José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Radical

 

A expressão tem servido para qualificar alguns partidos e movimentos políticos. Tem origem no latim radix, radicis, raiz. Começa a usar-se nos finais do século XVIII em França e na Inglaterra, abrangendo  todos os que, contra o ancien régime, propunham uma reforma absoluta da política e da sociedade. Passou a significar idêntica postura face a todo o situacionismo, ao status quo.

Na Inglaterra domina um radicalismo filosófico que inspira as reformas de 1832 e 1834 e a axpressão qualifica aqueles filósofos que pretendem transformar as ideias liberais em leis de reforma, abrangendo a chamada esquerda liberal inspirada por Bentham e representada por James Mill, John Stuart Mill, David Ricardo e John Austin.

Segundo a tradição francesa, a partir da República Radical de 1899, radical traduz a ideia do radicalmente republicano, não no sentido jacobino, mas, pelo contrário, visando a promoção do pluralismo, da tolerância e do compromisso. O modelo, protagonizado por Édouard Herriot, em nome do francês médio e do homme quelconque, foi especialmente retomado nos anos setenta do século XX por Jean-Jacques Servan-Schreiber que em Janeiro de 1970 lança um novo Manifesto Radical.

Já em sentido anglo-saxónico, o radicalismo tem, hoje, o sentido contestatário, cobrindo movimentos que pretendem uma alteração da ordem sócio-política ou que se colocam na margem do sistema, reassumindo-se, neste sentido, o chamado radicalismo filosófico de Bentham e dos utilitaristas. Em Itália, nos anos oitenta deste século, passou a usar-se esta conotação, apesar do partido radical acabar por integrar o movimento de direita. A expressão pode também significar um movimento extremista de direita ou de esquerda.

Também entre nós a expressão não é normalmente usada com a conotação francesa de centro-esquerda, dado ter quase sempre como sinónimo a de extremismo ou de irredentismo, até pela história dos grupos que a invocaram. Radicais começaram por ser os liberais opositores ao sistuacionismo chamorro de 1834-1836 e, depois de 9 de Setembro de 1836, os opositores à moderação de Sá da Bandeira e Passos Manuel, também ditos exaltados e irracionais. Como radical também se qualificou um pequeno partido republicano da esquerda que teve algumas ligações ao autubrismo. Isto é, de acordo com a tradição portuguesa, a palavra marca os grupos da extrema-esquerda admitidos pelo sistema. Neste sentido, radical é aquele que pretende erradicar, que pretende arrancar pela raiz tudo aquilo que existe e não ir à raiz para regenerar e reavivar o sentido do todo.

Finalmente, ao dizer-me radical, opto pela anti-centrista postura do centro excêntrico e tento seguir a lição de Miguel de Unamuno, para quem nós, ocidentais, o que primeiro somos é anti. Depois é que resolvemos o que havemos de ser. Porque, nos princípios, tem que estar o fim, há que continuar a ser heterodoxamente do contra, contra a direita que convém à esquerda e a esquerda que convém à direita, isto é, ser um radical do centro.

Até porque, antes de eu ser de esquerda, ou de direita, já era da Pátria. A Pátria é a minha política, como dizia Passos Manuel, em carta dirigida a José da Silva Carvalho, em Novembro de 1836. Isto é, tenho que ser nacionalista por princípio e apenas partidário por mera conclusão. Porque o facciosismo doutrinário, axiológico ou ideológico, é apenas a necessária diferença que permite a mais valia da unidade viva, de uma democracia assumida como institucionalização de conflitos, como unidade na diversidade.

Logo, ser radicalmente democrata, isto é, fazer a defesa moral da liberdade individual contra a tirania do Estado, implica reconhecer que se o poder enlouquece, o poder absoluto enlouquece absolutamente, como nos ensinou Alain. Ser radicalmente democrata não significa ter que seguir a concepção de democracia do jacobino, nem, pelo contrário, reduzi-la a um ao processualismo das teorias da legitimação, a um mero conjunto de regras do jogo, quando ela tem que ser compreendida, pensada e amada, como uma democracia ética, civicamente enraizada.

 

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© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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