José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Indiferentismo

 

 

Não devemos acirrar a nossa propensão para os extremos desesperados do optimismo e do pessimismo. Era bem mais saudável que, sobre um fundo de pragamatismo, pudéssemos continuar a apostar na aventura. Que, retomando o clássico empirismo franciscano do Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, mantivéssemos os fins em boa altura, para que, pudéssemos crescer em sentido integral, isto é, para cima e para dentro, como ensinou Teilhard de Chardin.

Um pouco de ideal-realismo e de materialismo-transcendental seriam bem melhores do que as ilusórias drogas da utopia, esses signos da impotência que a geração do Maio 68 continua a semear à toa, sem reparar que os filhos do PREC, os actuais jovens universitários, acabam por alinhar no sonhar é fácil  dos concursos milionários, porque já perceberam que a apregoada competitividade é todos os dias traída pela injustiça da cunha e pelo clientelismo, onde até o crime pode acabar por compensar.

Quando há expectativas que não assentam em reais capacidades, o desencanto é inevitável e a revolta ameaça. As grandes potencialidades, apregoadas na feira das vaidades, são também as grandes vulnerabilidades do quotidiano vivido. Neste sentido, alguns dos maiores inimigos da democracia são os que gastam, pelo mau uso, a palavra democracia, os tais reincidentes do vazio de autenticidade que, pregando como Frei Tomás, acabam por prostituir a mesma democracia pelo abuso discursivo da palavra que aprenderam na respectiva juventude totalitária.

O crescendo do indiferentismo e da apatia, bem como o assustador desenvolvimento da corrupção e do clientelismo, caso não sejam tomadas corajosas medidas no sentido da moralização da política, podem fazer com que, no dobrar da esquina, apareça um qualquer Vale e Azevedo, o qual, vendendo a ilusão de podermos voltar a jogar à Benfica, nos levará a ainda mais derrotas.

Porque a democracia impõe tanto uma liderança governativa como a participação dos cidadãos nas decisões, eis que essas duas exigências são sempre acompanhadas pelas degenerescências do elitismo, por um lado, e pela indiferença ou apatia das massas, por outro, dado que a necessidade da participação pode levar a que massas ignorantes sejam manipuladas por demagogos ou se mantenham em regime de indiferença face aos negócios públicos.

A polis tem de ter uma liderança, um comando, mas não pode deixar de ter participação popular. A polis precisa da verticalidade de um poder, mas não prescinde da horizontalidade da cidadania. Ela tem de ser auto-suficiente, mas não pode deixar de permitir que o governado também seja governante, que também ele participe na decisão.

O exagero da liderança, da estruturação vertical, ao mesmo tempo que permite o crescimento da população e do território, leva a que surja uma pirâmide do poder, onde no vértice, se constitui uma elite, os poucos da sede activa do poder, e na base se conglomera a sede passiva do poder, os muitos.

Parsons coloca a liderança como um dos três elementos do poder institucionalizado, ao lado da autoridade e das regras. Com efeito, em qualquer democracia impõe-se tanto uma liderança governativa como a participação dos cidadãos nas decisões, mas essas duas exigências são sempre acompanhadas pelas degenerescências do elitismo, por um lado, e pela indiferença ou apatia das massas, por outro. A necessidade de governabilidade e de liderança tende para o estabelecimento de uma elite no topo da pirâmide do poder, muitas vezes marcada pelo facciosismo da partidocracia, pelo burocratismo e pelo fenómeno da compra do poder ou da corrupção.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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