José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Espectáculo, Estado

 

 

Enquanto continua esta esquisita guerra global, onde, em cada dia que passa, ganha contornos a velha guerra civil mundial, cumpre assim chamar a atenção para o drama da democracia portuguesa continuar dominada pela tríade imagem, sondagem, sacanagem, para utilizarmos uma já referida metáfora de Manuel Alegre. Talvez seja mais adequado dizer-se que somos cada vez mais um país onde mandam os que, como os orientais macacos, são cegos, surdos e mudos. Dos que vêem, ouvem e lêem, mas preferem ignorar, para agora parafrasearmos Sophia de Melo Breyner.

Até preferimos encontrar um qualquer bode expiatório que, de vez em quando, atiramos para as morosidades processuais da chamada administração da justiça, enquanto outros, do mesmo género caprónico, ou são amnistiados, ou se candidatam aos eternos lugares da impunidade, que nenhuma comissão parlamentar de inquérito consegue lobrigar. Porque maioria oblige e maioria varia, como as verdades que dependem do aquém ou além de um simples resultado eleitoral, capaz de novas protecções e de novas amnistias.

Com efeito, os ditames do Estado-Espectáculo continuam a comprimir as energias do Estado de Direito, repetindo um ditame salazarento, proclamado por ocasião da inauguração da nossa réplica goebbelsiana, segundo o qual, em política, o que parece, é. Por outras palavras, todas as agências de marketing e comunicação, que fazem assessoria aos nossos principais protagonistas políticos, persistem no erro de propagar que em política só existe aquilo que se comunica em slogan, através do efémero dos breves minutos de um telejornal. Mas democracia não é teatrocracia de fantoches.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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