José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Etnocentrismo

 

Não há Portugal sem África... se formos uma Nação toda a acreditar no futuro das nossas colónias e a querer realizar esse futuro de prosperidades, Portugal renascerá como renascem os pais nos filhos

Enes, António

 

Para o colonizado a vida só pode surgir do cadáver em decomposição do colono, dado que o colonialismo significou a morte da sociedade autóctene. Abater o colono é matar o opressor e o oprimido

Fanon, Frantz

 

 

Etnia Termo cunhado pela antropologia, em contraposição ao de raça. Se esta define um grupo por referência a critérios biológicos, já a etnia tem em vista critérios culturais, como a língua, a história, as crenças e o sentimento de pertença a uma determinada comunidade.

 

Atitude em que se julga as sociedades de diferente civilização, segundo os critérios daquela a que pertencemos. Esta atitude de quase desprezo pode também manifestar-se numa sociedade complexa relativamente a grupos profissionais, económicos ou outros, diferentes do nosso.

 

Por mais que nos esforcemos, ainda não superámos os preconceitos, daquela atitude que julga, como inferiores, aqueles que apenas são diferentes, segundo os critérios dominantes na nossa esfera cultural. Queremos apenas submeter os outros a um processo de aculturação e de posterior assimilação, mesmo que já não tenhamos força para os colonizar através da radical eliminação das respectivas memórias. Porque apenas se assimilam grupos, depois da competição, do conflito e da adaptação.

 

Basta recordar que o processo do colonialismo europeu, nascido do generoso republicanismo francês, assentava naqueles mitos expressos por Jules Ferry (1832-1893), para quem as raças superiores tinham um direito sobre as raças inferiores (proclamação parlamentar de 1855). A mesma postura que o levou, já em plena III República Francesa, quando estava no poder, a declarar que os Direitos do Homem não são feitos para os negros. Um modelo, aliás, semelhante ao dos founding fathers da Constituição norte-americana, que nunca aplicaram os direitos nela consagrados a índios e, depois, a negros, sempre considerados uma peculiar institution, susceptível de matança, ou de sujeição ao apartheid, sempre em nome do progresso e da luta pela civilização.

 

Com efeito, os impérios coloniais europeus, desencadeados a partir do século XIX, sempre consideraram que só poderiam conceder-se direitos aos que fossem submetidos a um prévio processo de educação civilizadora. E não foi apenas o providencialismo germânico de Friedrich List (1789-1846), em Das nationale System der politischen Oekonomie, de 1841, que proclamou a necessidade de civilizarmos os países selvagens e bárbaros e povoar os ainda desabitados. Esta ideia do white man's burden fazia tão naturalmente parte do Euromundo que até foi assumida pela Sociedade das Nações, não deixando de persistir nos dias que passam, quando se restringe o modelo de desenvolvimento político àquele que marca a chamada história dos vencedores.

Chega-se ao cúmulo de, em certas universidades portuguesas, ser proibida a própria reflexão portuguesa, ou em língua portuguesa, em matérias como a economia e a ciência política, não faltando o ridículo de certas entidades católicas substituírem a universalidade da doutrina social da Igreja pela political theory WASP, como se línguas como a portuguesa ou a castelhana fossem mais um desses falares resistentes daquelas minorias ecológicas em vias de extinção, que correm o risco de passagem ao cemitério das culturas mortas, para gáudio dos pesquisadores dos primitivos actuais.

Basta assinalar como desapareceram, do comércio cultural, as reflexões universitárias afro-asiáticas e como não é chic a invocação de autores sul-americanos, mesmo neste nosso universo de matriz latina. Talvez por isso é que são raras as tentativas de teorização das formas de legitimidade política que não se enquadrem no padrão normalizador das universidades anglo-americanas, ou, quando muito, de língua francesa.

Este preconceito é bastante evidente nos domínios da vulgarização mediática, onde os nossos meios de comunicação da pretensa elite, desligando-se do ambiente universitário, preferem recorrer a elementos marginais dos grandes centros de colonização cultural do mundo ocidental, caindo, muitas vezes, na ratoeira de ideologismos, fomentados por movimentos vanguardistas que não têm acolhimento cultural nos lugares de origem. Mais grave é quando essa militância marginal recebe consagração nos próprios manuais escolares, em matérias de história contemporânea, como, entre nós, vai sendo abusado pelos herdeiros do Mai 68.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:06-05-2009

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