Da decadência

 

Nós vivemos desde 1834, ou em guerra civil ou em absoluta relaxação administrativa. O período de guerra civil terminou em 1852 com o complemento desnecessário do primeiro acto adicional à Carta; o da relaxação principiou com Rodrigo da Fonseca Magalhães, ou antes com a Regeneração, de que ele foi, no seu início, o principal ornamento. O sistema, que se tornou geral nos partidos, de viver bem com todos, de corromper os mais renitentes, chamando-os ao governo e aos grandes cargos do reino, foi viciando os costumes e os caracteres, de sorte que nos últimos tempos não havia senão interesses e nenhuma dedicação sincera por ninguém. Todos procuravam o seu sossego e as suas comodidades e ninguém tinha coragem para sacrificar a vida. O exército estava corroído pela propaganda, e na classe civil não havia força para arrostar com o elemento demagógico (1900)

Vilhena, Júlio Marques de 

 

Talvez valha a pena dizer que não podemos chamar vida a esta decadência, à predominância cinzentona dos valores da cobardia, onde as circunstâncias levam a que se recrutem seres molusculares para os comandos da vida da cidade. Por mim, não me apetece alinhar na longa fila dos elogiadores peganhentos que têm a ilusão de vencer na história, essas invertebradas criaturas que ocupam os interstícios de um poder que não entende o profundo significado do belo conceito romano de autoridade. Por isso me revoltam particularmente os florentinos de outro tempo que, cedendo, nos querem obrigar a esta mediocracia de escravos, colocando-nos na longa fila dos tolerados.

 

Não há políticos, autarcas ou administradores da banca do Estado que consigam mobilizar estes restos de resistência daqueles cidadãos que ainda têm saudades de futuro. Entretanto, persiste a rotina desta gente que passa em seu ingresso, ou seu regresso, da canseira do lar para a canseira do trabalho, com muitos gestos. Neste faz porque faz há que pagar a hipoteca, o colégio dos miúdos, a despesa do médico, a receita da farmácia, ou a dívida contraída por causa de uma viagem de férias.

 

Apenas reparo como os nossos actores políticos, por mais ar de caso que façam, quando procuram cumprir os conselhos dos respectivos assessores de imprensa e de imagem, não foram treinados para o relacionamento com os verdadeiros dramas. Especialmente quando as populações, em silenciosa postura de coragem, ficam bem longe do tradicional choradinho encenado, para a televisão captar.

 

Neste país invertebrado, com uma direita que convém à esquerda e uma esquerda que convém à direita, o bem comum continua a ser treta que se cantarola a toque de discurso politiqueiro. E quem quiser ser alguém neste mercado intelectualês e politiqueiro não convém que se mostre um fervoroso, como católico, republicano, comunista, monárquico ou maçon, pois logo passa a ser integrista, histórico e fundamentalista, só porque tem espinha.

 

O velho Estado moderno, depois de tantas promessas de modernização, deixou-se enredar nas teias dos especialistas na conquista e manutenção no poder no âmbito do clubismo, do facciosismo e do campanário. Competentíssimos nesses domínios da fulanização, da galopinagem e do caciqueirismo, grande parte dos figurões que nos regem não perceberam que atingiram, há muito, as raias do princípio de Pedro, a partir das quais estão condenados a pisar os terrenos da incompetência.

 

Última revisão:06-05-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info