José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Razão Valorativa

 

 

 

A razão não é apenas o cálculo utilitarista dos rácios, onde são hábeis as tecnocratices falaciosas dos que espreitam as janelas de oportunidade, frequentes em todas as épocas de decadência, e onde pululam muitos seres de inteligência intermediária, marcados pela inveja, que se consideram superiores às personalidades de refugo que acabam por ascender ao Olimpo ministerial. A razão que nos falta é, sobretudo, a razão da emoção, a racionalidade valorativa de que falava Max Weber, aquele impulso de alma que é capaz de dar, a uma instituição, a respectiva ideia de obra, mobilizando os membros da mesma, em nome de uma comunhão, vivida em torno das coisas que se amam. Que venham os arquitectos da esperança, esses radicais nos objectivos para quem a política ainda pode rimar com verdade, justiça e fé.

 

Os conservadores, nascidos da luta contra os modelos do Iluminismo e da Revolução Francesa, reagiram contra o entendimento racionalista desta. Com efeito, a Revolução Francesa, na senda o anterior Iluminismo que pretendia levar a cabo uma empresa de matematização do universo físico, visando cumprir o programa de Descartes do homem como maître et seigneur de la nature, tentou, através do conceito de revolução, transformar o homem em dono da sociedade, como salienta André Glucksmann. Neste sentido, o cientificismo, enquanto tentativa de colocar as ciências morais ou as ciências humanas nos carrilhos metodológicos das ciências físicas ou ciências da natureza, é um dos legados desse revolucionarismo.

 

Contra este modelo ergueu-se o conservadorismo, invocando o realismo contra o racionalismo. Benjamin Disraelli (1804-1881) chegou mesmo a proclamar, em 1844: não devemos à razão do Homem nenhuma das grandes conquistas que constituem os marcos da acção e do progresso humanos. Não foi a Razão que fez o cerco a Tróia; não foi a Razão que lançou os serracenos do deserto na conquista do mundo, nem quem inspirou as Cruzadas, nem que instituiu as ordens monásticas; nem quem fez nascer os jesuítas; sobretudo, não foi a razão que produziu a Revolução Francesa. O Homem só é verdadeiramente grande quando actua movido pelas paixões; só é irresistível quando apela para a imaginação. Também Keith Feiling, considerava, em 1913, que o conservador é simultaneamente realista e anti-racionalista: não confiamos nem devemos confiar na razão humana; foi ela que levantou uma cruz no Calvário e que levantou um cálice de cicuta…

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info