José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Racionalismo
Movimento desencadeado por Descartes em torno do chamado esprit geométrique e da raison raisonnante. Os homens são tratados como grandezas descontínuas, quase como números, enquadráveis em ideias absolutas. Surge assim um racionalismo calculista e utilitarista, consagrado por Thomas Hobbes, segundo o qual, conhecendo-se os elementos de que é constituído um objecto, conhece-se também o objecto, marcado por um preconceito mecanicista que reduz a ciência a explicar aquilo que funciona. Adopta-se o mero conhecimento matemático e o simples método analítico, aquele que sobe dos efeitos para as causas, que decompõe cada coisa em elementos e que, depois, tem a ilusão de obter o todo pela recomposição dos elementos, pela soma das partes. Thomas Hobbes, por exemplo, proclama que a razão nada mais é do que cálculo, do que adição e subtracção de consequências, essa previsão de consequências a que cada um se entrega. Mas, ter razão talvez não seja apenas actuarmos com tal razoabilidade até porque ela não é apenas filha da necessidade. Os homens não se reduzem apenas à proporção entre o movimento e o repouso. Cada homem não é apenas algo que está continuamente submetido ao impacto dos múltiplos e variados corpos que o rodeiam. Os homens não são apenas bolas de bilhar, meros átomos homogéneos, sujeitos ao determinismo do movimento, à anarquia das forças. A razão também é unidade de teoria e de acção. Precisa da acção, precisa da paixão, precisa da imaginação. Doutro modo, não nos parece possível a conquista da autonomia metodológica da ciência política. Doutro modo talvez não seja possível a cientificidade da ciência política, porque é impossível tanto uma matemática da política como uma física da política, como salienta Ernst Cassirer.
A política torna-se susceptível de um tratamento diluível na matemática. Gera o conceito de Estado Moderno entendido como um espaço da razão, dotado de uma geometria, o território, de uma aritmética, a população, e de uma série de combinações entre esses dois termos, potenciadas pelo poder político. O mundo passa, assim, a ser visto, não como um ser animado, mas como uma grande máquina, e como tal decomponível. O Estado, composto de elementos (v. g. população, território e governo), visando determinados fins (v. g. justiça, bem-estar e segurança) passa a ser também decomponível pela regra da análise e recomponível através de operações de síntese.
© José Adelino Maltez |

Última revisão:12-04-2009
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