Governar entidades complexas com ditaduras maioritárias de grandes
eleitores, marcados pela hierarquia das potências, onde nem sequer há
equilíbrio das relações em eixo, pode ser transformar as pequenas e
médias escolas em mera margem que sofre os efeitos das lutas de facções
da que replica a ideia de república imperial, porque é efectivamente a
superpotência que resta.
Entre a unidade e a diversidade, entre a convergência a divergência, um
dos termos não tem que eliminar o outro, se assumirmos a complexidade
crescente das emergências criativas. Sempre desconfiei dos decretos
estaduais, incluindo os despachos e os regulamentos assentes em
deliberações de febris RGAs, aliás idênticos aos baseados na peritagem
de uma eventual junta de pensadores de regime, dado que as escolas
livres sempre se mostraram rebeldes face aos modelos pombalinos e
napoleónicos.
Porque é boa a escola que nasce de uma experiência da sociedade civil,
para responder a desafios da realidade que afecta a própria existência
da entidade política portuguesa. Desafio a que a universidade clássica
às vezes não dá resposta, porque as circunstâncias correm mais depressa
que os conceitos captados pelas enciclopédias do saber oficial ou
oficioso, de matriz essencialmente juridicista.
Uma escola livre é marcada por esta ideia fundacional, desde que assum
um reformismo gradualista, mais baseado nas circunstâncias do que nas
iluminações de um centralismo oficiosamente reformador.
E se a escola livre quiser ser uma escola portuguesa, tem de ser fiel ao
velho programa dos portugueses de Quinhentos, sempre procurou
nacionalizar as tendências importadas. Isto é, se não quis inventar o
que já estava inventado nem descobrir o que já estava descoberto,
recorrendo aos estrangeirados, sempre os procurou integrar numa
estratégia portuguesa, onde o crescimento tem de ser feito não só para o
adiante, em termos quantitativos, mas também para cima e para dentro, em
termos qualitativos, conforme o lema teilhardiano.
Por outras palavras, uma escola livre é a que sempre se praticou um
reformismo gradualista e um crescimento a partir das circunstâncias,
visando dar resposta aos desafios da realidade, principalmente do
emprego. Mas crescendo a partir da base, isto é dos doutores
disponíveis, da investigação praticada, do corpo docente gerado
maioritariamente a partir da cultura organizacional da escola, de
maneira a que a identidade própria da instituição fosse capaz de
adequar-se à mudança.
Uma escola tem que ser uma efectiva instituição, dotada de uma ideia de
obra, de regras próprias de
processo e contando com uma efectiva adesão dos próprios membros.
Vive-se uma comunhão de crenças, acredita-se numa identidade. Isto é, no
âmbito de uma universidade, entendida como efectiva universitas
scientiarum, procura-se o interdisciplinar e aquela aliança
metodológica, que vai além da tradicional disputa entre as chamadas
ciências da natureza e as chamadas ciências da cultura, naquilo que
alguns qualificam como aliança metodológica meta-departamental.
Aliás, Portugal perderia se desaparecesse a concorrencialidade entre
modelos de ensino, caso se optasse pela uniformização dos curricula,
eliminando as diferenças, pelo recurso ao livro único de um modelo
pombalista ou napoleónico. Uma boa instituição, tal como ideia de obra
que lhe dá alma, tem de transformar-se numa criatura que se desenvolve
através de uma lógica própria, adaptada às circunstâncias, num modelo de
autonomia, com memória e com identidade, que a fez libertar dos próprios
criadores.
É a partir desta experiência, do núcleo básico de desenvolvimento com
autonomia, que a reforma tem de ser desencadeada, a fim de se garantir
autonomia na própria área científica das relações internacionais. Isto
é, um dos objectivos fundamentais da necessária reforma passa pelo
reforço deste núcleo, sem que se exclua o recurso ao sociológico, ao
antropológico, ao jurídico e ao económico. É o que tem sido feito. É o
que pode ser incrementado.
O modelo português de universidade tem a ver com a estrutura e
conjuntura do Estado e da Sociedade dos portugueses, no contexto da
integração europeia, da globalização e da sociedade civil internacional.
Somos um pequeno Estado e não podemos copiar os modelos dos médias e
grandes potências. Aliás, se fizermos uma análise comparativa
curricular, com entidades políticas próximas da nossa dimensão,
encontraremos curiosas coincidências, da Áustria à Irlanda, da Finlândia
à Catalunha e de muitas prestigiadas universidades norte-americanas.
O estilo das escolas universitárias que não se assumem como escolas de
regime e que atendem essencialmente aos nichos de mercado não pode ser
igual à das que pensam seguir a perfeição modélica. O Estado e a
Sociedade dos portugueses são atípicos e os respectivos desafios só
podem ser assumidos pela diferença. A Sociedade portuguesa, isto é, a
vida concreta dos homens concretos, talvez não admita um profissional de
relações internacionais idêntico ao que é produzido pelas grandes
escolas das médias e grandes potências e das sociedades civis liderantes
do processo da globalização. Outras são as circunstâncias portuguesas.
Outras terão de ser as respostas curriculares.
A necessária reforma universitária, sem esquecer os princípios, também
deve reconhecer que toda a racionalidade é complexa, que as essências só
se realizam na existência e que os princípios só têm sentido quando são
capazes de diálogo com as circunstâncias do tempo e do lugar.