José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Maria da Fonte

 

 

 

 

A sublevação anti-situacionista terá começado em, em Santo André de Frades, concelho da Póvoa do Lanhoso, em 19 de Março de 1846, com o povo revolta-se contra o governo dos Cabrais por causa da Junta de Saúde e das bilhetas. Prendem-se algumas mulheres e logo ajuntamentos vão soltá-las, arrombando as cadeias, protestando contra o despostismo dos administradores e empregados e enfrentando os soldados, que se apresentam como a mão longa da capital.

A populaça assalta as repartições queimando os papéis das finanças, com muita gente armada de roçadora. A própria cidade de Braga chega a estar ameaçada pelos populares dos arredores. Ataque a Guimarães (14/04).

A revolta depressa se propagou ao Minho, sob a liderança de padres miguelistas como Casimiro José Vieira, João do Cano, Manuel das Agras e José da Laje. José Bernardo da Costa Cabral é enviado para o Porto, com plenos poderes para dominar as revoltas (21/04)., mas em 07/05, já uma série de deputados pede a demissão do governo.

António Bernardo da Costa Cabral ainda começou por desdenhar da movimentação, chamando-lhe revolução do saco ao ombro e da roçadora na mão, mas em 17/05 já o governo foi obrigado a apresentar a respectiva demissão.

Em breve o grupo dito da pata ao léu passa a ter a colaboração e o enquadramento dos pés frescos do setembrismo, formando-se, por todo o reino, juntas revolucionárias a partir dos gabinetes locais da coalizão oposicionista. A primeira surge em Vila Real, presidida pelo morgado de Mateus. Estudantes de Coimbra deslocam-se à Figueira da Foz e assaltam o forte de Santa Catarina. Passos Manuel preside à junta de Santarém. Em Braga é o visconde do Valongo.

Acalmados os ânimos, com o governo de Palmela, a que acede o próprio Luís Mousinho de Albuquerque, tudo vai reacender-se a partir de 10 de Outubro, quando, num golpe palaciano, se constitui novo gabinete, presidido por Saldanha, que reforça a posição dos cabralistas.

Começa então a sublevação no Porto, com os Patuleias a pegarem em armas.

As juntas nascidas durante a Maria da Fonte começam a reorganizar-se e a revolta alastra a todo o país, iniciando-se a guerra civil.

Em 20 de Abril de 1846, na Câmara dos Deputados, António Bernardo da Costa Cabral, depois de reconhecer que há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, salienta que a revolução do Minho é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos!.

Que é levada a cabo sem chefe pela mais ínfima classe da sociedade, havendo um bando de duas mil e quatrocentas, a três mil pessoas armadas, com foices roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar, impondo-se tomar medidas enérgicas e fortes, a fim de a espada da lei cair sobre as suas cabeças.

De forma bem mais moderada, Saldanha logo pediu a invasão de Portugal por tropas dos aliados, a fim de impedir a subversão dos povos. Quanto à subversão das ideias, julgo que basta a tesoura, o lápis e o tradicional saneamento. Devoristas de todo o mundo, uni-vos!

Depois do 25 de Abril de 1974, esses sinais de revolta foram particularmente sentidos com a resistência antigonçalvista de 1975, personificada tanto em Francisco Sá Carneiro, o aristocrata de Entre-Douro-e-Minho, como, de certo modo, em António Ramalho Eanes, o austero militar nascido na raia da Beira Interior. Depois disso, importa também sublinhar a ratificação popular da ascensão ao poder de Aníbal Cavaco Silva, o dito homem de Boliqueime.

A antinomia em causa, apesar de ter algumas manifestações na zona dita de esquerda, costuma ser mais evidente a nível daqueles a que os primeiros tentam apostrofar como a direita, distinção particularmente sentida no PSD. Lembremo-nos da oposição feita pelo Professor Sousa Franco entre os ditos rurais, então adeptos da emoção sá carneirista, e os ditos urbanos, que se diziam pela verdadeira social-democracia à alemã, segundo os modelos de Helmut Schmidt. Recordemos, também, as posteriores dissenções, dentro do cavaquismo, entre o Grupo de Lisboa, liderado por Marcelo Rebelo de Sousa, José Manuel Durão Barroso, José Miguel Júdice e Pedro Santana Lopes, e os grupos da província, apoiantes da aliança com o PS durante o Bloco Central.

Diga-se, de passagem, que esses tradicionais conflitos costumavam ser superados pelo recurso ao meio-termo da síntese coimbrã, onde os filhos dos rurais se alcandoravam ao clero universitário, através de uma subida na carreira académica, com uma dissertação de doutoramento ou um concurso para lente.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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