opinião A distinção entre o conhecimento àcerca do contingente (a opinião ou dóxa) e o conhecimento das causas que são necessariamente verdadeiras. A ciência como esforço racional para substituir a opinião pelo conhecimento. A noção de Wissenschaft como conhecimento rigoroso e objectivo e as regras da metodologia científica. Distância e objectividade. Observação e experimentação. Formalização e sistematização. As propostas de Raymond Aron para a deontologia de uma actividade científica (não seleccionar arbitrariamente os elementos da realidade e não os deformar; não seleccionar arbitrariamente as palavras e as suas definições; não apresentar como certos e precisos fenómenos cuja própria natureza exlui precisamente a precisão; não determinar arbitrariamente o que é importante ou essencial; respeitar a liberdade de discussão e de crítica; praticar o bom uso dos juízos de valor). — As tentativas terceiristas. A classificação de Jean Piaget sobre as ciências sociais e humanas: ciências históricas, ciências jurídicas, disciplinas filosóficas e ciências nomotéticas, as quais procurariam enunciar leis científicas e recorrer ao método de verificação que sujeitam os esquemas teóricos ao controlo dos factos da experiência.

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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