José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Mistério
Wisdom and deep intelligence require an honest appreciation of mystery. L'intelligence est la faculté à l'aide de laquelle nous comprenons finalement que tout est incompréhensible
É preciso reconquistar certa metafísica do conhecimento que na Idade Média teve a forma de uma mística envolta em mistério e respeito
Sobre aquilo que não se pode falar é melhor calarmo-nos
O mistério envolve o homem que está sempre mergulhado no desconhecido. E mesmo antes de fazer ciência, é preciso crer na ciência (Jean Lacroix). O progressismo racionalista apenas aceita um tempo linear, que pode conduzir ao vazio. O mistério dá profundidade ao tempo, ao introduzir-lhe uma dimensão vertical. O tempo adquire sentido, passa a ser um tempo de revelação e de desvelamento. E Fernando Pessoa logo refere que as nações todas são mistérios. Porque o homem que está sempre mergulhado no desconhecido, o mistério envolve-nos de tal maneira que mesmo antes de se fazer ciência, é preciso crer na ciência, como assinala Jean Lacroix, contrariamente ao progressismo racionalista que apenas aceita um tempo linear, que quase sempre nos leva ao vazio. Com efeito, o mistério dá profundidade ao tempo, ao introduzir-lhe uma dimensão vertical, dando-lhe sentido, permitindo e permitindo tanto a revelação como o desvelamento. É assim que Fernando Pessoa refere que as nações todas são mistérios. Aliás, segundo Mircea Eliade, o mito conta uma história sagrada, referindo um acontecimento que teve lugar num tempo primordial, no começo, assumindo-se como um relato da criação. É uma alegoria ou uma fábula, que explica uma determinada ordem, alimentando, desta forma, o imaginário social. Para George Sorel, o mito como poesia social, é o conjunto das representações mobilizadoras de um grupo, enquanto Bronislaw Malinowski o considera como um instrumento de explicação e de justificação de uma situação de superioridade. Como justamente observa Paul Ricoeur, toda a razão tem um horizonte sobredeterminado pela crença, havendo um ponto, onde o racional comunica com o mítico, donde deriva toda uma constituição simbólica do laço social. Com efeito, toda a ética que se dirige à vontade para a lançar no agir deve ser subordinada a uma poética que abre novas dimensões à nossa imaginação. Eric Voegelin assinala também que a sociedade é iluminada por um complexo simbolismo, com vários graus de compactação e diferenciação - desde o rito, passando pelo mito, até à teoria - e esse simbolismo a ilumina com um significado na medida em que os símbolos tornam transparentes ao mistério da existência humana a estrutura interna desse pequeno mundo, as relações entre os seus membros e grupos de membros, assim como a sua existência como um todo. A auto-iluminação da sociedade através dos símbolos é parte integrante da realidade social, e pode mesmo dizer-se que é uma parte essencial dela, porque através dessa simbolização os membros da sociedade a vivenciam como algo mais que um acidente ou uma convivência; vivenciam-na como pertencendo a sua essência humana. Finalmente, Edgar Morin vem considerar que não podemos fugir ao mito, mas podemos reconhecer a sua natureza de mitos e relacionar-nos com eles, simultaneamente por dentro e por fora. Porque o problema consiste em reconhecer nos mitos a “sua” realidade e não a realidade. Em reconhecer a “sua” verdade e não em reconhecer neles a verdade. em não introduzir neles o absoluto. Em ver o poder de ilusão que segregam constantemente e que pode ocultar a “sua” verdade. Devemos demitificar o mito, mas não fazer da demitificação um mito. Julgo que, aqui e agora, tanto têm culpa os políticos como os técnicos. Porque ambos assentam naquele subsolo de ideias que, gerando uma concepção errada de ciência, nos levou tanto ao terrorismo da razão como ao consequente terrorismo de Estado, para utilizar conceitos de Albert Camus, em L'Homme Revolté, obra escrita no preciso ano do meu nascimento e que, juntamente com Citadelle , de Antoine Saint-Exupéry, foram meus livros de cabeceira durante os anos de 1974-1975. Todos quantos que continuam a comungar das patetices iluministas, utilitaristas e cientificistas e que ainda não estudaram Thomas Kuhn, não há meio de perceberem que andam por aí os novos paradigmas da contra-revolução científica e da consequente contra-revolução política. Eliade, Mircea, Mythes, Rêves et Mystères, Paris, Éditions Gallimard, 1957 [trad. port. Mitos, Sonhos e Mistérios, Lisboa, Círculo de Leitores, 1990]. ?Lacroix, Jean, Histoire et Mystère [ed. orig. 1962; trad. port. História e Mistério, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1967]. ?Quadros, António, Portugal, Razão e Mistério, 2 vols., Lisboa, Guimarães Editores, 1986-1987. äEscatologia.
© José Adelino Maltez |

Última revisão:12-04-2009
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