José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Governança sem Governo

 

 

Daí, vivermos num tempo onde há cada vez mais governança sem governo, num sistema de pilotagem automática, onde a pressão dos ordenamentos exógenos começa a dessangrar as instituições que se radicam na autonomia nacional. Aliás, o cargo de Primeiro-Ministro, com os seus ajudantes, num conjunto dito governo, quase parece dispensável. Primeiro, porque no nosso sistema os factores de poder exclusivamente nacionais já estão em minoria. Segundo, porque o jogo dos grupos de pressão e dos grupos de interesse ameaça fazer explodir a legitimidade da velha democracia representativa.

Descendo à realidade, apenas direi que, neste país quase imaginário, entre as muitas cabalas que nos infra-governam, começa a emergir um esboço ramificativo que semeia a intriga inquisitorial entre os fazedores de génios intelectuais, misturando invocações catolicamente santificadas com luteranas imprecações, para que se cacem subsídios e se semeiem padrinhos.

E assim se vai transformando a influência num autêntico polvo de ataques mentais, onde a estratégia do leninismo de extrema-direita se tem casado com as memórias estalinistas de alguns dos falsos mestres-pensadores do nosso tempo lusitano.

Logo, quem, no lugar próprio e com escritos assinados e não publicitados, contestar directamente quem se senta no cadeirão mais alto, corre o risco de ser objecto das facadas dos pobres jagunços, que, assim, pagam a posta recebida, a bolsa conquistada e a pelingrafia publicada.

Estes idiotas úteis que se julgam formadores de opinião são particularmente virulentos para quem ameaça causar estragos na paisagem ideológica ou político-partidária que os mestres quiseram cenarizar, para melhor exercerem o controlo terrorista.

Aproveitando os interstícios do poder supremo, há, assim, muitos que nos querem infra-governar, mobilizando quem veio da extrema-esquerda, e quem veio da extrema-direita, para os colocarem no centro do poder político-mediático, político-judicial, político-governamental, político-bancário, político-sacrista e político-editorial. Aliás, têm conseguido!

Juntando vários fundamentalistas, oriundos de fundamentalismos não-portugueses, não perdoam a quem, sendo convidado, não quis servir a seita, batendo nas portas com cartas escritas, preto no branco, nome no nome, adjectivamente substantivado em factos.

Na primeira janela de oportunidade que lhes aparece, os mandantes logo espicaçam alguns agentes inimputáveis, para que estes  elaborem uma masturbação de adjectivos amedrontadores, enquanto, pelo caminho, vão sendo saneados todos os que lhes estavam dependentes e que apenas tinham vagas relações de amizade com o diabo a abater pelo pseudo-exorcismo exterminador.

Esta gente, que beneficiou com o salazarismo e que nada perdeu com o abrilismo, consegue que o mundo das orgias niilistas tenha aí um representante. Que o universo dos tradutores em calão da nova modernidade intelectual aí se sinta representado. Até porque os financiamentos parecem garantidos por quem vai criando organismos e organismos, conferências e conferências, leninismos e leninismos, como se precisássemos de um novo Quirino de Jesus, de um novo Alfredo Pimenta, de um novo padre Manuel Fernandes Santana, só porque abundam tipos com a sensibilidade de António Botto.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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