José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Situacionismo Quase todos os kingmakers da nossa agenda opinativa, marcados por uma esquerda tipo português suave, vêm reconhecendo o óbvio: o situacionismo, nas vésperas de o deixar de ser, ainda não morreu. Está vivo, mas não se recomenda. Não está em agonia, mas parece não encontrar remédios para sair da depressão. E só continua nos lugares cimeiros do campeonato, porque não apareceu nenhum trabalho de equipa, capaz de ocupar o vazio deixado pelas sucessivas derrotas dos pequenos, médios e grandes partidos que já foram governo.

Se voltámos ao normal-anormal da decadência, a nível do chamado país nominal, ou país político, eis que as correias de transmissão de tal processo ao país das realidades continuam a ser tão decadentistas quanto o óleo cultural que as lubrifica. Com efeito, quase todos os nossos comunicadores e opinadores, que, há pouco mais de um quarto de século, alinhavam pelo diapasão do Maio 68, se, por um lado, sentem um enorme tédio face aos travestis de esquerda, também não parecem entusiasmar-se com os sinais de aparente rebeldia, assumidos pelos revoltados que vamos tendo.

Como sair, então, desta sociedade de homens desenraizados e mutilados, que se tornam incapazes de revolta como homens livres e não como escravos? Como vencer o tal sistema que faz com que o ter determine o ser e que os governos se transformem em modelos de pilotagem automática, comandados por ministérios que apenas servem como agentes de entidades não políticas? A resposta é-nos dada por Emmanuel Mounier: não se curará o económico senão com o económico, mas não só com o económico.

A grande vantagem das ideias e sonhos que nos hão-de regenerar, é o facto de ainda não se terem cristalizado em ideologismos, com os seus mestres-pensadores, discípulos, vulgatas, colunistas e propagadores de slogans. Com efeito, dado que as regras do jogo da política estão viciadas pelo sistema da arbitragem comunicacional, apenas existe a direita caricatural que a agenda virtual da esquerda cultural deixa manifestar-se. Tal como apenas existe a esquerda dos velhos bons rapazes que convêm à direita dos interesses.

Há um vice-versa de amigos que só aparentemente são inimigos, dado que cada um dos lados precisa do outro para que se mantenha esta espécie de águia com duas cabeças, sempre disponível para rapinar os que podem pôr em causa o devorista regime de distribuição de destroços em que nos continuamos a rotativizar.

Por outras palavras, quem parte e reparte tanto não é burro como até percebe da arte. Isto é, o verdadeiro situacionismo acha, como Salazar, que em política o que parece é. E continua a considerar, à maneira de Goebbels, que só existe aquilo que aparece, principalmente no horário nobre dos telejornais ou num talk show de grande audiência.

Quem, como o subscritor destas linhas, não se situa na esquerda da esquerda nem na direita da direita, não tem que surpreender-se com a circunstância de fazer parte daquele grupo de excêntricos sonhadores, detestado pelos nostálgicos da revolução perdida, que o podem qualificar como reaccionário, e não aplaudido pelos saudosos da reacção não alcançada, que inevitavelmente o alcunham como falso conservador.

Acontece que, muito singelamente, sempre gostei de navegar nas irreverentes águas valorativas daquele conservadorismo pós-revolucionário, continuador do consensualismo anti-absolutista, que, por ser mais tradicionalista do que reaccionário, mais adepto da revolução evitada do que de uma revolução ao contrário ou do contrário de uma revolução, sempre se situou na chamada esquerda da direita para, continuando a convergir com a direita e a divergir da esquerda, poder dialogar, através da emergência de novas direitas e de novas esquerdas, as quais bem podem ser aquelas antigas direitas e esquerdas que, querendo ter futuro, não têm que ser antiquadas.

Sentindo-me mais whig do que tory, numa linha que invoca Edmund Burke e os federalistas norte-americanos, posso, em português antigo, reclamar o legado de António Ribeiro dos Santos e Silvestre Pinheiro Ferreira, e até ir mais fundo, à memória de Francisco Velasco Gouveia, João Pinto Ribeiro e António de Sousa de Macedo.

De forma anglo-americana, mas de matriz europeia e quase germânica, gosto de ser discípulo de Friedrich Hayek, Eric Voegelin e Leo Strauss, apesar de não alinhar nas capelinhas, clubes e seitas neoliberais e neoconservadoras que, acirrando aquela espécie de marxismo branco, típico da velha nova direita, já com vergonha de ser neofascista ou até nacional-revolucionária, tratam de transformar tais pensamentos de banda larga em restritas vielas ideológicas, com reservado direito de admissão e consequente prémio de citação.

De forma galicista, tento recolher as lições de Alexis de Tocqueville, Alain, Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Albert Camus, pelo  que teria de alinhar, depois do Maio 68, com Raymond Aron e com aqueles que, como André Malraux, desfilaram nos Champs Elysées, a favor de De Gaulle, contra os adeptos de Marcuse e Che Guevara.

Porque, como diz o mesmo Malraux, um homem é a soma dos seus actos, dos que praticou e dos que pode vir a praticar e o essencial é ligarmo-nos a uma qualquer grande acção e transformar em consciência uma experiência.

Confesso sentir-me o exacto contrário do politicamente correcto de todos os que hoje se carimbam como politicamente incorrectos. Continuo tradicionalista nos princípios e nos valores culturais, bem como no enraizamento axiológico e comunitário. Insisto em ser liberal quanto ao modelo político. Persisto na radical defesa da justiça social quanto ao modelo económico.

Os nossos responsáveis políticos não podem, pois, continuar a lavar as mãos como Pilatos perante o crescendo dos inimigos da democracia e do Estado de Direito. Porque nem tudo o que é lícito é honesto, não podem contribuir para a hipocrisia institucionalizada dos que correm às inspecções públicas e às entidades encarregadas da investigação criminal, pedindo certificados de não-pronúncia.

Todos os que sofreram os tempos de crepúsculo do regime derrubado em 25 de Abril de 1974 confirmam, pela experiência pensada e vivida, aquilo que há vinte e cinco séculos foi previsto nos escritos de Platão: que os regimes se corrompem, quando apodrecem por dentro. É assim que as monarquias se transformam em tiranias, que as aristocracias se volvem em oligarquias e que as democracias podem passar a ser dominadas pela demagogia, esse despotismo de todos, que tende sempre a cair nas garras dos cesarismos.

Qualquer um, que, sem imaginação conspiradora, conheça alguns indícios resultantes do velho método da observação, é capaz de detectar, depois de um breve trabalho de campo, dezenas de deputados, adjuntos e assessores ministeriais, construtores civis, autarcas, dirigentes futebolísticos e jornalistas políticos que continuam a pulular nesse ambiente de pantouflage. Assim se confirma que, em Portugal, o importante não é o titulado exercício de tais cargos, mas o posto de vencimento que se consegue depois de se terem exercido certas funções públicas, mesmo que não se gastem energias em qualquer posto de trabalho, pois se torna bastante que se indique, para efeitos fiscais, as actividades da consultadoria e da parecerística, até porque o principal dos proventos pode chegar em malas cheias de notas frescas e inregistáveis.

Deste modo, as teias da micropolítico explicam a frustração da macropolítica, onde continuamos a não querer ver, ouvir ou ler. Porque quando os indivíduos perdem o sentido da autonomia, de viverem conforme as próprias regras que dizem professar, a degradação propaga-se e todos acabamos por apodrecer em demagogia, clientelismo e pequenos cesarismos.

Tenho assim o dever de manifestar que repudio o penumbrante pensamento único que vai enredando a esquerda e a direita, instaladas, onde não é por se estar na situação que se perde a mentalidade de oposição, e vice-versa. Aguardo, portanto, a clarificação do discurso político, para poder vislumbrar se há algumas réstias de luz que nos garantam a não cedência ao modelo pós-revolucionário dos sucessivos cabralismos, esses que continuam a semear cepticismo, utilitarismo e temor reverencial, em ritmo de quase canalhocracia, conforme palavra cunhada por D. Pedro V.

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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