José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Ideologia
As ideologias são as ideias que transcendem a situação e que nunca conseguiram realizar efectivamente o seu conteúdo virtual
Ideologia é um termo inventado pelo sensualismo de Destutt de Tracy, em 1796, em Project d’Élements d’Idéologie, querendo significar ciência das ideias, o estudo sistemático, crítico e erapêutico dos fundamentos das ideias. Sofre logo uma rápida evolução semântica: de ciência das ideias passa a aspiração reformista envolvendo um programa político.
Conforme a definição de Marcel Prélot, são teses ligadas entre si e referidas a um princípio, dando origem a um plano intelectual de organização política, o qual constitui igualmente um todo ligado e coordenado. Para Jean Touchard, uma ideia política que tem peso social, como se fosse uma pirâmide com vários andares: no vértice, a doutrina, aquilo a que os marxistas chamam praxis; em seguida, as vulgarizações; depois, os símbolos e as representações colectivas.
Por outras palavras, a ideologia depressa passou a uma criatura que ultrapassou os limites conceituais que lhe foram estabelecidos pelo criador. É um sistema de pensamentos, um conjunto de pensamentos estratificados, um conjunto autónomo sujeito a leis próprias de desenvolvimento. Por outro lado, passou a significar uma espécie de programa político reformista, ligado aos amanhãs que cantam. Em terceiro lugar, a ideologia é um sistema de ideias conexas com a acção (Carl J. Friedrich), exigindo uma estratégia para a actuação.
A ideologia, como sistema de ideias que já não são pensadas por ninguém" (Weidle), tem, além do elemento racional motivador, o vasto campo da vulgata, que se traduz tanto em elementos emotivos como em elementos míticos. É, conforme Anthony Downs, uma verbal image of the good society, and the chief means of constructing such a society.
Gera, assim, ideologismos, pensamentos desligados ou independentes da acção. Essas imaginações do pensamento, que, conforme refere Emmanuel Mounier, correm o risco permanente de fazer passar por cima, isto é, ao lado da história, as forças espirituais com que nós queremos animar a história. Umas vezes tomam a forma de um racionalismo mais ou menos rígido. Constroem então com ideias ou, mais recentemente, com considerações técnicas de teóricos, um sistema coerente que pensam impor à história unicamente pela força da ideia. Quando a história viva ou a realidade do homem lhes resiste, crêem ser tanto mais fiéis à verdade quanto mais aperram ao sistema, tanto mais puros quanto mantém a sua utopia em imobilidade geométrica.
Não é por acaso que as várias ideologias são marcadas pela expressão ismo, esse sufixo de origem bizantina, divulgado no ocidente europeu pelos cultores da teologia.
Começou por ser utilizado em Portugal pela linguagem eclesiástica em palavras como baptismo, cristianismo, aforismo, exorcismo ou paganismo. Na época do renascimento, surgem várias palavras com o sufixo, por via erudita (v. g. humanismo). Nova invasão, pela língua erudita, surge nos séculos XVIII e XIX, por via francesa, até que, nos começos do século XX passou a ser utilizado massivamente, passando da linguagem erudita à linguagem popular, coincidindo com o aparecimento da sociedade industrial.
Significa, em princípio, a generalização de alguma coisa. Na politologia serve sobretudo para qualificar uma doutrina, uma corrente de pensamento ou uma ideologia, bem como uma atitude, uma maneira de agir que se pretende de acordo com uma doutrina. Allardt, Erik,, Littunen, Y., Cleavages, Ideologies and Party Systems, Helsínquia, Bookstore, 1964 [reed., Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1970]. } Baradat, Leon P., Political Ideologies. Their Origins and Impact, 5ª ed., Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1994. }Blas Guerrero, André, Nacionalismos e Ideologias Políticas Contemporáneas, Madrid, Ediciones Espasa-Calpe, 1985. } Bluhm, William T., Ideologies and Attitudes. Modern Political Culture, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1974. } Bobbio, Norberto, La Ideologia e il Potere in Crisi, Florença, 1981. } Bracher, Karl Dietrich, The Age of Ideologies. A History of Political Thought in the Twentieth Century, Nova York, Saint Martin’s Press, 1984. }Colleti, Lucio, Ideologia e Società, Bari, Edizioni Laterza, 1969. } Connolly, William. E., Political Science and Ideology, Nova York, Atherton Press, 1967. } Drucker, H. M., The Political Uses of Ideology, Basingstoke, Macmillan Press, 1974. } Goytisolo, Juan Vallet, Ideologia, Práxis e Mito da Tecnocracia, trad. port., Lisboa, Restauração, 1974. } Hagopian, M., Regimes, Movements and Ideology, Harlow, Longman, 1984. }Harris, Nigel, Beliefs in Society. The Problem of Ideology, Londres, C. A. Watts, 1968. } Heywood, Andrew, Political Ideologies. An Introduction, Basingstoke, Macmillan Press/Nova York, Saint Martin’s Press, 1992. } Ingersoll, David E., Matthews, Richard K., The Philosophic Roots of Modern Ideology. Liberalism, Communism, Fascism, 2ª ed., Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1991. }Lane, Robert E., Political Ideology. Why the American Common Man Believes What He Does, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1962. } Lichtein, Georges, The Concept of Ideology and Other Essays, Nova York, Random House Publishers, 1967. } McLellan, David, Ideology, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1986 [trad. port. A Ideologia, Lisboa, Editorial Estampa, 1987]. }Nelson, Brian R., Western Political Thought. From Socrates to the Age of Ideology, 2ª ed., Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1966. }Pastor, Manuel,, ed., Ideologias y Movimientos Políticos Contemporáneos, Madrid, Universidade Internacional Menendez Pelayo, 1981. } Plamenatz, John, Ideology, Londres, Pall Mall Press, 1970. }Real, Alberto Ramon, Las Ideologias Politico-Sociales. Su Pretendida Declinación, Montevideo, 1964. } Rejai, Mostafa, Political Ideologies. A Comparative Approach, Armonk, Sharpe Books, 1991. }Idem, ed., Decline of Ideology?, Chicago, Aldine de Gruyter, 1971. } Sargent, Lyman Tower, Contemporary Political Ideologies. A Comparative Analysis, 9ª ed., Belmont, Wadsworth, 1993. } Schumaker, Paul D., Kiel, Dwight, Heilke, Thomas, Great Ideas/Great Schemes. Political Ideologies in the Nineteenth and Twentieth Centuries, Nova York, MacGraw-Hill, 1996. } Seliger, M., Ideology and Politics, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1976. } Vincent, Andrew, Modern Political Ideologies, 2ª ed., Oxford, Basil Blackwell Publishers, 1995. Zeitlin, Irving, Ideology and the Development of Sociological Theory, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1968.
© José Adelino Maltez |

Última revisão:06-05-2009
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