José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Sociologia Histórica

 

 

A chamada sociologia histórica tem diversas variantes. Uma delas faz uma leitura neomarxista do desenvolvimentismo, com destaque para Perry Anderson, Immanuel Wallerstein, Barrington Moore, Charles Tilly e Theda Skocpol. Esta última autora é, aliás, uma das inpiradoras do chamado movimento de return to the State, no chamado neostatist movement.

Charles Tilly, doutor em sociologia por Harvard (1958), foi professor em Delaware, Harvard, Toronto e Michigan, aqui desde 1969, instalando-se em Nova Iorque a partir de 1984. Partindo da análise da Vendeia, salienta que na revolução, há uma soberania múltipla: a revolução começa quando um governo, controlado anteriormente por uma entidade política soberana se torna objecto de reivindicações efectivas, concorrentes e exclusivas, provindas de duas ou mais entidades políticas. Conclui-se quando uma entidade política soberana única retoma o controlo do governo. Elabora, a seguir, uma teoria sobre a formação dos Estados nacionais na Europa Ocidental, considerando tal entidade, como o contrário da sociedade tradicional, sendo constituído por três elementos: um povo, um território e uma organização política diferenciada.

Há também uma sociologia histórica de inspiração funcionalista, assumida por Reinhard Bendix, que entende a sociedade civil como o conjunto das instituições nas quais os indivíduos podem seguir interesses comuns sem a direcção ou a interferência do governo. É autor de Max Weber. An Intellectual Portrait, Londres, Heinemann Books, 1960 trad. port. Max Weber. Um Perfil Intelectual, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1986.

É nesta linha que se insere Anthony Giddens, professor de sociologia em Cambridge e depois director da London School of Economics and Political Science. Um dos inspiradores políticos do New Labour e da terceira via do socialismo democrático, conforme vieram a ser protagonizados por Anthony Blair. Na mesma senda, destaca-se Michael Mann, mais preso a certos conceitos operacionais marxistas. Considera que, além do poder político clássico, exercido pelo governo numa situação de comando-obediência, existe uma espécie de poder infra-estrutural, a capacidade de penetrar a sociedade e de organizar as relações sociais, devendo perspectivar-se duas faces, ou duas dimensões, no poder do Estado. O poder infra-estrutural resulta do facto do centro poder colaborar com os agrupamentos da sociedade civil, permitindo maior eficiência, pelo que um governo forte pode significar um Estado fraco, no sentido de pouco poder infra-estrutural (caso do Estado absolutista francês no século XVII), tal como um governo fraco pode significar um Estado forte (caso da mobilização britânica durante a II Guerra Mundial).

Refira-se que, depois de Theda Skocpol ter proclamado a necessidade de Bringing the State Back In, o próprio David Easton, na American Political Science Review de 1988, criticou duramente o movimento, qualificando-o como uma tentativa de invasão do universo cultural norte-americano por uma corrente onde Marx reaparecia através de Gramsci, Althusser, Poulantzas ou Claus Offe, embora compensado com algumas pitadas de Max Weber e de Otto Hintze.

Contudo, o retorno ao Estado foi também assumido no campo dos politólogos demoliberais. Assim, Samuel P. Huntington, já em 1965, defendia uma politologia state-centric, acentuando a importância do Estado-aparelho de poder para a explicação do poder e dos processos políticos, reagindo assim contra o funcionalismo e outras correntes que realçavam a importância de organizações não-públicas nas policies. Também Stephen Krasner, em 1984, sublinhava o facto do Estado não poder ser entendido como um reflexo das características ou das preferências da sociedade.

O regresso das teorias do Estado, se, a nível anglo-americano, corresponde a algo que pode ser caricaturado como uma viragem à esquerda no sentido anti-pluralista do termo, não tem idêntica tradução nos domínios do pensamento europeu-continental, dado que aqui se seguem as tradições do Estado à francesa, em que a perspectiva da societé contre l’État, em meados dos anos setenta, já fora assumida pela crítica de gauche aos totalitarismos e pelos herdeiros do personalismo.

Mas também foi em França, principalmente com Simone Goyard-Fabre e Blandine Kriegel, que se reassumiu a ideia de Estado de Direito, tentando casá-la com a tradição republicana e o movimento de defesa dos direitos do homem, essa mistura tipicamente francesa que, superando o jacobinismo, através do moderantismo, à maneira de Constant, prefere Tocqueville a Comte e continua o nacionalismo místico da III República, pelo culto das lideranças de Charles de Gaulle (1890-1970) ou François Mitterrand.

Refira-se, contudo, que qualquer destas vertentes tem um certo dogmatismo de seita, abundando o método do sindicato das citações mútuas, esse processo que transforma muitas escolas em blocos quase monolíticos de adoração do dicionário de alguns mestres-pensadores.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info