José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Ocidentalismo

 

 

O orientalismo é centrípeto, constituindo um círculo fechado que nunca pode expandir-se, enquanto o ocidentalismo é centrífugo, como os braços da cruz abertos aos quatro ventos

Chesterton, Gilbert Keith

 

Não somos nem do Oriente nem do Ocidente, nem nos dizem respeito as tradições de um ou do outro

Tchaadaev, Piotr

 

 

Movimento reformista russo nascido na tempo de Nicolau I e que se opunha aos eslavófilos. Destacaram-se Herzen e outros socialistas que seguiam Saint-Simon e Proudhon. Dissolveu-se em 1848, em virtude de ferozes perseguições policiais.

 

Uma dessas obsidiantes divisões do mundo, também ditas fracturas, ou clivagens, prende-se como o chamado conflito Oeste/Leste, com essa perspectiva consolidada durante a chamada Guerra Fria, onde se teria oposto o mundo livre ao dito comunismo, mas onde se retomava uma mais antiga dicotomia Ocidente/Oriente. Uma questão que nunca teve a ver com formas de oposição entre entidades geográficas, mas sim com disputas entre formas espirituais, onde sempre predominou uma espécie de russofobia.

 

Neste sentido, um intelectual vindo do próprio Leste, o lituano Hermann Keyserling (1880-1946)  falava mesmo na Rússia como a Eurásia, onde o gosto da destruição e a santidade, a crueldade aguda e o heroísmo não se sustentam senão quando se opõem, desafia todas as definições e escapa mesmo às classificações habituais. Sim, a Ásia começa aí, ao mesmo tempo que a Europa acaba, o Oriente e o Ocidente aí se misturam estreitamente, formando um continente, ao mesmo tempo explosivo e amorfo (1934, pp. 130-131).

 

Quem continuar a alinhar inadvertidamente neste preconceito não pode esquecer que muito do orientalismo assumido pelo imperial-comunismo dos russos também não passou de um hábil discurso de justificação do respectivo expansionismo para Leste. Era, por exemplo, o caso de Lenine (1870-1924) quando proclamava: voltemo-nos para a Ásia; venceremos o Ocidente com o Oriente (Maltez, 1993, p. 29).

 

Esta moda vinha, aliás, dos próprios alemães que, pelo menos, desde Johan Gottlieb Fichte (1762-1814), trataram de proclamar o orientalismo dos germânicos. Posição que, depressa, foi esquecida logo que o inimigo passou a estar ainda mais a Oriente, como aconteceu com Hitler (1889-1945), quando enfrentou Estaline (1879-1953), ou com os russos, quando se enredaram no chamado conflito sino-soviético, depois de, no começo do século XX, terem sido a primeira potência europeia que sofreu uma derrota militar clássica perante um adversário asiático, neste caso, os japoneses.

 

De qualquer maneira, importa dizer que, no final dos anos vinte do século anterior, a cultura europeia ocidental foi interiormente agitada por uma dialéctica decadentista, onde alguns intelectuais, ao vislumbrarem o pretenso vitalismo das civilizações orientais, pensaram poder regenerar-nos, expatriando-se, através do culto do exótico. Os mesmos meandros depressivos afectaram outros que, pelo contrário, trataram de peregrinar as raízes e o imanentismo do seu próprio chão cultural, reagindo pela chamada defesa do Ocidente que, não raras vezes, acabou por ceder as formas de mero despotismo oriental.

 

Se no partido orientalista alinharam nomes como René Guénon (1886-1951) e Romain Rolland (1886-1944), já no partido ocidentalista foram marcantes Charles Maurras (1868-1952), Henri Massis (1886-1970), Eugenio D'Ors (1882-1954) e G. K. Chesterton (1874-1936). Este último, por exemplo, chegou a considerar que o orientalismo seria centrípeto, constituindo um círculo fechado, que nunca poderia expandir-se, enquanto o ocidentalismo, pelo contrário, seria centrífugo, como os braços da cruz, abertos aos quatro ventos (Maltez, 1993, p. 29).

 

O poeta belga Maurice Maeterlinck (1862-1949), Prémio Nobel em 1911, atingiu o cúmulo antropomórfico, ao proclamar que o conflito entre o Oriente e o Ocidente equivaleria à própria divisão do cérebro humano, onde o lóbulo ocidental seria o produtor da razão, da ciência e da consciência, enquanto a vertente oriental segregaria a intuição, a religião e a subconsciência.

 

Não tarda que os geopolíticos cometam os mais variados atentados contra a própria geografia, principalmente quando, a partir de uma fronteira espiritual, como o foi a cortina de ferro, construíram uma Euroamérica, o Ocidente, e uma Eurásia, o Leste. O que se agravará substancialmente quando, por razões económicas, passou a incluir-se o Extremo Oriente japonês no próprio conceito de Ocidente, obrigando a imaginosas, embora justas, qualificações, mais estratégicas do que geopolíticas.

 

Apenas diremos que o Oeste e o Leste fazem parte da circular rosa dos ventos da história, constituindo metáforas, ou posições relativas, face ao espírito e apenas tendo servido como símbolos políticos. O Oriente, na Europa Ocidental, surge quase sempre quando as teorias dominantes de explicação do universo começam a definhar. Foi assim no século XVIII, com o neo-paganismo superficial de alguns iluministas; voltou a sê-lo, em força, no século XIX, com o romantismo e certo budismo germânico, de Schopenhauer (1788-1860) a Richard Wagner (1813-1883), quando se procurou uma espécie de Oriente espiritual que sempre quis dizer o outro lado, essa necessária pesquisa de um lugar onde, capaz de compensar o desencanto do aqui e agora.

 

Nesse sentido, haverá sempre, no Ocidente, procuras do Oriente que, no fundo, significam uma tentativa de revivificação do próprio chão moral onde queremos situar-nos. Com efeito, quando se buscam Orientes como o Budismo, a Negritude, o Confucionismo, o Taoísmo, o Bolchevismo, o Maoísmo ou os próprios Dissidentes Russos, quase sempre se procuram alternativas à frustração da modernidade pós-cartesiana.

 

Assim, se os ocidentalistas russos proclamavam, conforme as palavras de Aleksandr Herzen* (1812-1870), que o russo era um homem da outra margem, que devia caminhar para Oeste, isto é, para as ideias que, então, dominavam no centro da Europa, já os estrangeirados portugueses sempre disseram o mesmo, através do exacto contrário, que devíamos caminhar para Leste, na via da integração europeia.

 

No tempo do Iluminismo, tínhamos de adequar-nos às nações cristãs, polidas e civilizadas, isto é, ao despotismo esclarecido, principalmente do josefismo austríaco. Durante o orgulhosamente sós do salazarismo era assumir-nos como europeístas, isto é, contra a visão euro-africana de Portugal. Já mais recentemente, depois de 1974, era sermos um modelo político feito à imagem e semelhança das democracias da Europa connosco, transformada em prioridade das prioridades..

Veja-se, por exemplo, o conceito anticomunista consagrado por Henri Massis em La Défense de L'Occident, de 1927, que tão acarinhado foi pela retórica salazarista, o qual até nem reparou que, na fase pós-estalinista da URSS, havia mais convictos comunistas na Europa Ocidental que nos países ditos de Leste. É assim que em discurso de 14 de Agosto de 1936, António de Oliveira Salazar (1889-1970) dizia: nós somos filhos e agentes duma civilização milenária que tem vindo a elevar e converter os povos à concepção superior da própria vida, a fazer os homens pelo domínio do espírito sobre a matéria, pelo domínio da razão sobre os instintos. Mas o mesmo político, em plena guerra ultramarina, quando se apostava, de forma maximalista, na integração dos territórios europeus e africanos num único espaço, não se coibia de proclamar: somos cada vez menos um país apenas europeu e tendemos cada vez mais a sê-lo cada vez menos.

 

Todos estes preconceitos que nos dividiram entre um Leste e um Oeste e que obrigam outros a procurar uma espécie de Mitteleuropa, onde se situaria o coração do continente, não passam de exercícios metafóricos, actuando sobre a abstracção planisférica de um mapa, onde podemos inverter de forma arbitrária todas as posições e até fazer como Luís de Camões, colocando Portugal como a cabeça da Europa toda.

 

Contudo, se virmos a Europa como simples parcela de uma esfera em movimento, poderemos observar que, nesse tipo de corpo, não pode haver periferias. Aliás, Portugal, se é periférico face a certas concepções planisféricas da Mitteleuropa, se está situado a Ocidente do próprio Ocidente, acabou por ser ponto de partida para outras viagens, que tanto o fizeram chegar mais perto do Oriente, como, ao Mundo, deram um Novo Mundo, ainda mais a Ocidente.

 

Não podemos é deixar de reconhecer que, em termos geográficos, nenhuma teoria conseguiu, até agora, limites consensualizados para a Europa. Com efeito, os próprios geógrafos parecem não subscrever a célebre diatribe de Bismarck (1815-1898), para quem a geografia é a única verdade da Europa. O único ponto de acordo que, neste domínio, consegue atingir-se é o da consideração da mesma Europa como uma península, como uma presqu'île, que, vinda da Ásia, se perde no mar, de maneira que a terra europeia se assume como o mais marítimo e o menos continental, de todas aquelas grandes ilhas do mundo a que damos o nome de continentes.

 

E o consenso científico dos mesmos geógrafos parece vir de longe. Já em 1725, Noblot qualificava a Europa como uma grande península, coisa que será posteriormente repetida. Assim, em 1816, V. A. Malte Brun (1775-1826) utiliza a expressão prolongamento da Ásia. Raoul Blanchard (1877-1965), em Géographie de l’Europe, Paris, Alcan, 1936, refere-a como península do vasto continente asiático. Coincidem, aliás, com aquele golpe de asa poético de Paul Valéry (1871-1945) que, na sua La Crise de l'Esprit, de 1919, salientava que a Europa não passaria de um petit cap du continent asiatique, de uma étroite presqu'île que ne figure sur le globe que comme appendice de l'Asie. Essa parte ocidental, acidentada, da península asiática, a que chamamos Europa

 

Contrariando esta perspectiva, têm vindo alguns autores recentes a decretar fronteiras para o Leste Europeu. É o caso de Otto Molden, que afasta, da Europa, a Ucrânia, a Bielorrúsia e Rússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos (1990). Ou de Krzystof Pomian, que fala num limite que passa a leste da Finlândia, dos países bálticos e da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a ex-Jugoslávia em duas, com a Sérvia de um lado e a Croácia de outro, porque a significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado, a igreja latina, do outro, a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países (1990).

 

Qualquer um destes autores da Mitteleuropa toma uma atitude paralela a certos ocidentalistas dos anos trinta do século XX. Um deles, o suíço Gonzague de Reynold (1880-1970), passou a considerar que, depois da revolução russa, a fronteira da Europa recuou de novo para o centro desta; a Rússia tornou-se asiática, mesmo mais do que asiática, ela é a anti-Europa. Contudo, tanto a Comissão Europeia como o próprio Conselho da Europa, rejeitando as fórmula simples, têm preferido adoptar uma definição aberta da Europa.

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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