Autoridade

A autoridade procede de
um primeiro motor, donde se comunica, degrau a degrau, até ao
último dos seres.
Romano Egídio
O problema central da política é o problema da autoridade e da
liberdade, a tensão entre a soberania do Estado e a obrigação
moral de resistir, porque o poder somente é válido
quando recebe, daqueles que lhe estão sujeitos, a sua livre anuência à
autoridade que procura exercer (Laski)
Autoridade vem do
latim auctoritas, isto é,
produção, exemplo, prestígio, modelo. Numa simples definição cibernética,
autoridade é o poder conferido pelo consentimento. Logo, algo que obriga mas não
coage. Não descendo à ordem física como a potestas,
eleva o poder à ordem moral e à ordem jurídica. É o direito de controlar a acção
dos outros sem ser pela força. Daí que num qualquer sistema político a
autoridade seja o lugar onde se acumula o poder.
Vem do lat. auctor. O que inspira a obra, o que, com o seu exemplo ou o seu
conselho promove o bem de uma coisa. Vem de auctum, derivado do verbo
augere, o mesmo que aumentar, desenvolver, tornar mais forte alguém ou
alguma coisa.
Em sentido amplo, a autoridade equivale à
confiança. Se é obedecida em consciência, também gera a hierarquia e a
desigualdade. Com efeito, ter autoridade é ascender a um nível superior. E o
mais superior é aquele que se assume como o fundador, como o autor, como o
semeador. Porque é nos alicerces que está a verdadeira superioridade.
Aliás, só nos parece possível compreender a especificidade do poder político se
lhe tomarmos duas perspectivas: - do lado daqueles que obedecem (a legitimidade)
- do lado daqueles que mandam (a autoridade). Na primeira, tentaremos detectar
aquilo que permite e suscita o consentimento. Na segunda, procuraremos aquilo
que propicia o comando com obediência espontânea.
Na primeira, verificaremos que se procura
a obediência espontânea, dado que apenas se usa a força como última instância.
Na segunda, detectaremos que, na distribuição de valores ou de recursos, estes
são sempre distribuídos com autoridade através de instituições autorizadas.
Importa, pois, integrar as questões do poder político nas matérias da
legitimidade e da autoridade, para acedermos, por um lado, ao que permite o
consentimento e, por outro, ao lugar mais alto onde se acumula o poder.
Consideramos com efeito que só é possível
entender o poder político, quando se integra o poder na autoridade a perspectiva
do poder tomada do lado dos que mandam, aquele quid que
propicia o comando com obediência espontânea e na legitimidade a perspectiva do
poder a partir do lado dos que obedecem, aquilo que permite e suscita o
consentimento.
Com efeito, na política, há sempre uma
distribuição de valores ou de recursos que é sempre feita com autoridade,
enquanto a força é usada com legitimidade. Optamos assim pela dimensão
globalista, transcendental, institucionalizada e normativa do poder político,
sem ilusões quanto à societarização do poder, conforme a proposta das escolas do
neo-realismo político., impulsionadas pelo funcionalismo e pelo sistemismo. Com
efeito, não nos parece conveniente confundir o comando com o arbítrio nem a
protecção coactiva com a coerção.
Porque o poder político constitui um todo
elástico que integra ou coordena os mais variados poderes. É um todo que não
resulta da soma aritmética das respectivas parcelas, mas sim do modo como as
mesmas se relacionam, dado que, se os diversos poderes caminharem na mesma
direcção podem gerar uma mais-valia, uma maior soma de energia.
Por exemplo, se os variados poderes,
nomeadamente o ideológico, o cultural e o económico, se mobilizarem em torno de
um fim comum geram bastante mais poder colectivo que se conflituarem sobre os
objectivos.
Pelo contrário, quando os poderes
ideológico, cultural ou económico entram em conflito, dão-se situações de
bloqueio e de eventual confronto, podendo conduzir ao declínio.
Como salientava Hannah Arendt, ao
contrário da força, que é dom e pertença de qualquer homem, no seu isolamento,
contra todos os homens, o poder apenas acontece se e quando os homens se unem
entre si no propósito de exercerem uma acção, e deixa de existir quando, por
qualquer razão, eles se dispersam e abandonam uns aos outros.
Com efeito, quando os homens se unem entre
si surge um poder institucional e simbólico. Um poder que passa a misturar os
factos, as práticas materiais, entre as quais se inclui a força, com as ideias,
com o fim que comanda a acção, penetrando-se, deste modo, nas zonas do
normativo.
Este poder é não só força externa como também representação quanto ao futuro
esperado, segundo Georges Burdeau. Esse poder que é uma categoria específica das
relações sociais (Beattie), e que aparece normalmente qualificado em letra
maiúscula como Poder.
Um poder entendido como uma estrutura complexa de práticas materiais e
simbólicas destinadas à produção do consenso, segundo Max Weber.
Esse poder global ou institucional que é
algo mais que o conceito psicológico de poder, entendido como o conjunto dos
meios presentes destinados a obter um bem futuro, essa capacidade de conseguir
com que os outros façam o que eu quero, que se encontra em todas as relações
humanas, esse conjunto dos meios que permitem conseguir os efeitos desejados,
para utilizarmos a expressão de Bertrand Russel (Power is the capacity of
some persons to produce intended and foreseen effects on others).
O poder político não se confunde com a
simples coerção – com a possibilidade de levar alguém a fazer alguma coisa
contra a respectiva vontade, com a força que pode obrigar outrem a obedecer –
não se reduzindo à imposição a outrem de algo que este não deseja
espontaneamente.
O poder político é uma capacidade criada
por um acordo social, é sempre alguma coisa que tem de ser conjugada no plural,
onde a união pode fazer a força, onde a união pode produzir mais força que a
simples soma das forças dos vários particulares que integram essa união.
Quando falamos em poder político, estamos
a referir-nos à interacção ou à mobilização em torno de um fim comum que pode
gerar uma maior soma de energia. Onde um forte rei pode fazer forte a gente
fraca; onde as vulnerabilidades podem transformar-se em potencialidades. Ou vice
versa, onde um fraco rei pode fazer enfraquecer a gente forte; onde as
potencialidades podem ser vulnerabilidades.
Para compreendermos o poder político,
temos assim de ascender dos poderes ao poder, temos de medir a distância
qualitativa que vai do medo ao consentimento, entendendo em profundidade o manda
quem pode, obedece quem deve, onde há sempre, de um lado, um poder-dever e do
outro um dever-poder.
Estamos a referir-nos, não a um
intersubjectivo jogo de soma zero (zero sum), onde aquilo que um dos
jogadores ganha, perde o outro, mas antes a um jogo de soma variável, onde os
jogadores competem uns com os outros, mas onde todos podem ganhar,
conjuntamente. Estamos a referir-nos ao poder que o homem pode compartilhar com
outro homem e onde todos podem beneficiar colectivamente.
O poder político, ou Poder com letra
maiúscula, é um todo elástico que integra ou coordena os mais variados poderes.
Neste sentido, o Poder não é uma coisa, mas um relação, não é algo que possa
medir-se pela simples aritmética de uma adição de poderes, não é mero resultado
de um paralelograma de forças.
Trata-se de um complexo de funções com
significação estrutural estratégica, conforme a definição de Talcott Parsons,
onde, como iremos ver, há pouvoirmais puissance, Macht mais Herrschaft.
Porque, como dizia Schiller, a única coisa
que torna poderoso aquele que manda é a obediência daquele que obedece. Porque,
como dizia Rousseau, ainda o mais poderoso de todos os homens não será
suficientemente poderoso, se não souber converter o seu poder em direito e a
obediência dos outros em dever (le plus fort n'est jamais assez fort pour
être toujours le maître s'il ne transforme sa force en droit et l'obéissance en
devoir).
Passemos agora à perspectiva do poder
tomada do lado daqueles que mandam, analisando a problemática da autoridade. Se
procurarmos uma definição enciclopédica, poderemos dizer que a autoridade é uma
capacidade de influir noutros graças a certa superioridade por estes
reconhecida, ou o direito de dar uma ordem , de tal maneira que o comando seja
obedecido sem que seja questionado tal direito, isto é, o poder que é aceite,
respeitado, reconhecido e legitimado.
Isto é, para a noção comum, a autoridade
não é o mesmo que a capacidade de fazer cumprir uma ordem, mesmo que seja sem o
consentimento do subordinado. Quem tem autoridade precisa do reconhecimento
dessa qualidade pelo outro, e só tem autoridade aquele a quem os subordinados
reconhecem legitimidade. A autoridade, com efeito, exige tanto superioridade
como reconhecimento, porque há um que é superior ao outro e este outro reconhece
no primeiro essa posição de supremacia, o que permite transformar o poder,
enquanto vis coactiva, em poder, enquanto vis directiva. Logo, havendo
autoridade, tanto não há igualdade, dado haver um que está acima e outro que
está abaixo, como também não há plena liberdade, dado que se exige
reconhecimento.
Hannah Arendt salienta, quanto à
autoridade, que o nome e o conceito são de origem romana, distinguindo-se entre
a auctoritas, que pertencia
ao Senado, e apotestas, que cabia ao populus.
A palavra auctoritas deriva
de auctor, daquele que não é
o construtor, o artifex, mas
antes o que inspirou a obra. Na base está o verbo augere que
significava aumentar, desenvolver, fazer crescer, tornar mais forte alguém ou
alguma coisa, pelo que a auctoritas em sentido etimológico tem a ver com
produção, criação, exemplaridade, modelo, prestígio, conselho. Auctor é
assim o que promove como o seu exemplo e conselho o bem de uma coisa.
Logo, se ter autoridade significa aumentar
ou desenvolver, ela dependia da vitalidade do espírito de fundação, em virtude
do qual era possível aumentar, desenvolver e alargar as fundações, tal como elas
haviam sido alicerçadas pelos antepassados. Assim, a própria coincidência da
autoridade, da tradição e da religião, todas três procedendo simultaneamente do
acto da fundação, era a espinha dorsal da história romana, desde o início até ao
fim.
De facto, o próprio conceito de autoridade
romana sugere que o acto de fundação desenvolve, inevitavelmente, a sua própria
estabilidade e permanência, e a autoridade, neste contexto, não é nem mais nem
menos do que uma espécie de 'argumentação' necessária, em virtude da qual todas
as inovações e alterações permanecem ligadas à fundação. Ter autoridade implica
assim ter o sentido do fundador, ser o preservador, assumir a tradição e,
portanto, regenerar, retomar a pureza das origens.
Era assim que em Roma se entendia a
autoridade do Senado, a patrum
auctoritas, sempre entendida como um aumento: as decisões do Senado, por
exemplo, eram entendidas como uma confirmação de um acto de vontade do povo,
sendo mais do um conselho e menos que um comando, uma espécie de conselho que
não poderia deixar de seguir-se, segundo Mommsen.
Compreende-se assim que a autoridade tenha a ver com a hierarquia e o
escalonamento.
Como salienta Talcott Parsons, a
autoridade é um tipo de superioridade que envolve o direito legitimado (e/ou
obrigação) de controlar as acções de outros num sistema de relação social.
Contudo, segundo as palavras de Jacques Maritain, a autoridade é direito, não é
força, pelo que deve ser obedecida em consciência. Ela é o direito de dirigir e
de comandar, de ser escutado ou obedecido por outro. Aliás, para o recente
Catecismo da Igreja Católica, de 1993, doutrina católica, a autoridade é aquela
qualidade em virtude da qual pessoas ou instituições dão leis e ordens a homens
e esperam obediência da parte deles. Também João XXIII observava que a mesma não
é força desordenada; é sim faculdade de mandar segundo a sã razão. A sua
capacidade de obrigar deriva, portanto da ordem moral, uma força moral que não
se baseia exclusaiva ou principalmente na ameaça ou temor de castigoas ou na
promessa e saolicitação de recompensa, devendo apelar para a consciência do
cidadão, isto é, para o dever de prontificar-se a contribuir para o bem comum (Pacem
in Terris).

Fernando Pessoa, por seu lado, observa que
há necessidade de uma força
consolidada, translata, a força tornada abstracta, aquela base de governo que
vem depois do governo da força e antes do governo da opinião, salientando que
tal situação não dura sempre, porque nada dura sempre neste mundo. Sendo a
autoridade um prestígio ilógico, tempo vem em que, degenerando ela como tudo, a
inevitável crítica humana não vê nela mais do que ilogismo, visto que o
prestígio se perdeu. A autoridade é incriável e indecretável, e a tradição, que
é a sua essência, tem por substância a continuidade, que, uma vez quebrada, se
não reata mais.
Georges Burdeau considera que o poder é a
possibilidade de ser obedecido, enquanto a autoridade
é vista como a qualificação para dar uma ordem. Adianta que se os chefes dão
tanto valor a que os considerem legítimos é porque a legitimidade lhes traz um
acréscimo de autoridade que eles não podem receber senão daí. Ao poder que se
impõe ,ela acrescenta a qualidade que se liga a um poder consentido, porque a
legitimidade enobrecendo a obediência, converte em obrigações nascidas de um
dever o que eram somente atitudes ditadas pelo temor. Enfim, introduz o poder no
universo mágico das representações e das crenças...Metamorfose moderna da
sacralização do poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe
enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração
jurídica.
Para o mesmo autor, se o Poder tem a ver
com um fim, o bem comum, e que é este que transforma a puissance em
autoridade, a puissance sob o aspecto exterior, pelo qual se nos revela, aparece
como facto, dado que é o poder de comandar de maneira a que se lhe obedeça. Não
é o direito nem a possibilidade de comandar, é simplesmente o fenómeno que
exprime a execução da ordem dada. Nestes termos, acentua que o poder deve ter puissance para
que nasça o Estado até porque um dos traços essenciais das sociedades
pré‑estaduais é a instabilidade do Poder apoiando‑se apenas na puissance
Karl Deutsch, por seu lado, considera que
a autoridade é aquilo que nos faz obedecer, na ausência de supervisão e de
coerção, sendo equiparável a uma votação por actos, como acontece numa guerra,
com o rácio deserção e prisioneiros/ mortos em combate, equivalendo à
consciência, ao que controla os nossos actos quando ninguém nos está a observar.
Deste modo, a autoridade é algo que se
interioriza, tornando-se parte integrante dos sentimentos mais profundos. É
assim que aprendemos a associar as ordens dos nossos pais com a realidade e,
tanto as ordens com a realidade. Depois, pela vida fora, as ordens ou instruções
de um professor ou de um superior podem ter-nos recordado a voz dos nossos
progenitores.
Tem também relação com a a credibilidade de uma fonte de informação:
acreditar-se-á nas suas emensagens sem se verificar o seu conteúdo, dando-se
mais atenção a quem fala do que àquilo que é dito.
Com efeito, a
autoridade surge da confiança e desenvolve-se através do prestígio. Voltando a
Fernando Pessoa, diremos que havendo
um prestígio que se sinta e enetenda, todos os outros prestígios, ainda do que
não entenda ou sinta, naturalmente se lhe ajuntam, logo alguém comece a dizê-los. Até
acontece que quando um homem tem como qualidades marcantes aquelas que faltam ao
povo a que pertence, o seu prestígio é imediato, emboa seja, talvez, sempre um
prestígio frio e constrangido – um prestígio intelectual, sem elemento emotivo.
Autoridade como vocação em
Mounier,136,950
Autoridade e Família Horkheimer
Autoridade e Família,
1983Horkheimer
Autoridade e Liberdade
Autoridade e Liberdade Maciver,
Robert Morrison
Autoridade Eckstein, Harry
Autoridade em Maritain
Autoridade em Weber (supöe
obediência ou aceitação)
Autoridade
Flathman, Richard E.
Autoridade Gurr, Ted Robert
Autoridade
na distribuição dos valores
Easton, David
Autoridade
numa boa sociedade Dahl, Robert
Autoridade paternalista Le
Play
Autoridade
Simon, Herbert
Autoridade, lugar onde o poder
se acumula e donde circula Parsons
Autoridade, Ordem,
Justiça Fascismo
AutoridadeCardoso, Miguel Esteves
© José Adelino Maltez