José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
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Teologia da libertação
À maneira da
teologia da libertação, poderemos dizer que talvez tenha chegado a hora de
repararmos que história não será sempre escrita pelos vencedores. E talvez
sejam mais universais os que povos que reconhecem que foram derrotados e que
a liberdade efectiva nasce sempre do sofrimento. Neste sentido, os
portugueses e os europeus estão mais de acordo com a maioria do mundo e
podem ajudar os nossos aliados norte-americanos a perderem um pouco desse
orgulho nascido da ilusão da história ser sempre escrita pelos vencedores.
Movimento teológico católico nascido nos anos sessenta. Tem paralelo com o movimento protestante da teologia da esperança e dele deriva o processo da teologia da revolução, de carácter marxista, marcante nos anos setenta. A teologia da revolução defendia a conciliação entre o catolicismo e o marxismo e que levou alguns a considerar o guerrilheiro como um jesuíta da guerra ou um Frei Beto a declarar que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia.
Mas a teologia da libertação é um movimento bem mais amplo que passa pelas obras de Jürgen Moltmann, Metz, Harvey Cox. Acontece que a teologia da libertação foi incrementada a partir do Maio de 68 como uma teologia para a revolução, onde o reino de Deus passou a ser considerado como a revolução de todas as revoluções (Helmut Gollwitzer) ou como a salvação da revolução (Jürgen Moltmann), opondo-se à teologia do desenvolvimento e superando a teologia dita da impugnação. Ela transformou-se numa teologia da violência, em oposição aos que defendiam uma ética da não violência.
O modelo sul-americano de teologia da libertação, enquanto teologia da revolução, organizou-se em 1972 com a reunião do Escurial em Espanha. Em Novembro desse mesmo ano foi alvo de um ríspido ataque do secretário-geral da Conferência Episcopal latino-americana, Alfonso Lopez Trujillo. Vai incrementar-se o processo ao longo dos anos setenta, tanto no plano teórico, com a recepção de uma série de ideologismo marxistas, como as ideias de alienção, luta de classes e historicidade, enquanro se agravavam as ditaduras sul-americanas sustentadas pela CIA. Em 19179, o novo Papa, João Paulo II, na assembleia episcopal de Puebla, lança um vigoroso ataque teórico ao movimento. Mas, nos anos oitenta começa o recuo do movimento, tanto pela superação teórica levada a cabo pelo Papa, como pelo recuo das ditaduras sul-americanas.
D. Helder da Câmara teorizou, neste contexto, a cadeia ou espiral da violência, segundo a qual a uma violëncia número um, a institucionalizada pelo poder opressor, se opõe, a violência número dois, a dos oprimidos, seguindo-se a violência número três, a das autoridades quando tratam de restabelecer a ordem. Baseando-se nas teses escolásticas da legítima defesa e do tiranicídio, estes teólogos consideram que a expressão optar pela violência é ambígua: não se pode optar por uma coisa na qual já se está metido(Raymond Domergue). E que o problema da acção violenta e da não violência é um falso problema. A única questão é a da violência justificada e injustificada.
Sob o nome de teologia da libertação existem uma série de realidades contraditórias. Existe por exemplo uma teologia da revolução e da violência, à maneira de Leonardo Boff ou de Camilo Torres, aquele a quem cabe o epíteto de Desroche, ao messias que se torna revolucionário, corresponderia o revolucionário que se torna Messias(p.132). Com efeito, esta dita teologia da revolução é menos uma teologia da revolução do que uma teologia para a revolução, dado que nela se configura o reino de Deus como a revolução de todas as revoluções. Estas teses geram uma defesa da violência revolucionária onde se proclama que os actos revolucionários podem ser menos violentos do que os próprios estados de violência.
Como considera Raymond Domergue (cit. Ferro p. 203), não se pode optar por uma coisa na qual já se está metido. Moltmann, por sua vez, refere que o problema da acção violenta e da não violência é um falso problema. A única questão é a da violência justificada e injustificada(id.) Também Gerard salienta que deve-se amar a todos, mas não a todos do mesmo modo: ama-se os oprimidos libertando-os da miséria, ama-se os opressores libertando-os do seu pecado Existe uma teologia protestante da esperança, com Jurgen Moltmann Uma teologia política católica, como en Johan Baptist Metz -teoria do exodo -profetismo como processo de crítica das instituições -conflito com os poderes sociais instalados.
JÜRGEN MOLTMANN, Teologia da Esperança [1964], trad. cast., Salamanca, Sigueme, 1969; J.BAPTIST METZ, Antropocentrismo Cristiano, Salamanca, Sigueme, 1972; Teología del Mundo, id. 1970; A Fé em História e Sociedade. Estudos para uma Teologia Fundamental Prática [1977], trad. port., S.Paulo, Edições Paulinas, 1980; HARVEY COX, La Ciudad Secular, Barcelona, Peninsula, 1968; JOHN A.T. ROBINSON, Sincero para con Dios [1963], Barcelona, Ariel; KARL BARTH, Communauté Chrétienne et Communauté Civile, Genebra, Labor et Fides, 1958; JOSEPH COMBLIN, Théologie de la Revolution, Paris, Universitaires, 1970; ROGER GARAUDY, De l'Anathème au Dialogue, Paris, Plon, 1965; ALAIN BIROU, Luta Política e Fé em Cristo, Porto, Editorial do Perpétuo Socorrro, 1974, bem como a obra colectiva Fe y Secularizacion en America Latina, Bogotá, Ipla, 1972 ALFREDO FIERRO, O Evangelho Beligerante. Introdução Crítica às Teologias Políticas [1977], São paulo, Edições Paulinas, 1982 HENRI DESROCHE, Sociologia da Esperança [1973], trad. port., São Paulo, Edições Paulinas, 1985
© José Adelino Maltez |

Última revisão:12-04-2009
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