José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Revolução da informação
Assistimos também a uma revolução da informação que se traduz na sua uniformização e ubiquidade e transformou todo o mundo numa aldeia global, onde vale mais a aparência da forma que a substância da realidade, pelo que o continente se torna mais importante que o conteúdo. Há assim um novo conceito de comunicações que, começando por designar as formas de transporte e o sistema de caminhos para a movimentação de veículos, pessoas ou abastecimentos, abrange, agora, de maneira mais ampla, todos os meios através dos quais circula a informação. Passámos a viver segundo o ritmo dos global media que alteraram completamente o fluxo da informação. Primeiro, foi a globalização das transmissões radiofónicas, principalmente a partir dos anos quarenta. Seguiram-se as emissões de televisão, sobretudo quando se generalizaram as transmissões por satélite. E tudo foi acompanhado pelo novo uso do telefone, pelas chamadas internacionais e pelos serviços de fax, para, depois, se assistir à chegada dos computadores domésticos, ligados em rede, através da Internet. Hoje, o fenómeno atingiu o nível sistémico de uma mediacracia, marcada pela interactividade, a mobilidade, a convertibilidade, a conectividade, a ubiquidade e a globalização, conforme a enumeração de Alvin Toffler em Powershift, de 1990. Daquilo que Guy Hermet qualifica como democratura (1987), nesse novo sistema onde os media exercem, sobre os actores da vida social e sobre o público, uma espécie de ditadura doce, marcada por funcionários de um pronto a pensar que fornecem aos ouvintes, leitores e espectadores verdades também elas pré-digeríveis e, portanto, facilmente assimiláveis. Todo este processo levou a que a violação das massas pela propaganda (Serguei Tchakhotine, 1883-1973) não ficasse limitada ao espaço fechado de certos soberanismos, dado que tudo passou a circular na tal aldeia global. Contudo, as chamadas auto-estradas da informação serviram, sobretudo, para que circulassem preponderantemente as mensagens dos mais poderosos, detentores do software, dos grandes servidores e das chaves de acesso à rede, enquanto os mais pobres no ter e no ser apenas vão conseguindo aceder às grandes centrais de distribuição, através de tortuosos caminhos de cabras. Surgem assim os chamados info-excluídos, os netless, emergindo aquilo que Manuel Castells qualifica como um casino electrónico, nessa rede dos fluxos financeiros, onde aparece um capital que funciona globalmente, como uma unidade em tempo real, pelo que, com esse capital global face a um trabalho local, o lucro é revertido para a tal meta-rede dos fluxos financeiros e os trabalhadores, cada vez mais individualizados, perdem as suas identidades colectivas (1999, pp. 500 e 503). Basta recordar que o Bangladesh, a China, o Egipto, a Índia, a Indonésia e a Nigéria, todos juntos, apesar de constituírem cerca de um terço da população do mundo, tinham menos ligações telefónicas que um simples Canadá (dados de 1990). Aliás o mundo passou de 70 milhões de telefones, em 1960, para 600 milhões, trinta anos depois, mas com 450 milhões deles concentrados em apenas nove Estados, tal como em Portugal, nos últimos três anos, passámos de 2 milhões para 8 milhões de telemóveis. Neste momento, haverá cerca de 500 milhões de utilizadores da Internet, mas 72% deles vivem em países da OCDE, dos quais 164 milhões residem nos Estados Unidos da América. A aldeia global da comunicação, com o aumento exponencial da velocidade e dos fluxos da informação, leva a que o tal ser acabe ocultado tanto pelo ter como pelo parecer, pelo que se torna mais fácil interiorizarmos que, afinal o rei pode ir nu, com o consequente desencanto, a partir do momento em que se descobre a falta de autenticidade da imagem. Fala-se no aparecimento de uma comunidade electrónica (Abramson, 1988), de uma democracia catódica, geradoras de uma nova ideologia. O público transforma-se num Estado-Espectáculo, numa teatrocracia, num Estado-Sedutor, surgindo uma teledemocracia (Arterton, 1987), um videopoder. Régis Debray (1993) propõe mesmo uma nova disciplina que não seria a moral nem a política, mas antes a mediologia, com a missão de explorar as vias e os meios da eficácia simbólica, decompondo-a na revolução fotográfica, na passagem do Estado do escrito ao Estado do écran. É por isso que importa recordar o contexto em que surgiu o tópico da aldeia global, na obra The Galaxy Gutenberg, de 1962, do canadiano Marshall McLuhan (1911-1980), subtitulada The Making of Typographic Man, onde se considera que a mensagem, enquanto o conteúdo, é o medium, ou continente. Porque a invenção do papiro provocou o aparecimento do império burocrático dos faraós do Egipto. Porque a invenção da tipografia levou à difusão da reforma protestante no espaço alemão. Porque a imprensa quotidiana popular promoveu a difusão do nacionalismo no século XIX. Assim, na segunda metade do século XX, televisão contribuiu para a não distinção entre o público e o privado, inserindo-se no processo de passagem da galáxia Gutenberg para a galáxia Marconi, ou galáxia eléctrica, detectável desde 1905. Gerou-se, pois, nestes tempos de homo videns (Sartori, 1997) uma nova inquietude, típica destes tempos sem escrita, marcados por uma nova forma de comunicação, onde aquilo que aparece, como imagem, nos pequenos palcos da comunicação, tende a ser mais importante do que aquilo que, na verdade, é. Logo, não tardou que se proclamasse que em política o que parece é, conforme o lema dos tempos em que a propaganda ainda se chamava propaganda e não como agora, onde os gabinetes quase clandestinos de imagem vão dizendo que só existe aquilo que se comunica. Afinal, talvez tenham existência aquelas obras que os fazedores do Estado Espectáculo condenam ao silêncio, porque, de um momento para o outro, a política pode ter uma dessas episódicas reconciliações com a verdade e voltar a ser gerida pelos que sentem sede de justiça. Com efeito, a primeira grande revolução nas comunicações deu-se em 1837, quando foi inventado o telégrafo, com Samuel Morse, nos Estados Unidos da América, e Charles Wheatstone, na Grã-Bretanha. Nos anos cinquenta eram lançados cabos submarinos entre a Grã-Bretanha e a França. Na década seguinte atravessavam o Atlântico e, em 1872, Londres já estava ligada a Tóquio. Aliás, foi na guerra austro-prussiana de 1866, que o comando de Berlim experimentou a orientação de tropas, através do telégrafo, que, logo a seguir, potencia a expansão colonial das potências europeias. Seguiu-se o americano Grahm Bell que inventou o telefone em 1876, para, duas décadas volvidas, já estarem instaladas as primeiras linhas. Finalmente, os sinais de rádio começam na década de 1890, com o italiano Giuglielmo Marconi, apesar das primeiras estações de telefonia sem fios só se terem instalado nos anos vinte. Na década seguinte, foram os anos áureos das transmissões radiofónicas, explicando-se tanto a ascensão de Hitler ao poder, como a fundação da Emissora Nacional pelo salazarismo, ao mesmo tempo que o cinema sonoro emergia, sob a cobertura de todos os secretariados estaduais da propaganda que, com muitos serões para a alegria no trabalho, tanto totalitarizavam, quando diziam que quem não é pelo situacionismo está contra a Nação, é Gegenreich, como autoritarizavam, quando diziam, de forma mais adormecente, que quem não está contra o situacionismo é a favor daqueles que mandam. Mas os que, como no nosso Estado Novo, optavam por essa segunda via que provocava o atavismo da servitude volontaire, nem por isso deixaram de saudar as maravilhas de um cineasta como António Lopes Ribeiro, que aprendera directamente na URSS de Estaline, com Eisenstein. Porque o salazarismo sempre foi a distância que vai do filme Pátio das Cantigas, dirigido pelo mesmo pai-fundador do cinema português, com António Silva, Ribeirinho e Vasco Santana, às fitas de Beatriz Costa, principalmente em A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca Garcia, quando os Vascos eram Santanas, para utilizarmos a jocosa expressão do título de um livro de memórias de Beatriz. Ainda não tinha chegado o tempo da folle du logis, quando, ainda a preto e branco e ao abrigo do monopólio estadual, o Professor Doutor Marcello Caetano tentava deter os ventos da história com conversas em família, tal como John Kennedy vencia Richard Nixon, nas eleições de Novembro de 1960, graças à imagem, prenunciando a chegada de simples actores à liderança do Estado Espectáculo. Não tardaria que se atingissem os tempos do videopoder e da teledemocracia, com muitas cores, muita concorrência de canais e muitos milhões de défice nas televisões públicas, incapazes de lidarem com os novos mercados da publicidade e das chamadas indústrias culturais, as quais destruiriam a velha oposição entre alta cultura e cultura popular, com a emergência dos sindicatos das citações mútuas dos pequenos e médios intelectuais. O homem massa passou a simples auditor, a mero elemento fungível de uma informe audiência, enquanto grupos mais poderosos que os próprios Estados trataram de manipular aquilo que era o bem mais precioso da isegoria. Se há transmissão de dados à velocidade da luz, se se banalizam os satélites de telecomunicações, se as auto-estradas da informação penetram na própria intimidade dos lares, com computadores ligados em rede, antenas parabólicas e cabos que nos trazem a televisão global, eis que, pelo contrário, se concentram os meios de difusão, desde as chamadas cadeias planetárias de televisão - como a Cable News Network (CNN) e a Music Television (MTV) aos próprios portais e servidores de abrigo na Internet, todos alterando os costumes, as culturas, as ideias e os debates. O salto foi dado principalmente nos anos oitenta do século XX. Robert Edward Turner (1938-), a partir de um local, a cidade de Atlanta, utilizou o global dos satélites para, daí, fazer ligação às imensas redes locais das nascentes televisões por cabo, começando um império que, depois, se estendeu a todo o mundo. Isto é, a aparente dispersão acabou por levar a situações de monopólio ou oligopólio, como o atestam os grandes barões mundiais do sector, que se aproveitaram do desmantelamento dos sectores públicos, como aconteceu com Rupert Murdoch, Robert Maxwell ou Sílvio Berlusconi. As consequências foram evidentes durante a Guerra do Golfo em 1991, onde o espectáculo televisivo do conflito, como hoje já é possível demonstrar-se, apenas mostrou a verdade que os norte-americanos quiseram mostrar. O processo dos global media está em constante ebulição. A CNN, que em 1990 criou um serviço noticioso permanente, está hoje presente em quase todas as redes de televisão de cabo do mundo, com programas em inglês, francês, hindu, japonês, árabe e espanhol (este, desde 1997). Foi, entretanto, controlada pelo principal grupo mediático do mundo, o que resultou da concentração da Time Warner com a AOL, em Janeiro de 2001, e que integra os sistemas da Warner Bros, da CNN International, da TNT (Cartoon Channel), da HBO, e das revistas Time e Fortune, bem como editoras como a Little, Brow. O segundo grupo mundial é a Disney, ligada à ABC. Aparece, em terceiro lugar, o grupo Bertelsmann, nomeadamente com o Channel 5 britânico e a editora Random House. Segue-se a Viacom, com as redes CBS, MTV e VH1, mas incluindo também editoras como The Free Press e Simon & Schuster. Em quinto lugar, o grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, com Fox News, Sky News, e jornais britânicos, como The Sun e The Times. O indivíduo, preso nas teias do global, vai ser, cada vez mais um homem unidimensional, perdendo as raízes da identidade que o ligavam ao local de uma pequena pátria (pátria chica), marcada pela federação de muitos concelhos, onde cada concelho também era o ajuntamento de muitas aldeias. Que concelho vem de concílio ou assembleia, que aldeia se dizia vicus, donde deriva a expressão vizinho, aquele que face to face, no small is beautiful, gerou essa instituição fundadora da nossa democracia ibérica que, nos tempos visigóticos, se chamava conventus publicus vicinorum. Esse indivíduo da multidão solitária (David Riesman) que, agora, é condenado a procurar, no exótico do desenraizamento, novas identidades apátridas, feitas à imagem e semelhança da quinquilharia de um qualquer centro comercial com produtos importados dos antípodas. Aliás, ao mesmo tempo que aumenta a atomização da lonely crowd, fragmentando-se a sociedade como representação, tanto pelo apagamento da memória como pela liquidação das solidariedades, eis que a homogeneização nos vem da sucessão de imagens que os media, dia a dia, hora a hora, nos enviam, em nome da informação, onde apenas existe aquilo que se comunica por tal via e onde politicamente também só existe aquilo que parece e aparece (gouverner c'est paraître, como, em 1991, dizia Jean-Marie Cotteret) através de tais instrumentos, cada vez mais continentes sem conteúdo. É, como proclama Gilles Lipovetski, a ère du vide e l’empire de l’éphemere (1983 e 1987). A quantidade de matéria humana que o corpo da Terra contém é definitivamente uma massa, em termos comunicacionais. Aquilo que Max Scheler (1874-1928) qualificava como uma unidade por contágio e imitação involuntária. Porque, conforme as teses de Gabriel de Tarde (1843-1904), em L’Opinion et la Foule, de 1901, e Gustave Le Bon (1841-1931), as massas surgem quando os indivíduos perdem a individualidade e se aproximam do estado da pura quantidade, pelo que as multidões acumulam, não a inteligência, mas a mediocridade, sendo conduzidas quase exclusivamente pelo inconsciente, havendo nelas um multiplicador da irracionalidade. Salienta até que, nas sociedades futuras, pode prever-se que, na sua organização poderão contar com um poder novo, o último soberano da vida moderna: o poder das liberdades (La Psichologie dês Foules, 1895). As teses deste autor, que recebem algumas das reflexões de Tocqueville (1805-1859) e de Friedrich Nietzsche (1844-1900), vão influenciar Robert Michels (1876-1936) ou o nosso Fernando Pessoa (1888-1935). Assim, as massas podem ser galvanizadas através de mitos e de sugestões, despertando-se os instintos mais elementares das parcelas humanas que as compõem. Deste modo, os indivíduos deixam de ter raciocínios e passam apenas a funcionar pelos instintos. Podemos, pois, dizer que os tais mass media não só transformam o real em espectáculo, como substituem os anteriores ritos, que esconjuravam os perigos, e os antigos mitos, que nos transformavam em heróis e santos na intimidade. De certa maneira, ao exercerem as funções psicoterapêuticas, de recreação e de ligação social, acabam por ser um sucedâneo das Igrejas tradicionais e talvez por isso lhes reconhecemos a dimensão de quarto poder. E não foi por acaso que quando o fundamentalismo religioso dos talibans conquistou um Estado, logo liquidou os meios de comunicação de massa, como também não foi por mero acidente que o fundamentalismo dos ayatollah no Irão, instrumentalizou os mais avançados dos meios de comunicação de massa que conseguiu mobilizar para a causa. © José Adelino Maltez |

Última revisão:12-04-2009
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