É preciso dizer que o rei vai nu

 

 

 

Um governo autoritário, que vive à custa do silêncio dos adversários e nega os direitos do cidadão pode impor-se num país de escravos, nunca a um povo que teve de lutar com extremos de bravura para fundar a sua independência e expandir-se no mundo. Nada de um português do velho cerne pode perdoar do que reduzirem-nos à condição de menor.

Cortesão, Jaime

 

 

A salazarquia  é um regime de constrangimento que oprime a vida do espírito em Portugal, provocando a dissolução moral que diariamente vamos assistindo

Raposo, Hipólito

 

 

A II República do Estado Novo é a eternização do provisório, é  algo de ilógico, onde reina uma ordem à maneira sepulcral dos cemitérios

Monsaraz, Alberto  

 

 

Salazar e o regime cometeram o monstruoso erro psicológico de quererem governar este povo com... método geométrico, coercitivo e glaciar, levando a uma rotura no parentesco dos portugueses.

Vieira, Afonso Lopes

 

Salazar fez uma revolução a frio, esquematizada pela razão, conduzida pelos caminhos da inteligência, como se fosse uma experiência de laboratório

Preto, Francisco Rolão

 

 

Para grande parte da intelectualidade ainda vigente, o nome esquerda ainda é uma espécie de indulgência plenária que lhe parece garantir o acesso ao colectivismo moral do bem, do caminho e da verdade, com justiça, liberdade, fraternidade e amanhãs que cantam. Já a direita é sinónimo de besta do apocalipse, coisa de burrinhos, safados, capitalistas de faca na liga, primos de antigos dirigentes da Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, sobrinhos de ministros do Ancien Régime e bastardos de caseiros de marqueses, onde os únicos escrevinhadores que valem a pena são os que fazem rapapé aos papas da crítica, ou que recebem elogio de um desses grãos de mestre do sindicato dos elogios mútuos.

 

Detesto esse rigoroso controlo salazarento de certas senhorias que, muito estalinisticamente, registam as palavras escritas dos respectivos despachos, chapas, artigos, conferências e demais declarações, incluindo entrevistas com jornalistas avençados ou a quem se deu emprego. Reconheço as qualidades de quem tem o cauto e vérmico auto-controlo cerebralista, mas talvez possa notar que a erosão do tempo lhes fez saltar a tampa noutros segmentos do quotidiano, revelando-se a visceral verdade que lhes dá a tal força da vingança que, desde sempre, os moveu.

 

Por isso, ei-los sentados no coiro dos respectivos sofás, entre os cortinados da pose e a contraluz, donde vão fulminando sedutoramente o convidado e emitindo as respectivas argumentações, feitas de restos de articulados forenses e de doces conezias, mas descendo aos recantos ardilosos da infâmia, para assassinarem o carácter dos desobedientes.

 

Há muitos que, herdeiros dos velhos métodos do capataz das quintarolas, não reparam que, apesar de se conservarem cerebralmente intactos nas requintadas volutas, podem comprometer a excelsa intelectualice, quando a diluem nos meandros administrativistas do supremo equilibrismo político-mediático, político-partidocrático ou político-universitário. Sobretudo, quando se enredam na persiganga, na vindicta e no saneamento, regressando aos tempos áureos da directorice autocrática da impunidade.

 

Pensando que mantêm a suprema ambição, perdem o sentido das proporções e o nível do voluntarismo, deixando que maus olhados e péssimos ouvidos alheios se transformem nas cordas que os ligam à realidade. Quando o veneno da intriga fomenta os resíduos inquisitoriais e não os deixa reparar que já não vivemos no tempo em que era lei o que o príncipe dizia e que o mesmo estava dispensado da própria lei que podia editar, é Portugal que padece. O modelo decretino desse hipócrita legalismo, em que tais seres ascenderam ao olimpo da impunidade, apenas fomenta a criação de núcleos de fidelismo feudal e de muitos tumores por extirpar.

 

Julgo escapar às tenazes desses colectivismos da citação mútua, onde o acotovelar de elogios mútuos e a reprodução das excelências pela clonização dos papagaios doutorais, no circuito fechado de certos claustros, com concursos públicos feitos com fotografia, deviam obrigar-nos a rejeitar este modelo decadentista. Nesta sociedade da imagem e da sacanagem, o próprio doutorismo universitário já caiu no logro dos cinco minutos de fama telejornalísticos.

 

Basta que continue este regime dos poderios, onde há pretensos universitários que têm fama por serem, ou por terem sido políticos, tal como há partidocratas que têm fama por terem usurpado títulos universitários, mesmo sem ferirem o legalismo. Quando os carimbos universitários de muitos professores da mala ruça se reduzirem aos cartões de visita e às fatiotas para uso nas procissões da vaidade, não tardará que, também nestes domínios, entre em vigor o regime da quinta das celebridades.

Última revisão:12-04-2009

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