José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Liberalismo Selvagem

 

 

Sou dos que não subscreve as teses dos libertarians, também ditos anarco-capitalistas, esses que assumem o extremismo da liberdade e da propriedade, contrariando o próprio liberalismo clássico, isto é, estando contra a liberdade dos antigos e a liberdade dos modernos.

A perspectiva de autores como Robert Nozick, David Friedman, Barry Norman  e Murray Rothabard, ligados ao modelo dos young urban professionals (yuppies), não pode confundir-se com o movimento de ideias surgido nos anos trinta do século XX, opondo-se aos vários dirigismos económicos então dominantes, tanto à direita como à esquerda, e que recebeu o nome de neoliberal. Uma corrente que tem como antecedentes várias escolas, desde o marginalismo, com Hermann Gossen e William Stanley Jevons,  e os neoclássicos, com Alfred Marshall, o fundador da Escola de Cambridge, passando pela Escola Psicológica de Viena, com Carl Menger, o fundador do individualismo metodológico, pela Escola de Lausanne, com a economia política pura de Léon Walras, e reafirmando-se com a Nova Escola Austríaca, de Ludwig Von Mises e Friedrich August von Hayek. Uma geração marcada pelo Colóquio Walter Lippmann, de Agosto de 1938, e pela criação da Societé du Mont Pèlerin, em 1947.

Seria anacrónico repetirmos, na viragem do milénio, o debate entre a Escola de Viena as interpretações keynesianas da Escola de Cambridge, esquecermos os neoliberais franceses (Louis Baudin, Jacques Rueff, Daniel Villey) ou o liberalismo ordeiro do pós-guerra, marcado pela economia social de mercado.

Ninguém precisa de ser anarco-capitalista para subscrever aquele Friedrich Hayek que, ao receber o Prémio Nobel da economia em 1974, reconheceu, como mestres, os juristas portugueses e espanhóis dos séculos XVI e XVII, os teóricos da neo-escolástica, adeptos do direito natural casuístico, ou de conteúdo variável. Ninguém precisa de ter tido contactos imediatos de primeiro grau com Karl Raimund Popper para subscrever as respectivas teses sobre a sociedade aberta. E seria empobrecedor não se reparar na nova vaga liberal dos anos oitenta do século vinte, bem como nos contributos da Escola Monetarista de Chicago de Milton e Rosa Friedman.

Do mesmo modo, não podemos sair do dogmatismo anarco-capitalista e cair na interpretação neo-conservadora do mesmo, de acordo com as linhas  daquele movimento de ideias que preparou e justificou a subida ao poder de Ronald Reagan, nos Estados Unidos da América, e de Margaret Tatcher, no Reino Unido. Desse movimento que, sob o signo populista da teledemocracia, asssumiu uma certa leitura neoliberal das relações entre o aparelho de poder e a economia,  onde imperam as perspectiva da new right norte-americana (Irving Kristoll) e da luta contra o modelo da Great Society de Lyndon Johnson (Daniel Bell e Patrick Moynhan), quando importa entender legados como os de Roger Scrutton e de Michael Oakeshott, ou reinterpretar os modelos franceses, tanto  da nouvelle droite (Alain Benoist) como da defesa da revolução conservadora (Guy Sorman). Há mais mundos e muitas mais raízes.

Um liberal não precisa de ser anarco-capitalista para reconhecer que o Welfare State sofre de raquitismo, quando se admitiram estruturas adiposas de gordura sem adequado músculo e calcificada ossatura, que puseram em causa as articulações e a própria estrutura óssea do corpo social. Contudo, ao mesmo tempo que fala em menos Estado, relativamente aos intervencionismos anteriores, também clama por um melhor Estado, isto é, por uma nova intervenção da esfera pública em domínios como os da qualidade de vida, do ambiente e da descentralização, visando responder, com justiça, às novas questões sociais.

Ser liberal não significa ceder às forças reivindicadoras do capitalismo autenticamente selvagem e multinacional que, mantendo a justiça e a dimensão ética dentro dos respectivos espaços político-culturais, exportam, para os terceiros e quatros mundos, essas vias super-liberalistas para a construção de um laboratório do mercado da concorrência perfeita.

Mas esta não passa de um mero exercício mental daqueles ideologismos economicistas que não foram, nem serão, aplicados em qualquer lugar e em qualquer tempo, salvo nos exercícios de imaginação teórica dos modelos académicos e dos manuais pedagógicos, dado que os povos, feitos de homens concretos, de carne, sangue e sonhos, não podem ser cobaias de experimentação para tais tratamentos de choque.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info