José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

 Paradigma

 

 

 

O paradigma é um conjunto de crenças, de valores reconhecidos e de técnicas comuns aos membros de um determinado grupo científico

Kuhn, Thomas Samuel

 

 

Modelo abstracto ou tipo ideal configurado por referência a um objecto real. Raymond Boudon considera que um modelo ou paradigma corresponde àquilo que nas ciências sociais equivale às teorias das ciências físicas. Podem ser conceituais (definição de vocábulos), formais (regras de sintaxe) ou teóricos. Os paradigmas conceituais e formais constituem quadros de referência, enquanto os teóricos são teorias desenvolvidas num sector da realidade e aplicadas por analogia a outros sectores.

 

O tempo acelerado das mudanças a nível do objecto material das relações internacionais, leva a que tal campo de estudo seja um bom exemplo do conceito de paradigma, adoptado por Thomas Kuhn (1922-1996). Aquele conjunto de crenças, de valores reconhecidos e de técnicas comuns aos membros de um determinado grupo científico. Porque tem elementos lógico-formais (generalizações simbólicas que funcionam em parte como leis, em parte como definição de alguns símbolos que elas integram); elementos metafísicos (os modelos que fornecem a uma comunidade científica, as analogias ou metáforas preferidas ou permissíveis); elementos axiológicos (valores, como coerência interna ou externa, simplicidade ou plausibilidade das teorias); elementos técnicos (exemplares, as soluções concretas dos problemas que os estudantes encontram, expressando-se através de manuais); e elementos sociológicos (a adesão de uma comunidade de cientistas).

Acontece que esse tal paradigma, a que deve obedecer qualquer ciência, não passa de uma visão do mundo sancionada pela comunidade científica, e até requer, inevitavelmente, um acto de fé.

Porque não há fundamentos racionais para a escolha entre os múltiplos paradigmas disponíveis, dado que muitos deles podem resolver uma série de problemas. Logo, essa ilusão de ciência normal, obtida sempre que se dá a aplicação estável de um paradigma, está sujeita ao inevitável desenvolvimento histórico

Porque, quando as anomalias se acumulam, tal ciência normal é derrubada por uma revolução científica, da qual surge um novo paradigma. O progresso científico depende, aliás, de tais anomalias, desses fenómenos que o paradigma dominante não consegue explicar e que levam à busca de um novo paradigma, o qual, quando é adoptado pela comunidade científica, produz o progresso. Há, portanto, uma descontinuidade no progresso científico, onde, aos longos períodos de normalidade, quando conduzidos inteiramente no interior de um paradigma dominante, se sucedem as perturbações ocasionadas pelas revoluções científicas.

Neste sentido, a verdadeira ciência, apesar de nunca deixar os paradigmas, tem de admitir a dinâmica daquelas centros excêntricos, não-conformistas, tal como estes devem reconhecer que, contra o dogma ultrapassado, não podem erigir um contra-dogma, tão, ou mais, dogmático que o primeiro.

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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