José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Neo-conservadorismo

 

A neoconservative is just a liberal who got mugged by reality. A neoliberal is a liberal who got mugged by reality but has not pressed charges

Kristol, Irving

 

Movimento de ideias que preparou e justificou, nos anos oitenta do século XX, a subida ao poder de Ronald Reagan, nos Estados Unidos da América, e de Margaret Thacher, no Reino Unido. Misturando algum populismo, que lhe deu o voto das chamadas classes conservadores, asssumiu uma certa leitura neoliberal das relações entre o aparelho de poder e a economia. Entre os principais teóricos do processo, Milton Friedman, Friedrich von Hayek, Jeane J. Kirkpatrick e Irving Kristol.

 

Kerry perde, vence a América profunda, rural, protestante e providencialista, aquela que acredita num encontro imediato com odestino manifesto, onde a terra de promissão continua a ser comandada pelas pradarias selvagens das puritanas gentes que não viram o DVD que o "Expresso" distribuiu. E lá ficam sem adjectivos os que qualificam João Paulo II como ultra-conservador, porque o papista J. F. Kerry estava bem mais à esquerda do que George W. Bush, naturalmente, ainda mais da ultra-direita que o bispo de Roma. Os que acreditaram no democrata como salvador do planeta, com molho Heinz, e como o factor externo capaz de substituir, na gestão do processo político português, a nossa vontade própria, têm, naturalmente, de concluir que, mais uma vez, não foi desta que chegou o D. Sebastião, capaz de voltar a dar entusiasmo às análises de Mário Soares no circuito fechado do respectivo conceito de sociedade aberta. 

Porque não sou cidadão da república norte-americana, nem súbdito mental do império global que a respectiva faceta de superpotência gerou, olhei a pugna eleitoral recente como um processo que me era estranho, mas ao qual, infelizmente, não podia ser alheio. Contudo, preferia Kerry, porque sendo velho conservador, não gosto de neoconservadores e fui muito influenciado pelos artigos recentes de Pat Buchanan. Tenho agora de concluir como nós, portugueses, já estamos interiormente manietados pela insensível colonização que tal república imperial vai semeando. 

Mais do que o peso financeiro ou das armas, sinto-me comprimido pela "american way of thinking" que se transformou num padrão que quase todos os fabricantes de símbolos da nossa praça vão identificando com a modernidade, o progresso, a felicidade e a ciência. Os comentadores de obra feita e os fazedores de opinião desta nossa democratura até terminologicamente mostram essa filiação e quando pensam que pensam revelam quão fundo foi essa lavagem dos respectivos receptáculos mentais. Transformados em involuntários agentes colonizadores desse novo poder global, ei-los que contribuem para o apagamento das memórias que nos davam a emoção de sermos autónomos. 

Muitos não reparam que qualquer cultura, quando se sente ameaçada pela extinção, tem a tentação de renascer pela via daquilo que o centro colonizador logo qualifica como fundamentalismo e que este, quando sai dos estreitos limites do mero exercício intelectual ou educativo, pode ter a tentação de recorrer ao próprio terrorismo. Quando se intensifica o imperialismo e o colonialismo, as vítimas do processo tendem a gerar uma reacção de sinal contrário, onde a postura dos chamados vencidos tende a ser directamente proporcional à violência exercida pelos vencedores. E onde os espaços físicos e mentais dos que ficam dependentes do centro imperial tanto passam a províncias (isto é, de terra vencida, de "vincere", etimologicamente falando) como a regiões (isto é, de terra regida, de "regere").
 

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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