José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Messianismo
Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão num só diadema, e esta será a peanha da Cruz de Cristo.
Do hebraico meshiah, o messias. Doutrina da esperança que admite a chegada de um salvador que conduzirá o povo oprimido e a própria humanidade à respectiva libertação de um estado de degradação ou perdição. Tal como o milenarismo e o apocalipse, tem a ver com a escatologia, com o porvir, a esperança de uma plenitude nos tempos do fim, com a chegada do reino de Deus, misturando elementos míticos e éticos. Tem, aliás, a ver com apocalipse, termo de origem grega, onde oka-lypsis quer dizer o mesmo que revelar, que descobrir o que está oculto. Advoga, em geral, um quinto império, um reino de Deus que não será destruído e viverá para sempre, conforme o profeta daniel, uma espécie de império do poder dos sem poder, base de todas as histórias do futuro, especialmente sentidas em Portugal em momentos de decadência, o nosso normal anormal, que, conforme Pinharanda Gomes tem uma pendular oscilação, entre o pessimismo árabe e o messianismo hebraico. A crise de 1383‑1385 provoca a explosão do messianismo vem abalar pacientes tentativas de eliminação de heresias. Basta atentarmos nas teorias políticas expressas pelo nosso Fernão Lopes que não se coibe de considerar D. João I, o "mexias português". Trata‑se de um conjunto de ideias provindas do joaquinismo e de S. Ambrósio, mais ou menos, animadas pelo caldo herético de certo franciscanismo, com destaque para a biblia pauperum do século XII que vai levar o cronista a falar num "evangelho português" e a referir o começo da "sétima idade", com a vinda do Espírito Santo. Essa mistura explosiva que foi o franciscanismo com o messianismo, como aparece no Culto do Espírito Santo, permaneceu. Segue-se o messianismo bandarrista e, depois, o culto sebastianista. O Padre António Vieira, proclama que Portugal há-de ser império quinto e universal, como se prova com a fé dos históricos, com o juízo dos políticos, com o discurso dos matemáticos, com a profecia dos santos, com as tradições dos mesmos maometanos, para cuja prova se têm feito e escrito doutíssimos tratados. Mas messianista e gnóstico continuou a ser o positivismo, bem como o próprio socialismo, enredados no gnosticismo. Aliás, Guerra Junqueiro, conforme os relatos de Raul Brandão chegou a profetizar a vinda de uma espécie de D. Sebastião científico, como sucedeu ao caldo de cultura do comunismo, enquanto sucedâneo da religião. Talmon, Jacob Leib, Political Messianism. The Romantic Phase, Nova York, Praeger Press, 1960. Ventura, Margarida Garcês, O Messias de Lisboa. Um Estudo de Mitologia Política (1383-1415), Lisboa, Edições Cosmos, 1992. Desroche, Henri, Dieux d’Hommes. Dictionnaire des Messianismes et Millénarismes de l’Ère Chrétienne, Paris, Éditions Mouton, 1969. ?Idem, Sociologia da Esperança [ed. orig. 1973], trad. port., São Paulo, Edições Paulinas, 1985. , Imagined Communities. Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, Londres, New Left Books, 1983. Castoriadis, Cornelius [pseud. J. -M. Coudray], L’Institution Imaginaire de la Societé, Paris, Éditions du Seuil, 1975. Durand, Gilbert, L’Imagination Symbolique, Paris, Presses Universitaires de France, 1964. Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire. Introduction à l’Archétypologie Générale, Paris, Éditions Bordas, 1968 [trad. port. As Estruturas Antropológica do Imaginário, Lisboa, Editorial Presença, 1989]. Cohn, Norman, The Pursuit of the Millenium. Revolutionary Millenarians and Mystical Anarchists of the Middle Ages, Oxford, Oxford University Press, 1970 [trad. port. Na Senda do Milénio. Milenaristas Revolucionários e Anarquistas Místicos da Idade Média, Lisboa, Editorial Presença, 1981].
© José Adelino Maltez |

Última revisão:12-04-2009
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