José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Gulag 

 

 

Sigla russa da Administração Geral dos Campos de Concentração.  O primeiro foi criado logo em Agosto de 1918 por Lenine. Como reconhece Chulguine o GULAG é um mal absoluto. Contudo, em certo sentido, a Humanidade também precisa de conhecer o mal absoluto. Há que experimentá-lo para se poder erradicá-lo. Neste sentido, os russos foram os argonautas do Inferno. Exploraram um novo espaço existencial, o domínio do sofrimento, da luta e da morte, consubstanciados no sistema GULAG. Tendo-o explorado , abandonaram-no para sempre. E juntamente com eles, abandonou-o toda a Humanidade. Talvez por isso é que Soljenitsine. em 1967 proclamava: se um dia conquistarmos a liberdade, devê-la-emos exclusivamente a nós mesmos. Se o século XX vier a comportar alguma lição para a humanidade, nós tê-la-emos dado ao Ocidente, e não o Ocidente a nós: o excesso de um bem-estar perfeito atrofiou nele a vontade e a razão. Isso não implica a desculpabilização dos russos e, com eles, de todos os homens. Como reconhece Soljenitsine, faltou-nos o suficiente amor à liberdade, e, antes de mais, a plena consciência da verdadeira situação. Gastámo-nos numa incontível explosão no ano de 1917 e, depois, apressámo-nos a submetermo-nos... merecemos simplesmente tudo quanto sobreveio depois. De qualquer maneira, importa assinalar, como Soljenitsine que os povos precisam de derrotas como certas pessoas precisam de sofrimentos e de desgraças: elas obrigam a aprofundar a vida interior e a elevar-se espiritualmente. Também Toynbee assinalava que é pelo sofrimento que se aprende. Trata-se, no fundo, do antiquíssimo verbo dos Profetas, desde sempre assumido por todos os que estão condenados ao exílio junto às águas de Babilónia, de todos aqueles exílios que continuamos a sofrer fora ou dentro das próprias pátrias. O mesmo Toynbee considerava que para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem de andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em volta. Enquanto as civilizações se erguem e soçobram e, ao soçobrar, vão dando origem a outras, talvez vá seguindo sempre o seu caminho em frente uma empresa de intenções definidas, mais alta que a delas, e talvez o supremo meio de progresso seja, num plano divino, a sabedoria que se aprende através do sofrimento causado pelo fracasso das civilizações. Da mesma forma, Johann Baptist Metz salienta que  não é por acaso que a destruição de recordações é uma medida típica da dominação totalitária. A escravidão do homem começa com o facto de lhe tirarem as recordações. Toda a colonização tem aí o seu princípio. E toda a insurreição contra a opressão nutre-se da força subversiva do sofrimento recordado. Com efeito, no imperial-comunismo, a pior das consequências talvez não tenha sido o terror do totalitarismo, mas, sobretudo, a cedência ao pós-totalitarismo, quando, em nome da segurança e da tirania de um agente segurador da providência, houve como que uma ratificação da servidão. Aldous Huxley, no prefácio ao Admirável Mundo Novo, pela primeira vez editado em 1932, já advertira: não há nenhuma razão ... para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos, dado que num Estado Totalitário verdadeiramente eficiente ele será inútil constranger, pois todos terão amor à servidão, além de que os maiores triunfos em matéria de propaganda, foram conseguidos, não com fazer alguma coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Voltando a Pasternak, talvez a Rússia diga colectivamente: também eu já fui partidário da revolução, mas hoje pergunto-me se alguma coisa de bem se poderá obter recorrendo à violência. O bem só pode ser alcançado pelo bem. Os meios determinam os fins. Como diz o mesmo autor, é agora que começam a manifestar-se os resultados indirectos, os frutos dos frutos, as consequências das consequências. As desgraças temperam os caracteres, deram à nova geração uma resistëncia, um heroísmo e um ardor que ela manifesta por tudo quanto é grande, temerário, prodigioso, por todas essas virtudes fantásticas, assombrosas, que não têm paralelo.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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