José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Ecologia

 

 

A política é a biologia aplicada

Haeckel, Ernst Heinrich

 

 

A ecologia (de oikos, casa), termo inventado em 1866 pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, é a ciência que tem como objecto o estudo das relações que se estabelecem entre o ambiente, o habitat, e os organismos vivos que nele habitam. No domínio sociológico a ecologia analisa a influência da localização espacial nas relações enntre os homens. Já o ecologismo é uma nova ideologia nascida nos anos setenta e estruturada em 1978 em torno do livro-manifesto de René Dumont e Serge Moscovici, Pourquoi les Écologistes font-ils de la Politique?, de 1978. Assentam nos vários relatórios do Clube de Roma, desde 1972. O termo é consagrado em 1979 com o trabalho de Dominique Simonnet, L’Écologisme

Não se confunda, contudo, este grito de alerta com certos ideologismos lançados no final da década de setenta do século passado, quando alguns dos mais preocupados decidiram fazer intervenção política, a partir desse signo, acolhendo-se à sombra dos nomes de ecologismo e verdes. A ecologia (de oikos, casa) era, até então, um termo politicamente neutro, inventado em 1866 pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel  (1834-1919), sendo definida como a ciência que tem como objecto o estudo das relações que se estabelecem entre o ambiente, o habitat, e os organismos vivos que nele habitam. Uma área disciplinar que, quando se casou com a sociologia, logo passou a analisar a influência da localização espacial nas relações entre os homens.

 

A nova ideologia, nascida nos anos setenta e estruturada principalmente a partir de 1978, em torno do livro-manifesto do agrónomo René Dumont e do sociólogo Serge Moscovici, Pourquoi les Écologistes font-ils de la Politique?, de 1978, assenta nos vários relatórios do Clube de Roma, emitidos a partir 1972, consagrando-se o termo com várias vulgatas da altura, nomeadamente em 1979 com o trabalho de Dominique Simonnet, L’Écologisme.

 

E, ao passar a vulgata, logo esqueceu esforços anteriores, nomeadamente a defesa feita por Gilberto Freyre , de uma ecologia telúrica e de uma engenharia humana, de um homem moderno, a caminho do pós-moderno (1983, p. 168), de um homem ecologicamente situado em espaço e tempo sociais como indivíduo biológico socializado em pessoa (1995, p. 171).

 

Surgiu assim uma espécie de nebulosa, ainda marcada pelo fenómeno dos hippies, que começava a ganhar direito a grandes reuniões internacionais, como a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo em 1972, onde se proclamou que a Terra é uma nave espacial com os seus passageiros e as suas reservas de provisões já muito consumidas.

 

Isto é, saltou das escolas científicas para o facto social das ideologias verdes, onde há que acrescentar outros teóricos como Petra Kelly (1947-1992) ou Murray Bookchin em The Ecology of Freedom (1982). Passou a querer tornar-se o Estado melhor, mais pequeno e mais perto da casa, para utilizarmos as palavras de Eggers e O'Leary, em 1995.

 

Já não se passeava apenas de bicicleta pelas ruas de Paris nem se promoviam happenings de flores contra o nuclear e a caça à baleia. Nem sequer já bastava a criação de ministérios do ambiente, ou da qualidade de vida.

 

Em termos de movimentos políticos, destaca-se a criação na Alemanha, já em finais da década de setenta, da Aliança Política Alternativa, os chamados verdes. Do mesmo modo, no Reino Unido, o anterior partido ecologista também muda de nome e passa a designar-se por Green Party. Ambos defendem um radicalismo democrático descentralizador e novos modelos de desenvolvimento sustentável.

 

Contudo, dentro dos movimentos verdes, há várias tendências, desde os eco-socialistas aos que sustentam a necessidade de uma revolução cultural ou espiritual.

 

Invocando o nome de uma obra de Luc Férry, datada de 1992, podemos dizer que começou a emergir uma nova ordem ecológica, onde alguns quase caem na caricatura de salvar a natureza, mesmo que se prejudique o respectivo tirano, o homem.

 

Mas não é só destes extremismos que vive a ideologia. Merece destaque a obra de Ernst Fritz Schumacher XE (1911-1917), um economista alemão, formado em Oxford, que viveu na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, a partir dos anos quarenta. Convertido ao budismo em 1955, após uma visita à Birmânia, consagra-se em 1973 com a publicação de Small is Beautiful. Economics as if People Mattered.

 

Partindo do princípio que são finitos os recursos planetários, propõe como alternativa, à produção em larga escala e ao consequente consumismo, uma nova tecnologia limpa, assente no localismo, nomeadamente quanto à produção alimentar, que deveria libertar-se do uso de pesticidas e herbicidas, através da agricultura biológica. Advoga também a limitação do uso do automóvel e a redução do consumo de energia.

 

Na mesma senda, o psicoterapeuta norte-americano Paul Goodman (1911-1972) em Growing Up Absurd, de 1960, critica a sociedade tecnológica e o centralismo, que considera assentes no mito da eficácia, bem como a ilusão marxista, que acusava de sociolatria.

 

Retomavam-se assim algumas das sementes do próprio pensamento de Mahatma Gandhi(1869-1948), quando este defendia um novo tipo de Estado, dito da não-violência (ahimsa), que deveria abdicar da linguagem de comando e de uniformidade e passar a assentar em pequenas comunidades rurais, autogeridas e auto-suficientes. Diga-se de passagem que este celebrado exotismo oriental foi trazido por Gandhi da própria Europa, principalmente das ideias e práticas de um Lev Tolstoi, de tal maneira que a primeira quinta colectiva, ou ashram, que o indiano lançou nos arredores de Durban recebeu o nome desse russo, inspirador do anarquismo místico.

 

Outro dos precursores é o brasileiro Josué de Castro(1908-1973), professor de geografia humana no Rio de Janeiro desde 1939, que foi presidente da FAO de 1952 a 1956, autor de Geografia da Fome, com uma primeira edição de 1946, a que se seguiu a Geopolítica da Fome, em 1951, O Nordeste do Brasil, de 1965, e Homens e Caranguejos, de 1966.

 

Há até aqueles que, na senda do antigo dissidente da RDA e militante dos Verdes Rudolf Bahro (1935-1997), pretendem fazer a ligação com uma espécie de procura da Idade do Ouro das sociedades pré-industriais, substituindo a ecologia pela teologia, e que se aproximam de algumas pregações do próprio Adolf Hitler. O que até explica a adesão de um Ernst Jünger  (1895-1998) ao mesmo movimento de ideias, em nome da chegada de uma nova ordem cósmica, da mãe-terra, que fundiria, num astro único, a estrela vermelha dos soviéticos e as estrelas brancas da bandeira norte-americana, conforme visiona em Der Weltstaat, de 1960, onde admite a passagem dos grandes espaços à ordem global, dos Estados mundiais ao Estado universal, onde o organismo humano poderá, liberto do jugo da organização, aparecer sob uma forma mais pura, como a epifania do homem, num caminho onde só a poesia e os poetas podiam traçar-lhe a rota (1960, pp. 90 e 93).

 

Outros, como Ivan Illich (1926-) chegam mesmo a defender uma sustentabilidade sem desenvolvimento, contra o consumismo e através de uma espécie de ascese, típica da pobreza cristã. Não faltam até os que misturam o naturalismo do século XVIII com as teorias apocaliptícas, assim se gerando toda uma literatura catastrofista que se insurge contra a modernidade e a religião do progresso.

 

De qualquer maneira, o ecologismo atravessa todas as tradicionais ideologias, ditas de direita ou de esquerda, dos tradicionalistas aos revolucionários, configurando-se mais como uma forma de olhar o mundo. Hitlercom os seus devaneios wagnerianos era tão ecologista como o salazarista viver habitualmente, mas, depois de 1974, também verificámos que o primeiro movimento ecologista foi assumido por Gonçalo Ribeiro Teles (1922-), a nível do Partido Popular Monárquico, antes dos comunistas gerarem um partido verde, que alguns qualificam como melancia, dado ser verde por fora, mas vermelho por dentro.

 

Tudo se desencadeou num tempo de grandes catástrofes industriais, bem expressas pelos desastres das centrais nucleares de Three Mile Island (1979) e Tchernobil (1986) ou da fábrica da Union Carbide em Bohpal, na Índia (1984), para não falarmos nos erros da talidomida e das vacas loucas, nesses sucessivos efeitos Titanic. A consciência deste risco tecnológico maior levou até a que se reunisse a chamada Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro, de 3 a 14 de Junho de 1992, também dita Eco 92, onde se estabeleceu um novo conceito de desenvolvimento para o reequilíbrio das relações Norte-Sul, dito socialmente equitativo, ecologicamente viável e conscientemente eficaz.

 

Mas outros desafios continuam à espera de resposta, como a mudança climática, o aquecimento do Globo, a emissão de gases tóxicos para a saúde, o buraco do ozono, as chuvas ácidas, o efeito de estufa, a desertificação, o desaparecimento das florestas e do solo arável, a destruição das espécies, a poluição dos oceanos ou a contaminação das águas interiores, para não falarmos no controlo das cerca de quatrocentas centrais nucleares em funcionamento.

 

Porque se os homens já tomaram consciência desses dramas globais, não chegaram ainda à definição de uma estratégia de intervenção transnacional.

 

Basta recordar a questão da poluição atmosférica, ligada à urbanização e à utilização do automóvel. Se no começo da década de 1960 existiam 50 milhões de veículos em todo o mundo, o número multiplicou-se por oito, mas para benefício apenas de 8% da população mundial.

 

Refira-se também o efeito de estufa, provocado pela emissão de gás carbónico, pelos meios de transporte e pelas actividades industriais, nomeadamente as de produção de energia, inconveniente que teve uma regulação mundial com o Protocolo de Quioto, de 1997, que, infelizmente, ainda não recebeu plena ratificação pelos Estados.

 

Da mesma forma, aumenta o buraco da camada de ozono, pela emissão de milhões de toneladas de CFC, enquanto as chuvas ácidas vão alastrando. As constantes ameaças à biodiversidade e as gigantescas operações de desflorestação são acompanhadas pela degradação dos solos, pela desertificação, pela escassez e poluição das águas  e pela criação de resíduos sólidos, líquidos e gasosos que o ambiente não consegue absorver.

 

Segundo dados de 2001 do United Nations Population Fund, no século XX, se o número de homens quadruplicou, as emissões de dióxido de carbono, que retêm o calor na atmosfera, aumentaram cerca de doze vezes. Os países mais ricos do mundo, com 20% da população mundial, representam 86% do consumo privado total, enquanto a mesma proporção de mais pobres apenas representa 1,3%. As condições ambientais são, aliás, responsáveis, em cada ano, por 20 a 25% das mortes no mundo. Simples intervenções ecológicas poderiam evitar cerca de 60% das infecções respiratórias agudas e 90% das diarreias. Em África, por exemplo, se apenas 5% da população vivia em zonas urbanas em 1900, hoje a percentagem é de 38%, como uma taxa anual de crescimento urbano que passa os 4%. Na região Ásia-Pacífico, há, actualmente, 35% de população urbana. Prevê-se a elevação para o dobro da população urbana no mundo não-desenvolvido, passando-se dos actuais 1 900 milhões para os 3 900 milhões.

 

Sobre as questões do ecologismo e do futurismo: Barney (1980), Bell (1987), Beres (1974), Braillard (1992), Condesso XE  (2000, 2001), Dumont (1991), Ehrlich (1971, 1974), Ellul (1977), Falk (1951, 1975), Férry (1992), Figueiredo (1992), Gabor e Columbo (1977), Kahn (1976), Lazlo (1977), Lovelock (1979, 1988, 1991), Marques (1998), Meadows (1972, 1982, 1992), Mesarivici e Pestel (1974), Montbrial (1978), Morin(1993, 1994), Moscovici (1977), Ohmae (1982), Olson e landsberg (1976), Peccei (1975, 1976, 1979, 1981), Ribeiro (2001), Rosecrance (1999), Rougemont (1977), Schwartz (1991), Sprout (1965), Toffler (1980, 1990), Watt (1974), Young (1989, 1994, 1996, 1999).

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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