Bolívia

 

Bolívia

1 084 390 km2 e 7,4 milhões de habitantes.

Antes da chegada dos espanhóis, no século XVI, a região que constitui hoje a Bolívia albergava uma imensa concentração de índios, repartidos pelas populações Quechuas e Aymaras, que rapidamente foram utilizadas pelos colonizadores como mão-de-obra nas recém-descobertas minas de prata, especialmente as do Potosí, achadas logo em 1545. Designada de Alto Peru, aquela que era uma das mais ricas e densamente povoadas áreas do império espanhol entra em colapso a partir de finais do século XVIII, ante a decadência das minas de prata, para se tornar hoje na economia mais pobre da América do Sul, com o consequente congelamento da sua estrutura populacional, com uma maioria indígena (37 % Quechuas e 32% Aymaras), 13% de mestiços e 10% de brancos. Politicamente, encontrava-se dependente primeiro do vice-reino do Peru, estabelecido em Lima e, a partir de 1776, do novo vice-reino de Buenos Aires.

O movimento independentista inicia-se em 1809 com as rebeliões de Chuquisaca (hoje Sucre) e La Paz, após a ocupação do trono espanhol, um ano antes, por José Bonaparte, as quais, apesar de imediatamente combatidas, não foram totalmente extintas, nem mesmo pelas tropas da monarquia restaurada espanhola. Assim, a continuação das movimentações guerrilheiras, combinada com a declaração de independência, em 9 de Julho de 1816, das Províncias Unidas do Rio da Prata, em nome dos actuais territórios da Argentina, da Bolívia e do Uruguai, e com o consequente apoio militar daí decorrente, conduz à libertação do território pelo principal colaborador de Simão Bolívar, Antonio José de Sucre, em 1825, seguindo-se, em 6 de Agosto, a declaração de independência, emitida por um Congresso do Alto Peru. O nome adoptado, Bolívia, constituía um agradecimento ao apoio de Simão Bolívar, e o primeiro Presidente seria Sucre.

Em breve, a reduzida viabilidade económica daria lugar à mais pobre das novas repúblicas, onde as principais receitas resultam da cobrança de impostos aos índios, processo que se reflectia no sistema político, crescentemente caracterizado pela emergência de caudillos militares, de entre os quais sairia o Presidente seguinte, Andrés de Santa Cruz, que, pelo derrube do Presidente peruano, Agustín Gamarra, instituiria entre 28 Outubro de 1836 e 20 Fevereiro de 1839 a Confederação Peruano-Boliviana. A intervenção militar chilena que pôs fim ao projecto anteciparia a chamada Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1784. As suas origens devem ser procuradas na concretização dos interesses chilenos nas reservas de guano e de nitratos na província boliviana costeira de Atacama, sempre assegurados através da obtenção de concessões comerciais por parte da Bolívia, cuja resposta foi dupla: por um lado, a assinatura de um tratado de aliança com o Peru e, em face da ineficácia deste mecanismo, o aumento da taxação sobre as empresas chilenas que procediam à exploração dos recursos. A imediata invasão chilena resultou na derrota quase imediata da Bolívia, em 1880, e na consequente anexação, pelo Chile, da província de Atacama, privando a Bolívia da sua única saída para o mar, e na continuação das hostilidades com o Peru, que terminaram com a captura de Lima pelas tropas chilenas. As repercussões para a política boliviana foram imediatas, com a substituição dos caudillos militares por uma elite da indústria mineira, que entretanto havia começado a beneficiar da retoma das minas de prata e, depois, da descoberta de estanho, e que seria marcada, nas décadas seguintes, pelo condomínio dos recém-constituídos Partido Conservador (entre 1880 e 1889) e Partido Liberal (entre 1889 e 1920). Estabelecidos no poder após a chamada Revolução Federal de 1889, os Liberais conseguirão estabelecer efectivamente um sistema monopartidário, apesar da perda do território do Acre em 1903, comprado pelo Brasil, até 1914, ano em que emerge o Partido Republicano, que, em 1920, tomará o poder através de um golpe de Estado. Em 1932, um incidente na região fronteiriça do Chaco constituirá a causa de uma guerra de três anos entre a Bolívia e o Paraguai, com consequências fundamentais para a Bolívia - perda de 100 mil homens e de extensos territórios -, das quais resultará a tomada do poder pelos militares em 1936, que instituirão um regime de orientação socialista.

Os anos 40 serão marcados pela instabilidade política, com a formação de diversos grupos, onde ressaltam o Partido de la Izquierda Revolucionaria (PIR), marxista, e o Movimiento Nacionalista Revolucionario (MNR), inicialmente de orientação fascista, mas que, após a experiência ao lado do governo do coronel Gualberto Villaroel, entre 1943 e 1946, procurou uma aliança com um grupo trotskista e iniciou revoltas sucessivas até ao derrube final do regime militar em Abril de 1952. Inicia-se então a Revolução Nacional Boliviana, de cariz social: desmantelamento dos privilégios da indústria mineira, que foi nacionalizada, e da sua clique política; ampla reforma agrária; sufrágio universal, mediante a abolição da exigência de literacia como condição sine qua non para se exercer o direito de voto; armamento das populações indígenas, que, libertas da servidão e agora dotadas do direito de voto, se tornariam num factor incontornável na luta pelo poder.

Em 1964, os militares regressarão à cadeira presidencial, através de um golpe de Estado, dissolvendo-se todos os grupos políticos, altura em que as tentativas revolucionárias organizadas por Ernesto Che Guevara o levam à morte, em 1967, que sobreviveram com a criação do movimento guerrilheiro Exército de Libertação Nacional. Em 1978, uma tímida tentativa de regresso à democracia provar-se-ia ineficaz, em face da ocorrência de fraude nas eleições gerais, tal como, aliás, aconteceu nas eleições de 1980. A continuação do regime militar, daí em diante marcada por golpes e contra-golpes, desembocaria, em 1982, na reabertura do Congresso e na nomeação de Siles Zuazo para Presidente, cargo que ocuparia até 1985, data em que o Congresso elege o ex-Presidente Víctor Paz Estenssoro (1952-56 e 1960-64, impulsionador da Revolução Nacional Boliviana), que empreendeu um programa económico de austeridade bem sucedido. Outra questão fundamental, entretanto, era a droga, cujos barões mantinham uma estreita ligação à política desde 1972, com o regime militar de Hugo Banzer Suárez (Presidente entre 1971 e 1978); a Bolívia era agora o segundo maior exportador de cocaína refinada do mundo, produção que serve de suporte a toda a economia. Em Maio de 1989, nenhum dos três candidatos obteve a maioria nas eleições presidenciais, pelo que a escolha recaíu sobre o Congresso, que nomearia Jaime Paz de Zamora, líder do Movimiento de Izquierda Revolucionaria. Sucederam-lhe Gonzalo Sánchez de Losada, do MNR, entre Agosto de 1993 e Agosto de 1997, e, desde esta data, o chefe de Estado é Hugo Banzer Suárez.

 

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: