José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Vassalagem natural

 

 

Tal como prescrevem as Siete Partidas, para além de um senhorio de "bien fecho" ou de "honra", de vassalidade, o rei também tem um "senhorio natural", símbolo da unidade do reino. O que leva tanto à não patrimonialização total do exercício de cargos, como também à existência de um conjunto de poderes reservados (cunhar moeda, julgar em última instância, dirigir a guerra, exigir de todos auxílio bélico e receber aposentadoria).

 

O rei medieval, com efeito, para utilizar palavras de Bertrand de Jouvenel, como que reúne duas naturezas: a do dux, do "chefe de aventura, o condutor de expedições, o utilizador da força nacional" e o do rex, do "padre, oficiante das cerimónias públicas, conservador da força e da coesão nacionais". Neste sentido, há um rei que é "passivo e reverenciado" e um outro que é "activo e seguido, um que é sabedoria e poder intangível, outro que é vontade e poder tangível". Assim, " o rex é o que em si resume e assume o antigo poder mágico, a antiga função ritual". Uma "qualidade transmitida por ele a todos os poderes que lhe sucederam. É o símbolo da comunidade, o seu núcleo místico, a sua força de coesão, a sua virtude de conservação. Mas é também ambição para si, exploração da sociedade, vontade de poder, utilização dos recursos nacionais para o prestígio e para a aventura". uma vassalagem "natural", bem diferente da mera vassalagem de "honra", aponta para uma relação directa entre o rei e todos os reinícolas, todos os moradores do Reino.

 

Acresce que o rei da reconquista também tem um poder político efectivo. Ele é, na verdade, o supremo administrador da justiça, o supremo, e não apenas honorifico, chefe militar de uma comunidade em estado de guerra permanente. Isto sem falar no facto do rei ser, por herança ou por presúria, o maior dos proprietários do reino e que leva João Lúcio de Azevedo a chamar à nossa monarquia medieval "monarquia agrária". Vitorino Magalhães Godinho refere:"feudal, não é na verdade esta monarquia visto não se ter edificado sobre o laço da vassalagem e feudo, mesmo se constatarmos algumas infiltrações; não o é sequer em primeiro grau, como teríamos de concluir se a definissemos sem mais um senhorio de senhorios, pois uma das suas características diferenciais é precisamente a largueza do âmbito das relações direrctas entre o rei e boa parte do reino e dos súbditos. Tem vincado cunho patrimonial e não diferencia público e privado nas suas relações  com terras e gentes do Reino".

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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