José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Religiões Mundiais

 

 

Outro importante segmento das relações internacionais tem como actores as igrejas e os movimentos religiosos, os quais, pela sua própria natureza, nunca se adequaram à compartimentação estadual do mundo.

Basta recordar o perfil formal que a Igreja Católica assume perante as relações internacionais contemporâneas, após a unificação italiana, que eliminou os Estados Pontifícios, e o Acordo de Latrão, que reconheceu a existência de um Estado do Vaticano.

Mas essa formal monarquia electiva não é apenas um pedaço de território, anexo à Praça de São Pedro, em Roma, dado que o respectivo povo se reparte por muitos povos estadualmente conformados, assumindo uma autoridade que nada tem a ver com legiões armadas ou produções económicas.

Aliás, dentro de cada Estado, algumas actividades católicas chegam mesmo a assumir a dimensão de um tertium genus, distinto do público e do privado, e a que o rigor da nossa dimensão jurídica atribui o qualificativo de concordatário, situado, muito correctamente, no âmbito do direito internacional público.

A Igreja Romana que assumiu a liderança da construção de uma unidade superior às comunidades políticas existentes, promovendo a Restauração do Império Romano, foi também um dos focos da elipse daquela res publica christiana que, durante séculos, nos deu a unidade ocidental. E, apesar da Reforma, do Iluminismo e do cientificismo, eis que a mesma instituição apareceu depois da Segunda Guerra Mundial como um dos principais sustentáculos de um projecto europeu marcado por personalidades de cunho democrata-cristão. Basta recordar a filiação de Robert Schuman (1886-1963), Konrad Adenauer (1876-1967) e Alcide de Gasperi (1881-1954), três dos pais-fundadores do actual movimento de unificação europeia.

Do mesmo modo, importa sublinhar o papel infra-estrutural da Igreja Católica sobre os movimentos profundos que, na sociedade, levaram à implosão dos sistemas comunistas e aos acontecimentos de 1989, onde as chamadas legiões do Vaticano apareceram sempre na vanguarda da coragem, como se o Papa de então não fosse o antigo cardeal de Cracóvia, Karol Woytila (1920-).

Finalmente, refira-se a acção que a mesma instituição tem mantido no tocante à aliança global com os pobres e os injustiçados. Porque, sob a liderança de um papa que veio do Segundo Mundo, a maioria dos membros do colégio cardinalício, cabe hoje ao grupo do chamado Terceiro Mundo.

Se a Igreja Católica é a principal força dos movimentos cristãos, importa assinalar o espaço representado tanto pela pluralidade dos movimentos protestantes, como pelos chamados ortodoxos. Refira-se, aliás, que várias igrejas protestantes constituíram, no Congresso de Amsterdão, de 1848, um Conselho Ecuménico das Igrejas, alargado aos ortodoxos em 1961.

Segundo dados constantes da World Christian Encyclopedia. A Comparative Survey of Churches and Religions. AD 30 to 2200, Oxford University Press, coord. de David Barrett, os cristãos representam 33% da humanidade (2 015 milhões), seguindo-se o Islão, 20% (1 215), os hindus, 13% (786), os budistas, 6% (362). Discriminando os cristãos, há cerca de 17,3% de católicos (1 027 milhões), e 3,6% de ortodoxos (213,7 milhões), enquanto os protestantes, incluindo os anglicanos, representam cerca de 6,4% da humanidade.

O nome protestante nasceu do facto de cinco príncipes e catorze cidades da Alemanha imperial terem protestado contra Carlos V, em 1529, na dieta de Espira, quando este queria revogar as concessões anteriores e restaurar a hierarquia e o culto romanos. Várias igrejas assumem essa herança da chamada Reforma: os luteranos, que assumem a Confissão de Fé de Melanchton de 1530, estruturados desde 1947 na Federação Luterana Mundial; os calvinistas, mais fortes em França e na Suíça; os presbiterianos escoceses, baseados na denúncia da jurisdição do papa, feita pelo parlamento escocês em 1560, adoptando uma confissão de fé preparada por John Knox; os anglicanos, ou Igreja de Inglaterra, dissidentes de Roma, a partir de Henrique VIII; os baptistas, a partir de John Smyth (1570-1612); os metodistas, fundados em 1739 por John e Charles Wesley; os quakers, lançados por John Fox, por volta de 1650; os pentecostistas, do século XX, dissidentes dos baptistas norte-americanos, invocando posições de John Morgan, de 1845, e institucionalizados com Charles Parham, usando com frequência o termo de Assembleias de Deus; os adeptos do Exército de Salvação, criado em 1865 pelo pastor metodista William Booth; os adventistas, dissidentes dos baptistas norte-americanos, criados por William Miller, por volta de 1830; os mormons, fundados em 1830 por Joseph Smith; as testemunhas de Jeová, criadas por C. M. T. Russel, em 1874; os quakers, fundados em 1650, por George Fox..

Esta pluralidade de movimentos é, aliás, a principal responsável pelos modelos vigentes na actual ordem mundial, muito especialmente pelo papel desencadeado no processo das revoluções demoliberais, tendo como matriz a circunstância de, em 5 de Novembro de 1688, ter-se dado o desembarque de Guilherme de Orange, em nome da Liberdade, Parlamento e Protestantismo, desencadeando-se aquela Glorious Revolution  que semeou os valores do capitalismo contemporâneo, como bem o demonstrou Max Weber em Die protestantische Ethik und der Geist der Kapitalismus, de 1904-1905.

Naturalmente foi também o puritanismo norte-americano, marcado pela mentalidade dos WASP (white anglo-saxons protestants), que, com o realismo político e com o seu irmão-inimigo idealista, fundou a cientificidade da disciplina de relações internacionais.

Por isso, importa apelar para uma desprovincianização deste processo, sem cedências ao conceito de clash of civilizations, tanto na sua vertente anti-ortodoxa ou anti-islâmica, como também pela eliminação daquela reaccionária perspectiva que coloca o catolicismo, especialmente o ibérico, no index da leyenda negra.

De outra maneira, arcaísmo e modernidade continuarão a confundir-se e o chamado regresso do religioso, a assentar numa infra-estrutura mediática anti-metafísica, conduzindo-nos, não paradoxalmente, ao regresso dos mágicos, do gnosticismo e das próprias teocracias, mesmo que revistam a forma de um beatério hipócrita.

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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