José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Maniqueísmo

 

Qualificativo dado às correntes de pensamento que aceitam uma luta entre o princípio do bem e o do mal. Uma das características do gnosticismo. O agostinianismo é um dos responsáveis pela introdução desta forma mentis no pensamento ocidental, quando aceita uma leitura restritiva do combate entre a cidade de Deus e a cidade terrestre. O marxismo mantém o maniqueísmo quando opõe as classes boas e às classes más, tal como o nazismo ao defender a existência de raças biologicamente boas em confronto com as raças biologicamente más. O maniqueísmo constitui para alguns autores uma manifestação de paranóia política, baseada numa polarização de crenças, nomeadamente quando considera que todo o opositor é um inimigo, na senda das teses sobre a essência do político, assumidas por autores como Carl Schmitt e Julien Freund e retomadas pela nova direita. Assumem uma espécie de marxismo branco, naquilo que Alain Bénoist qualifica como gramscianismo de direita, tornando-se numa espécie de irmão inimigo dos partidos comunistas, quando invocam o papão do inimigo interno do anticomunismo ou do antifascismo, onde há sempre alguns compatriotas que são a antinação.

 

Mais antiga e mais permanente é a maniqueísta divisão entre o bem e o mal, mas com cada um deles a serem situados em diferentes lugares do mundo, como aconteceu com aquela ideologia teocrática que tresleu a distinção de Santo Agostinho (354-430) entre uma cidade de Deus e uma cidade terrestre, ou cidade do diabo, e que directamente se tem propagado às interpretações fundamentalistas de todas as religiões.

 

Segundo Santo Agostinho, a distinção entre uma civitas Dei ou civitas coelestis e uma civitas terrena ou civitas diaboli, não teria vindo de Adão, mas sim de Caim e Abel. Mas a civitas Dei não se confunde com a Igreja, nem a cidade terrena é o mesmo que sociedade política. A civitas dei é algo que circula na cidade terrestre, dado que as mesmas apenas são duas sociedades de homens onde uma está predestinada a reinar eternamente com Deus e outra a sofrer um eterno suplício com o Diabo. Assim a cidade de Deus não é vista como uma cidade separada, mas tão só como a que é fundada na lei divina, distinguindo-se tanto daquilo que haviam sido a teocracia judaica e o constantinismo romano. A cidade de Deus é a cidade da virtude. A cidade terrestre é a cidade do vício. Logo, tanto refere a existência de elementos da cidade terrestre entre a Igreja, como, pelo contrário, de pessoas sem fé cristã que vivem na cidade de Deus. Todo aquele que procura a verdade e a virtude pode fazer parte da cidade de Deus.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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