José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Indisciplinador

 

 

 

 

Há mais de três quartos de século, o nosso Fernando Pessoa, numa subtil análise dos começos do salazarismo, proclamou que Portugal precisava de um indisciplinador, denunciando aquilo que então considerava ser a doença da ordem. Hoje, neste tempo de encruzilhada, apetece repetir o mesmo grito pessoano, não contra o totalitarismo, ou o autoritarismo, mas contra a doença da aposentadoria.

Não nos parece que a pátria esteja em perigo neste começo do milénio. Dois terços dos portugueses que restam vivem remediadamente melhor: usam telemóvel; têm frigorífico e televisões; podem deslocar-se de automóvel e motorizada; e guardam um certo pé-de-meia que lhes garante o mínimo de bem-estar.

Para dois terços dos portugueses, estão efectivamente atingidos aqueles mínimos de sobrevivência que nos dão a ilusão de conservarmos o que fomos, desde a pesada herança do fascismo, às delícias do socialismo de consumo da época pós-revolucionária, a que acresceram as vantagens  dos muitos subsídios e fundos estruturais da integração europeia.

Dois terços dos portugueses submeteram-se para sobreviverem, foram premiados pela cobardia e pela servidão e resistem, muito utilitariamente, nessa lógica do aposentado, reformado ou jubilado, à espera do tempo que passa. E lá vão devorando as notícias vindas do jet set ou emocionando-se com as aventuras acabrunhantes dos reality shows e dos talk shows, entre o big brother e as homílias televisivas dominicais  de antigos e futuros presidentes de partidos, especialistas em todas as especialidades que, percebendo, de tudo, muitíssimo, acabam por compreender pouco, de nada.

Dois terços dos portugueses não tem esperança nem desespero e preferem negar o mundo e os seus conflitos, pelo que continuam disponíveis para sustentarem os grandes partidos do centrão que gere esta ditadura do statu quo.

Infelizmente, há um terço de portugueses excluídos deste processo de aposentação cinzentamente semidourada. São os pobres envergonhados, os jovens sem esperança na justiça e os que têm saudades de futuro. Se uns são marcados pelas utopias daqueles modelos planificados do dever-ser e outros são tocados pela esperança dos desesperados, ambos sentem a impotência de serem minorias.

Compreende-se, pois, que dominem os maquiavéis da abstenção que, segundo dizem, não percebem nada de política. Os mesmos que, como cataventos bem oleados, estão sempre do lado que lhes convém, sempre ao sabor daquele vento novo que os pode levar à bolina, para um qualquer porto seguro. Esses que, como dizia o romantismo fascista de Abel Bonnard, ficando anquilosados pela vergonha daquilo que representam, uma civilização moribunda, logo se apressam em denegrir os seus e em fazer a apologia dos adversários, moderadamente.

Apetece, pois, citar o Frei Dinis das Viagens na Minha Terra, segundo o qual a sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era,  mas muito menos ainda pode ser o que é, o que vai ser só Deus sabe.

Neste sentido, talvez não haja nenhum bruxo ou especialista em cenários políticos que seja capaz de visualizar o quadro estrutural onde se desenrolará, a médio prazo, a vida portuguesa, mesmo que se mude o sistema, para que se possa manter o regime, antes que tenha de alterar-se o regime para que a democracia possa resistir.

Portugal continua a precisar apenas de um indisciplinador colectivo que nos faça regressar àquele bom senso, definido por Henri Bergson como um acordo íntimo entre as exigências do pensamento e da acção, esse novo nome dado à recta ratio dos estóicos e à reasonableness de John Locke. Mais necessitamos daquilo que  Ezequiel de Campos qualificava como a organização do trabalho nacional, onde um efectivo reconhecimento do mérito, assente numa real igualdade de oportunidades, evangélica ou maçónica, crie um sistema de governo que não permita que o povo seja traído pelo status in Stato (Almeida Garrett), de uma falsa elite que nos amarfanha, esses novos apparatchiki, para utilizarmos um termo divulgado depois da obra de Milovan Djilas, The New Class, equivalente ao de nomenklatura, que deriva do conceito marxista de aparelho de Estado.

De outro modo, um novo Camilo Castelo Branco terá que continuar a escrever A Queda de um Anjo e um António de Sousa de Macedo a ter que publicar, anonimamente, a sua Arte de Furtar, denunciando os ministros honestos que se rodeiam de corruptos e os ministros corruptos que se enfeitam de serviçais honestos.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info