José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Laicismo

 

 

Etimologicamente vem do grego laikos, ou popular. A expressão portuguesa tem como intermediário o francês laicisme, sendo introduzida na nossa língua apenas no século XIX. De origem directa latina, apenas nos ficou a expressão eclesiástica leigo. Diz-se da doutrina que defende a independência da sociedade e do Estado face à influência religiosa ou eclesiástica, sendo marcante no início do século XX, principalmente a partir da experiência da III República Francesa, depois do affaire Dreyfus. Equivale ao movimento britânico do secularismo. Tem as suas origens na reacção contra a doutrina das duas espadas assumida pelo papa Bonifácio VII na bula  Unam Sanctam de 1302, luta assumida por autores como Marsílio de Pádua e Guilherme de Ockham. Desenvolve-se com o Renascimento, desde as novas concepções políticas de Maquiavel às perspectivas de ciência assumidas por Galileu. Estado Laico,caracterizado pela morte de Deus e que, no plano político, considera que a César  pertence tudo. Esta última variante, marcada pelas teses de Saint-Simon e Comte, tem tendência para substituir a religião tradicional por uma nova religião da humanidade, marcada pela confiança na razão. O modelo foi particularmente assumido pelo republicanismo brasileiro, tendo algumas influências na I República portuguesa, integrando a categoria do gnosticismo, inventariada por Voegelin. Com efeito, em Portugal e no Brasil a força deste laicismo positivista acaba por substituir o próprio marxismo. Curiosamente, alguns dos ex-comunistas, depois de repudiarem o marxismo-leninismo, o sovietismo e o PCP, passaram a desenvolver doutrinarismos laicistas e estatistas, herdeiros do mais desabrido anticlericalismo, à maneira de Afonso Costa e das sebentas de direito dos cultos da I República. Da mesma maneira, uma das medidas simbólicas do partido da extrema-esquerda em 2000 foi a proposta de revisão da Concordata. Diga-se, aliás, que o comunismo soviético também se assumiu como um sucedâneo de religião, constituindo uma espécie de Islão do século XX.

 

Desde a fundação do Partido Popular Italiano por Luigi Sturzo que a democracia cristã se assumiu como movimento laico, não confessional, ao contrário do que aconteceu como o movimento português congénere, o Centro Católico Português, que até foi directamente inspirado pela Conferência Episcopal Portuguesa. Aliás, a origem laica do poder é defendida pela doutrina cristã desde São Tomás de Aquino.

Maritain defende uma "cidade laica de inspiração cristã" ou de um "Estado laico cristamente constituído",isto é,"um Estado onde o profano e o temporal tenham plenamente o seu papel e a sua dignidade de fim e de agente principal ‑ mas não de fim último nem do agente principal mais elevado" e que leva também à "extraterritorialidade da pessoa face aos meios temporais e políticos"

 

Laicismo (Francisco de Vitoria) Consegue uma síntese entre a escolástica e o humanismo erasmista. Começa por reforçar a tese tomista que perspectiva a comunidade política como uma instituição de direito natural, que cabe no âmbito dos fins temporais do homem, considerando que o poder político reside na comunidade, a qual, por sua vez, o atribui aos governantes. Estes, além de estarem submetidos à lei divina e à lei natural, passam também a estar sujeitos ao próprio direito positivo. Se, por um lado, considera que qualquer povo, por direito natural, pode constituir-se em república, por outro, salienta que todos os povos, organizados em repúblicas, se encontram unidos pelo vínculo comum da natureza humana, destacando a existência de um direito de livre comunicação entre todos eles, independentemente da religião que professem. Salienta que a comunidade política é uma instituição de direito natural, que cabe no âmbito dos fins temporais do homem, salientando que o poder político reside na comunidade e que é esta que o atribui aos governantes.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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