Chile
 

748 800 km2 e 14,3 milhões de habitantes.

A conquista espanhola do Chile fez-se a partir do ano de 1540 por Pedro de Valdivia e, em breve, os novos territórios estavam integrados no vice-reino do Peru. A organização fundiária obedeceu a um sistema de distribuição de grandes propriedades aos conquistadores - os chamados fundos - que ainda hoje caracterizam a paisagem rural. Ao mesmo tempo, a estrutura populacional - escasso recurso à mão-de-obra africana e índia - começava a adquirir os seus traços essenciais, que contribuíram para o actual panorama: 65% de mestiços e 30% de brancos.

A independência é o resultado de uma série de acontecimentos internacionais que não poderiam deixar de ter eco na colónia - as Revoluções Americana, em 1776, e Francesa, em 1789, a independência do Haiti, em 1804, a penetração britânica no Prata e, sobretudo, a invasão napoleónica de Espanha, em 1808. Paralelamente a um movimento que tinha lugar nas outras possessões espanholas, os representantes de grupos privilegiados reunem-se num cabildo abierto em 18 de Setembro de 1810 para assegurarem o auto-governo, que é entregue a uma junta de líderes locais. Restaurado o monarca espanhol no trono, em 1814, a que se segue o restabelecimento do controlo da colónia, na Batalha de Rancagua, em Outubro desse ano, pondo termo à chamada patria vieja, a facção independentista, encabeçada pelos irmãos Carrera e pelo meio-irlandês Bernardo O’Higgins, parte para os EUA e para a Argentina em busca de apoio. Assim, em 12 de Fevereiro de 1817 O’Higgins vence o exército realista em Chacabuco e é nomeado director supremo do Chile, proclamando, um ano depois, a independência. Desde logo, a exclusão das massas do processo revolucionário e, depois, das estruturas de poder, actua em favor das oligarquias dominantes que, após a consolidação da independência, com a eliminação das guerrilhas realistas e da expulsão definitiva dos espanhóis da América do Sul, forçam O‘Higgins a demitir-se em 1823, o qual pretendia reduzir os seus privilégios.

Até 1830, a vida política ficará marcada pela instabilidade associada às disputas entre federalistas e centralistas e entre liberais e conservadores, que termina em 1830, quando estes obtêm o poder, com o apoio do exército, e fazem aprovar uma nova Constituição, em 1833, que cria uma estrutura centralizadora, pronta a servir os interesses dos terratenentes. A ascensão de uma nova oligarquia mineira e a emergência das ideias liberais em meados do século XIX combinaram-se para pôr termo ao governo autoritário de Manuel Montt (1851-61), instituindo, entre 1861 e 1891, a chamada República Liberal, que, a partir de 1872, faz triunfar a laicização no país. Na mesma altura, o Chile começa a definir as suas actuais fronteiras. Em 1881, com a Argentina, ao longo dos Andes e na Terra do Fogo. A Guerra do Pacífico, entre 1879-84, causada pelo aumento dos impostos sobre as empresas chilenas que exploravam o guano e os nitratos da província boliviana de Atacama, resulta na anexação deste território e das províncias peruanas (o Peru tinha um tratado de aliança com a Bolívia) de Tarapacá e de Arica, completando assim a particular geografia chilena. Os 4700 km de comprimento e os 250 km de largura, juntamente com a dispersão da população em verdadeiras cidades-ilhas, separadas entre si e dos países vizinhos por acidentes naturais (a norte, o deserto de Atacama; a leste, os Andes; a sul, a floresta, os fiordes e os glaciares), facto apenas mitigado pela equidistância de Santiago em relação aos extremos, produziram uma sociedade insular e conservadora onde ainda hoje o divórcio e o aborto são ilegais e onde os homossexuais podem ser processados.

A oposição entre centralizadores e descentralizadores reanima-se a partir de 1891, ano que uma guerra civil entre os dois determina a criação de uma república parlamentar, que se manterá até 1920, na qual a oligarquia, determinada a controlar o processo político, se vai organizar em partidos, impulsionados também pelo crescimento das classes média e baixa: em 1887, nasce o Partido Democrático; em 1888, o Partido Radical; em 1897, um grupo anarquista, que, em 1901, se transforma em Partido Socialista; em 1912, o Partido Obrero Socialista, ou Partido Comunista, a partir de 1922.

À saída da Primeira Guerra Mundial, o tecido social chileno encontrava-se fracturado pela incapacidade de adopção de reformas tendentes a melhorar as condições de vida das classes mais baixas. A presidência do reformista Arturo Alessandri Palma, iniciada em 1920, revelou os problemas do parlamentarismo em fazer aprovar legislação nesse sentido, pelo que, em 1925, a nova Constituição reintroduz o sistema presidencial, que, no entanto, se revela incapaz, nos anos seguintes, de evitar nova turbulência política, facto que só se resolve efectivamente com o retorno de Alessandri, em 1932. Entre 1938 e 1952, o sistema político caracterizar-se-á pela ascensão do Partido Radical, que, com o mandato de Gabriel González Videla, marcou uma viragem à direita, com a proibição do Partido Comunista em 1948.

A manutenção do statu quo político e social entre 1952 e 1964 muito contribuiu para a revitalização dos partidos de esquerda, particularmente o Partido Comunista e o Partido Socialista, e para a emergência do novo Partido Cristão Democrata, centrista, todos com um ponto em comum: a implementação de uma ampla reforma económica e social. Assim, eleito em 1964, o cristão-democrata Eduardo Frei Montalva, sob o lema "revolução em liberdade", levou a cabo um programa que incluía a nacionalização da indústria extractiva do cobre, a reforma agrária e o incentivo à participação na política das classes mais baixas, políticas prosseguidas e aprofundadas pelo socialista Salvador Allende Gossens, eleito em 1970 por uma coligação de partidos de esquerda, a Unidade Popular, que pretendia uma transição para o socialismo. Com a economia em queda, devido ao aumento da inflação, à estagnação da produção e à suspensão do investimento estrangeiro, a que se segue a instabilidade social (greves, bombas e assassínios), os militares tomam o poder em 11 de Setembro de 1973, a que se unem a oligarquia, o Partido Nacional e os Cristãos-Democratas, para apoiar aquilo que julgavam ser um período de transição para o regime anterior a 1970. Morto Allende, alegadamente por suicídio, a junta militar, composta por quatro elementos, liderados pelo general Augusto Pinochet, que Allende havia nomeado comandante em chefe do exército, procede ao encerramento do Congresso e à ilegalização dos partidos políticos e dos sindicatos. No ano seguinte, a Lei de Estado confere a Pinochet a totalidade do poder executivo, delegando o legislativo na junta. No plano económico, enquanto fiel discípulo da Escola de Chicago, porá em prática os seus ditâmes neoliberais - encorajamento do investimento estrangeiro, privatizações, corte nas despesas públicas, liberalização das taxas de juro, refinanciamento da dívida externa, condições prévias para a obtenção dos empréstimos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento -, que, num primeiro momento conduzem ao desemprego e à descida dos salários reais, mas que, depois, transformam o Chile num dos países mais bem sucedidos. A taxa de crescimento média anual de 7%, uma classe média que representa 60% da população, uma taxa de alfabetização de 95% e uma esperança de vida de 74 anos encobrem, porém, uma das maiores clivagens entre pobres e ricos: 25% da população vive abaixo de limiar de pobreza.

Em 1980, o mandato presidencial de Pinochet é prolongado por oito anos, de acordo com a nova Constituição, que inclui igualmente disposições que prevêem o regresso à vida civil no final desse período. A partir de 1983, os partidos da oposição, incluindo os Cristãos-Democratas, formam uma coligação de centro-esquerda, a Aliança Democrática, com o apoio da Igreja Católica, tendo em mente o regresso à democracia e o fim da repressão levada a cabo pela polícia secreta, a DINA, e a sua "guerra suja", que se saldou por três mil desaparecidos e 80 mil presos políticos. Ao mesmo tempo, formam-se dois movimentos guerrilheiros de luta contra o regime, que permanecem activos: em 1983, a Frente Patriótica Manuel Rodriguez, braço armado do Partido Comunista Chileno, que, em 1991, se transformou em partido político; no final dos anos 80, as Forças Rebeldes Populares Lautaro, grupo dissidente do Movimento de Acção Popular Unificada, que integrou o Governo de Allende. Em 1988, ano em que terminava o seu mandato, Pinochet convoca um referendo para a sua extensão por mais oito anos, mas o resultado é negativo. Assim, no ano seguinte, as eleições presidenciais dão a vitória ao cristão-democrata Patricio Aylwin, pela Coligação de Partidos pela Democracia.

Em 1993, o também cristão-democrata Eduardo Frei, filho de um anterior Presidente, sucede-lhe, à frente de uma coligação de partidos de centro-esquerda. Em 1999, o processo democrático consolida-se com a eleição do socialista Ricardo Lagos, antigo ajudante de Allende.

No entanto, a figura de Pinochet manteve-se omnipresente na vida política do país. Após abandonar a presidência, manteve-se como comandante em chefe do exército, cargo que abandonou em 1998 para ocupar o lugar de membro vitalício do Senado, onde tem contribuído para impedir a revisão da Constituição de 1980, que se mantém em vigor e que confere às Forças Armadas amplos poderes: controlo sobre o seu orçamento e sobre o Conselho de Segurança Nacional, nomeação do seu Chefe-de-Estado-Maior.

Membro da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) desde 1994.


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