Poder político
O Poder Político é um
complexo de funções com significação estrutural estratégica
Parsons, Talcott
O poder político
só pode ser perspectivado através de uma dimensão simbólica, globalista e
institucionalizada que o entenda como uma representação quanto ao futuro
esperado (Burdeau). Há assim uma substancial diferença entre o poder em
geral (power) e o poder político (political power). Este é uma
relação entre poderes, sendo usado por um poder para influenciar,
condicionar ou congregar outros poderes; não é uma coisa, é uma
relação entre vontades que utilizam os recursos materiais e imateriais à sua
disposição (Adriano Moreira). É relação institucionalizada onde se
integram as relações entre actores com recursos desiguais. Neste çabor
conceitual, desempenhou tarefa de relevo o institucionalismo. Na verdade, o
poder político é algo que serve uma ideia-força, comungada pelos
membros do grupo e exigindo a adesão dos mesmos a um fim duradouro, um
estatuto e uma série de regras processuais. Na mesma senda, Talcott Parsons
define o poder como um complexo de funções com significação estrutural
estratégica, exigindo liderança, autoridade e regras. Importa também
atender à iluminação que a política internacional e a teoria das relações
internacionais trouxeram para a definição global de poder, nomeadamente para
a distinção entre o poder das grandes potências, o poder funcional e
o poder errático
Com
efeito os produtos do sistema político, as decisões políticas, não se reduzem às
clássicas funções estaduais (o fazer regras do poder legilativo ou rule making,
o executar programas do governar ou rule application, e o aplicar regras em
situações contenciosas do rule adjudication ou poder judicial), dado que há um
outro campo de produção de tal sistema, a comunicação política, a troca de
informação entre governantes e governados, bem como a própria troca de
informação horizontal entre os governados.
Por
outras palavras, a função de comunicação política é, ela própria, tanto um
produto nitidamente político, como o sangue irrigador dos canais nevrálgicos do
próprio interior do sistema político.
Com
efeito, a troca de informação, constitui o fluído através do qual se procede à
irrigação do sistema de nervos estadual, sendo, por isso, o elemento fundamental
do sistema político.
A
questão da informação, da circulação da informação e do controlo da informação,
constitui a questão fundamental do sistema político. Aliás, governar é proceder
à retroacção da informação. É converter os inputs em outputs, converter os
apoios e as exigências em decisões políticas.
É
pela informação, pelos sensores dos centros de recepção de dados, que o sistema
político contacta com o respectivo ambiente, com os outros subsistemas sociais e
com os outros sistemas políticos.
É
pela operação de processamento de dados, confrontando mensagens do presente com
informações arquivadas no centro da memória e dos valores, que o sistema
político pode, ou não, adquirir autonomia e identidade.
É
depois, no estado maior da consciência, onde se selecciona a informação presente
e passada e se confronta este conjunto com as metas programáticas, que o sistema
político prepara a pilotagem do futuro em que se traduz a governação.
Os
meios de comunicação social não são pois sociedade sem política, não são
comunidade sem poder. Todos os meios de comunicação social são meios de
comunicação política. Eles estão, aliás, no centro da política. São uma das
principais bases da política, mesmo que a respectiva titularidade seja privada.
O
processo político, o processo de conquista do poder, se adoptarmos uma
perspectiva da poliarquia pluralista, consiste num processo de conquista da
adesão do governado.
O
processo político não se reduz à luta pelo poder supremo ou à conquista do poder
de sufrágio. O processo político é global e desenrola-se em todo o espaço
societário.
O
poder político não é uma coisa, é uma relação. Uma relação entre a república e o
principado, entre a comunidade e o aparelho de poder e destes com um determinado
sistema de valores.
Tal
como o Estado, enquanto quadro estrutural de exercício do poder, enquanto
estrutura de rede ("network structure"), enquanto espaço de regras do jogo e de
enquadramento institucional do processo de ajustamento e de confronto entre os
grupos, não é também uma coisa, mas antes um processo.
O
poder político é, conforme a clássica definição de Weber, uma estrutura complexa
de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso. Isto é, um
poder político, ao contrário das restantes formas de poder social, implica que
haja uma relação entre governantes e governados, onde o governante exerce um
poder-dever e o que obedece obedece porque reconhece o governante pela
legitimidade deste. Em suma, o poder político vive sobretudo da obediência pelo
consentimento. Assim, o espaço normal
do processo político é o da persuasão. O da utilização da palavra para a
obtenção da adesão e do consentimento.
Só
quando falha este processo normal de adesão comunicativa é que o governante
trata de utilizar a persuasão com autoridade, com o falar como autor para
auditores, onde o autor está situado num nível superior e o auditor no nível
inferior da audiência.
Num
terceiro passo vem a astúcia. Isto é, quando falha a comunicação pela palavra,
mesmo que reforçada pela autoridade, vem o engodo, a utilização da ideologia, da
propaganda ou do controlo da informação.
Só
como "ultima ratio" se utiliza a força física ou psicológica, o uso efectivo da
mesma ou a ameaça da respectiva utilização para obter o consentimento. Para
forçar à obediência independentemente do consentimento.
Podemos
pois dizer que o normal da chamada conquista do poder é conquistar a palavra.
Que o chefe é aquele que discursa. Aquele que, pela palavra, tenta transformar o
conceito em preceito. Que tem a natural tentação de controlar o programa de
debates. De dizer que deixa dar todas as respostas, mas que tem a natural
tentação de só ele ter o poder de fazer as perguntas.
Chefe
é aquele que utiliza os recursos da fase invisível do poder. Que convence os
auditores, nomeadamente fingindo que actua de acordo com os respectivos
interesses e que, para tanto, até cria interesses artificialmente.
A
comunicação social é assim o cerne do combate político. Porque em política o que
parece é. Melhor dizendo, em política o que aparece, na comunicação, é aquilo
que é.
É
pois inevitável o nível de compenetração entre a classe política e a classe
mediática. Compenetração que tanto gera coincidências como conflitos, com as
inevitáveis relações de amor-ódio. E que dizer da nossa democracia, cada vez
mais emaranhada nas teias do videopoder, do Estado Espectáculo e da
teledemocracia?
Quem
controla a produção de signos controla o poder. Os novos clérigos são cada vez
mais os "opinion makers" do videopoder e os anónimos fazedores dos dicionários
de opinião comum, o "thesaurus" donde aqueles retiram os argumentos, os lugares
comuns, os conceitos, as interpretações dos factos e as palavras.
O
púlpito foi substituído pela caixa televisiva. O comentador substituiu o
retórico, o histriónico passou a dominar os picaretas falantes e uma salada
russa ideológica do politicamente correcto passou assim a impor-se à moral do
esforço interior de libertação, como manancial das regras de conduta justa.
Os
próprios debates televisivos passaram a ser mais importante que os debates
parlamentares.
Os velhos armazéns da memória de um povo, como eram a família, a universidade, o
adro da igreja ou do pelourinho das comunidades locais, tendem a ser
substituídos pelos arquivos de fast food dos chamados opinion makers que
traduzem em calão as ideias vindas de centrais de condensação neo-enciclopédicas
com as suas lendas negras.
O
papel de controleiro e repetidor passou a caber aos canalizadores oficiosos da
opinião, previamente demarcados por quem organiza o programa dos debates e que
assim limita o âmbito das escolhas.
Eles
impõem-se-nos, assim, como prontos a vestir tendencialmente bipolarizados, mesmo
que lhes coloquemos ao lado o elemento decorativo do pária, do marginal ou do
extra-sistémico. Temos os políticos que a classe mediática merece e a classe
mediática que os políticos que temos também merece. Depois de uma crise do
discurso sem sujeito (o tempo das ideologias dos anos do Maio 68), vivemos o
espectáculo do sujeito sem discurso (o tempo do artista mediático, onde vale
mais o continente do que o conteúdo).
A
solução é só uma. Devolver o discurso ao sujeito, devolver a palavra ao
discurso, devolver ao homem a palavra. Só assim podemos regressar à política
como comunicação e retomarmos a política como coisa do homem, desse animal
comunicacional que além dos grunhidos animais, que expressam a dor e a alegria,
também é capaz de exprimir o útil e o inútil, mas que não se fica pela
racionalidade técnica, dado que teve de construir a política para expressar o
justo e o injusto da racionalidade ética que, afinal, constitui o cerne daquilo
que no homem tende a subir e a convergir, para cima e para dentro, para uma
evolução que é cada vez mais humana e, portanto, mais centrada nas leis que
estão inscritas no coração dos homens.
Poder Político
(Infante D. Pedro, 1418)
O
poder político é designado por poderyoo,
governança, regimento, senhorio e mayoria:
senhorio he propriedade excellente q poem mayoria em o q tem
respeyto de algua sogeyçom que outrem suporta. E per illa he governado
instamente o politico e comun regimento daquesta vida.
Porque se o poderyo em abstracto procede de Deus, conforme S. Paulo,
já o poder em concreto, aquilo que designa por dominium politicum,
distinguindo-o claramente do dominium servile, próprio da
escravatura, é outorgado ao rei por consentimento do povo e tem de servir o
bem comum, adoptando-se assim as teses do imperium a Deo per homines. Considera que o
dominium politicum é exigido pela necessidade, que o
homem tem de exigir para viver, esse algo de ordenador, aliquod regitivum,
que dimana directamente de Deus e já existiria antes do pecado original, ao
contrário do dominium servile que é próprio de pecadores. Entre os
dois tipos de dominium coloca o poder real, considerado hum senhorio que
he meio antre os dous sobreditos, nem tras em sy tanta liberdade, como o
primeyro, nem tanto soingamento como poem o segundo. Este senhorio
que por aazo do pecado começou em o mundo he ia tornado em natureza.O
principe é visto como natural tetor de seu poboo e todos os senhores
som padres da comunydade en que os sobieytos uiuen, reçebendo corporal
governança. Até porque, aos reis, lhe outorgou deos o regimento
e os homens conssentirom que sobrelles fossem senhores. Distingue também
entre o principe singularmente, isto é, a pessoa do Principe, e o
principe com toda a comunidade da sua terra por meio do qual se
actualiza na terra o ordenamento divino pois exerce o seu poder em o
stado moral que perteece aa governança do mundo, cabendo-lhe trabalhar pollo proueyto dos que a elle ficam sobiectos,
o dever de
exercer a virtuosa benfeitoria.O principe é também um tutor que tem
Fortaleza, Justiça, temperança e prudência e os súbditos o dever da
obediência. Pelo que tem de existir convenhavel proporçom antre o
principe e o seu senhorio e um comuu rregimento, de que uem a todos
proveytosa liança". Finalmente considera que o rei desempenha um ofício
cujo fim é a promoção do bem do povo, pelo que deve ser assistido por um
conselho participado pelos três estados do reino.
Poder pré-político
Entre as formas
pré-políticas de poder, está o poder doméstico, a chefatura e o poder nu.
© José Adelino Maltez