José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Saudosismo

 

 

 

O homem, em virtude de lembrança e esperança, eleva-se da própria miséria e contingência à contemplação do reino espiritual, onde as coisas e os seres divagam em perfeita imagem divina

Pascoaes, Teixeira de

 

O saudosismo é uma corrente de pensamento iniciada por Teixeira de Pascoaes a partir da Renascença Portuguesa e da revista portuense A Águia, publicada entre 1910 e 1932. Assumindo a saudade como o sangue espiritual da raça, um sentimento-ideia, uma emoção reflectida, o movimento enraíza tal ideia no autonomismo quinhentista e no processo de resistência sebastianista. Para o mesmo autor, importaria revelar a alma lusitana, integrá-la nas suas qualidades essenciais e originárias, para elevar o criador animal e individual a criatura espiritual. Tem a ver com a saudade, a velha suidade que, conforme D. Duarte, no Leal Conselheiro, que a definia como sentido do coração que vem da sensualidade e não da razão. Tal como Garrett, em Camões, entendendoa-a como dor que tem prazeres.

 

Apesar de Pascoaes defender uma democracia religiosa e rural, foi injustamente acusado de passadista, quando era um activismo vitalista, anti-intelectualista e antimecanicista, conforme assinala Pinharanda Gomes. Entre os intelectuais da corrente, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e Afonso Lopes Vieira, bem como o pintor António Carneiro.

 

Para os portugueses que resistem na liberdade de pensar Portugal, nomes como pátria, nação, sociedade e Estado nunca foram meras abstracções, dado que se radicam no concreto sonho de um povo que, apesar de submetido às históricas dependências, ousou lutar para continuar a viver. Assim aconteceu com os movimentos regeneradores  que nos fizeram renascer depois de Alcácer Quibir, através da criação do mito do Encoberto, da acção dos alcobacenses, ou das obras de D. João de Castro e do Padre António Vieira, onde a restauração exigiu sempre que se escrevessem, as esperanças de Portugal.

 

Reacção equivalente foi a do nacionalismo romântico, de Almeida Garrett  e de Alexandre Herculano, bem como do espírito patriótico da geração de 1870, onde se destacou o messianismo amargurado de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, inspirador tanto do saudosismo como do próprio Integralismo Lusitano, na Primeira República.Acontece que, do sentimento pátrio, fizemos saudade, porque, em todo o mundo, passou a poder haver terra portuguesa, quando, conservando-a na lembrança, como dizia o mesmo Sardinha, tratámos de procurar o sonho do paraíso e a ideia criadora de saudade. Somos, assim, saudosistas, não com o sentido passadista, mas com pessoanas saudades de futuro.

 

Aliás, tanto o patriotismo como o mais elevado nacionalismo, quando fazemos da nação a escola da super-nação futura, o caminho para uma mais mobilizadora república universal, constituem o preciso espaço do particularismo e da diferença que nos permite resistir ao uniformismo e comungar no universal.

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info